#1 … no país da fotografia

L’apparence prend toujours le dessus sur le réel, le masque sur le masqué. On montre pour cacher, mais on montre surtout pour montrer…
Jean-Pierre Martel

País onde num espaço de 3 anos se “escurecem” os 2 maiores certames expositivos nacionais, LisboaPhoto e os Encontros de Fotografia de Braga, não não é para mim este país. O O’Neill que me perdoe a apropriação mas nem tudo aparenta negatividade, o espaço vazio deixado pelo investimento dos dinheiros públicos na área da exposição/divulgação vai sendo apropriado pelo circuito das galerias e pelos institucionais que apostam na área (Berardo, BES, Glubenkian), o que embora não dando uma noção exacta da vitalidade (ou do oposto) da fotografia portuguesa, dá pelo menos a idéia de que existe um mercado.

Este fim de semana fiz-me ao caminho e fui ver… No sábado 3 locais, Galeria S Bento, Plataforma Revólver/Rock Gallery/VPF Cream Art Gallery e a Galeria Zé dos Bois. Nos 2 primeiros terei estado respectivamente 20 minutos e cerca de uma hora, não entrou mais ninguém, no último terei estado uns 45 minutos e entrou uma pessoa. Tentei ainda visitar 2 locais que supostamente estariam abertos ao Sábado à tarde, a Foto Imagerie e a Galeria K, do colectivo português Kameraphoto, em ambos os casos nem um aviso, um volto já, nada, desconheço que tipo de impacto sobre o público terão estas atitudes, no meu caso fiquei com pouca vontade de voltar… Quanto à falta de públicos, estando perante exposições de artistas consagrados ou emergentes e não de exposições “amadoras”, é de especular por onde andam os alunos de artes, da imensa mole de fotógrafos, de outros artistas e interessados? É também de considerar que as exposições tenham o seu pico de visitas na época da inauguração e que depois a assiduidade venha por aí abaixo, mas é de perguntar se estamos em Lisboa?

Galeria S Bento

‘I LOVE YOU, OH, YOU PAY MY RENT’
Paulo Romão Brás e Sandro Resende
Galeria de São Bento
13 Setembro – 13 Outubro

“O que leva um artista a expor o seu trabalho? A sobrevivência, o ego ou a necessidade de aceitação e crítica? Estas suposições criam ansiedades e compromissos entre as várias entidades envolvidas no processo: artistas, críticos e galerias. Paulo Romão Brás e Sandro Resende são dois artistas emergentes que aliam o trabalho artístico ao dia-a-dia das suas profissões, retirando destas o seu manancial criativo.
O primeiro recolhe fotografias ao acaso, produto de algumas memórias já passadas. Utiliza-as depois como suporte para um trabalho de desenho e, por fim, cria uma nova imagem impressa. Esta destruição e reconstrução das imagens, leva-o a inventar novos personagens e novas histórias a partir das já existentes.
O segundo, parte das relações sociais e afectivas que estabelece, analisa a dificuldade de comunicação existente, sublinhando a necessidade de definição da culpabilidade pelos nossos actos enquanto seres humanos. Imagina então que essa ‘in-comunicação’ tem uma forma e um código, mostrá-la e descodificá-la será o
primeiro passo para que seja reconhecível ao observador. Em ‘I LOVE YOU, OH, YOU PAY MY RENT’, Paulo Romão Brás e Sandro Resende assumem a exposição pessoal e artística, esferas indissociáveis na relação da arte com o público, do artista com o meio em que se exprime, mas que sistematicamente procuram confrontar nas suas práticas pessoais de identificação social e criativa.

‘I LOVE YOU, OH, YOU PAY MY RENT’
Do tema ‘RENT’ álbum Actually, Pet Shop Boys, 1987.
” retirado do Centro Português de Serigrafia

Paulo Brás apresenta desenho sobre fotografia, em contra-corrente ao actual panorama de quanto-maior-melhor, tratam-se de dimensões relativamente pequenas. A fusão que possa existir entre a fotografia e outras artes visuais apresenta hoje em dia tantas possibilidades, pintura, ilustração, desenho, etc, que é gratificante verificar a existência de algumas propostas nesse domínio. Fotografias bem escolhidas, por si próprias já passíveis de contar uma história, no entanto os desenhos nelas apostos deixam-me algo renitente em considerar uma forma conseguida e coerente, defeito meu talvez… Sandro Resende tinha a sua exposição amputada da principal fotografia por razões não mencionadas pela pessoa que me atendeu, quanto a factos não há argumentos…

Plataforma Revólver/Rock Gallery/VPF Cream Art Gallery

Nesta visita deparei-me com 3 propostas expositivas no mesmo edifício, nenhuma delas tendo como pano de fundo a fotografia, mas ainda assim a permitir uma bela viagem pela arte contemporânea portuguesa. (ver mais em ARTECAPITAL.NET) O espaço está dividido entre a Rock Gallery destinada a artistas emergentes e a VPF para consagrados, presentemente albergando 2 estimulantes propostas de desenho e pintura respectivamente de Cristina Robalo e Ana Cardoso. No sotão, o espaço abriga a Plataforma Revólver, onde habitam mostras colectivas de novos criadores. Lá estava uma pequena amostra fotográfica de 3 fotografias de Ana Telhado, uma delas abaixo reproduzida


Ana Telhado, S/ título, “da série Si proche de la Matrice”, 2007, Emulsão de gelatina e prata s/ papel

Uma das formas sobre a qual o artista contemporâneo parece querer influenciar o espectador e digo influenciar á falta de melhor termo, é através de uma escolha criteriosa do título para as suas séries/fotografias. Não como algo meramente descritivo, neutro em relação ao objecto, mas uma escrita que parece tentar fornecer a chave a todo o processo exposto, trazendo-lhe coerência, inteligibilidade? Não sei até que ponto este processo desvenda ou adensa o mistério da revelação fotográfica, mas que o aproxima de alguma pintura e da literatura, isso parece-me verosímil.

Galeria Zé dos Bois

A exposição que me fez ganhar a tarde foi a de Patrícia Almeida e o seu “Portobello“, citando a autora “Portobello apresenta-se assim como um lugar à beira da ficção, simultaneamente real e inventado, uma espécie de ‘parque temático’ sem temática, mas ancorado num imaginário colectivo relacionado com as férias e construído a partir de estereótipos. Enquanto projecto documental, apresenta-se também como um ensaio fotográfico sobre a forma como os fluxos de ocupação temporários gerados pelo turismo de verão influenciam a construção da identidade de um lugar.(…) Portobello procura olhar para uma realidade sem cair no discurso propagandístico da indústria do turismo nem numa visão depreciativa que tende a julgar estes fenómenos com ironia ou cinismo. Finalmente, o projecto insere-se numa prática artística que utiliza a fotografia não tanto nas suas possibilidades plásticas ou picturais mas numa perspectiva onde a componente documental, sem deixar de existir, carrega também um olhar (poético, crítico ou político) sobre uma realidade « tal » como ela existe ou seja, tal como ela se « apresenta e representa » a si própria.”

Discordo do uso da ironia como recorte negativo, um olhar cínico ou sarcástico tenderá a prejudicar a assimilação das fotografias, mas que o fotógrafo ele próprio tenha que se exumar a essa responsabilidade afirmando que não era essa a intenção, parece-me não só uma demarcação desnecessária como em simultâneo tende a influenciar o espectador para que veja as fotos sob um determinado prisma e não por outro, inibindo-o de se colocar perante as mesmas da forma que melhor lhe convier, á esquerda á direita ou ao meio. Os artistas de hoje não só tem que ser políticamente correctos, como também parecê-lo? Parecendo-me esta exposição de certo modo tributária de Martin Parr, vem á mente a posição muito semelhante daquele no contexto da sua fotografia, a do não-julgamento, que sendo postura humana desejável, pelos vistos tem que ser assumida por palavras, mas e os actos (as fotografias) aliás muito mais importantes, onde ficam? Deve a fotografia ser interpretada por quem a vê, ou deve a chave da sua visão ser facilitada por quem a tira? É a escolha do local e do momento do disparo neutra? A realidade não existe sem observador como tal parece difícil que se represente a si própria, não creio na existência de observadores neutros ainda que como tal se afirmem, poderão isso sim tender para a neutralidade. De qualquer modo a tendência actual também parece ser a da separação entre a persona do autor e o objecto/sujeito, apoiada na “escola” de Dusseldorf. Criei para mim a ficção de que se deveria fotografar apenas aquilo que se gosta, pelo qual existe uma paixão, um interesse, isso parece ser conseguido nesta estética mais por aquilo que o “sujeito” comunica ou suscita, do que pelo objecto em si, pelo que continuo a “resistir” a uma abordagem estética que tendo o condão de me obrigar a pensar, não me provoca entusiasmo.

Voltando à exposição propriamente dita, uma primeira impressão ditaria um amadorismo, através do uso de diferentes formatos de papel, da falta de meios financeiros consuetudinados na falta da moldura (ou acrílico ou metal) como suporte pois o papel está na parede pendurado por alfinetes (papel de parede?), o aparente visual de quarto de adolescente, amadorismo esse que contudo o curriculo da fotógrafa não parece confirmar. Verdades ou propositadamente plantados neste ensaio, estes podem ser factores que dimínuem esta exposição mas que a meu ver também lhe permitem uma leitura mais rica. Composição, cor, sentido de momento, idéias, de tudo tem esta primeira sala, embora a segunda sala não me pareça tão forte todavia está em coerência com as restantes, voltando a terceira sala a brilhar nos gestos captados. Muito bem “ensaiado”, este ensaio.

No andar de cima estava “Ontem” de André Cepeda, nas palavras do autor “Estou sempre a tentar construir novas formas de olhar para a realidade e para o espaço que me é apresentado. Procuro essencialmente os espaços e os momentos esquecidos ou rejeitados. Coisas que nos pertencem e que estamos habituados a olhar. Isso interessa-me na exacta medida em que me obriga a criar uma imagem e relacionar-me com o seu espaço tentando esquecer a sua história e contextos de recepção originais. Concentrando-me apenas na luz, no espaço e no tempo, sinto-me mais livre para criar novos contextos para as imagens, como se este tratamento quase escultórico lhes devolvesse uma dignidade aparentemente esquecida ou negligenciada. E assim, estas imagens tornam-se momentos que propiciam uma reflexão mais alargada sobre o modo como construímos a nossa identidade cultural e social.”

Trabalho de grande formato na exposição e na câmara usada, apresenta uma foto densa, crua, que opta pelo menos belo, tornando-se o apelo ao espectador menos imediato, mas provavelmente com impacto mais duradouro na memória. Existe um frémito na intimidação provocada pelo olhar directo para a câmara que os modelos deste fotógrafo privilegiam, como se fosse possível à escala e em tempo real ser confrontado ou convocado perante uma determinada realidade, mas fora isso não sei o que o grande formato trouxe a esta fotografia que formatos mais pequenos não possam trazer. Pressão das galerias, dos compradores, dos vendedores de tintas? Esta exposição tem o dom de poder vir a revelar camadas desconhecidas, tal como um disco de que se não gosta logo á primeira, ainda assim, é uma estética que não agradará a todos.

BESarte #01

Está de pé a mostra daquela que poderá vir a ser, se já não o é, a maior colecção de fotografia em Portugal. Aparentemente irá ser mostrada em capítulos, dos quais está patente o primeiro na galeria BESart ao Marquês de Pombal, certamente futuro ponto de passagem obrigatório a quem se interesse pelos “presentes” da foto contemporânea, passe a tautologia. O folheto da mostra é nulo quanto aos critérios da exibição, embora no interior se vislumbrem alguns, sendo que no site se pode ler “A colecção de fotografia BESart – Colecção Banco Espírito Santo – começou em 2004 com a aquisição de uma caixa de luz de Jeff Wall, um auto-retrato de Cindy Sherman, uma vista de Shanghai de Thomas Struth e uma biblioteca de Candida Höffer, obras que se consideraram marcantes para definir o enquadramento da colecção que se ía iniciar“, ainda que esta citação não renda grande evidência sobre o porquê das escolhas patentes neste arranque, partimos do princípio que para bom entendedor meia palavra ou neste caso nenhuma, seja bastante. É a fotografia papel de parede caro? Temos então 2 pisos cheios de grande fotografia ou fotografia grande nalguns casos, entre os portugueses do presente quase tudo impresso em grande formato, com Daniel Malhão e Paulo Catrica a denotarem seguidismo à escola de Dusseldorf, Augusto Alves da Silva nos seus “quotidianos banais” cujas fotos parecem também querer ilustrar o conceito. Desta estética de fotografia grande – e como gosto de fotografia em grande formato – que se arrisca a ser comprada pelos coleccionadores institucionais, devo dizer que não só o objecto é a mais das vezes banal, quase fazendo corresponder ao sujeito muitas vezes tratado. Podíamos dizer que estas fotografias tem poesia, mas há da boa e da má e ao que aprece também há a metro.

As minhas preferidas desta “selecção nacional” são as de um não-fotógrafo, Pedro Cabrita Reis, que embora técnicamente seja uma fotografia eufemisticamente discutível, casa de modo interessante a textura, a materialidade, a dimensão… Realço também um belo contra-luz de José Maçãs de Carvalho. Do lado dos estrangeiros denota-se maior criatividade e risco nos objectos mostrados mas nem sempre correspondendo a maior qualidade, apesar de tudo com uma tremenda foto desse magnífico retratista que é Irving Penn, e também um belo trabalho de John Baldessari, em que se juntam fotografia e desenho.

Evidencie-se aqui o mérito do BES em criar uma colecção de fotografia contemporânea, certamente com recursos limitados, mas se a representatividade de várias correntes estéticas parece eclética nesta primeira mostra do acervo, o sentimento que fica é o de que algumas das obras adquiridas não serão aquelas em que os  artistas estariam nos seus melhores dias. Terá a política de aquisições privilegiado um leque mais amplo de artistas em detrimento das melhores obras dos mesmos ou de uma determinada estética? Como em todas as outras artes, os fotógrafos não criam constantemente obras geniais ou icónes pese embora possam ser dignos representantes de uma determinada estética. Ou noutra interpretação poder-se-á ter optado pelo “fazer render o peixe e comprar o máximo possível”, podendo nalguns casos tratar-se de compras de fundo de catálogo (logo mais baratas)? Interrogações de quem está de fora, a confirmar pelas cenas dos próximos capítulos.

Num outro plano e face ao que vi por este fim de semana está a fotografia “coleccionável”, quase na totalidade confinada ao meio grande formato em papel e nas máquinas usadas? O 35mm é uma arte menor, deixada aos fotojornalistas e aos amadores? Sem dúvida que poderia ser uma forma de demarcação da comunidade artística, a de procurar também a vanguarda pelo uso do meio, aproveitando até a corrente de mercado que vende o analógico de maior formato a pataco, mas nem sempre isso parece corresponder a uma equílibrada dose de reflexão e emoção nalguns trabalhos apresentados. Ainda assim parece ser uma tendência a fazer escola em Portugal, máquinas de médio ou grande formato e fotos impressas em grande é bom, o resto, não interessa!?

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Comments:

October 12, 2008

Pelos vistos, a fotografia em Portugal não está assim tão mal... Pelo menos ainda vai havendo quem se preocupe com ela... :-) Do teu (longo mas excelente) artigo, destaco dois comentários: o primeiro, é que te esqueceste dos Encontros de Coímbra, transformados agora em pífios (se comparados com os originais) encontros da imagem. Bem sei que essa "redução" já ocorreu há alguns anos, mas também creio saber que ela surgiu de um corte de verbas (que talvez estivessem a ser faustosamente "aplicadas") seguido de uma "birra". Enfim, esses são pormenores dos bastidores de quem usa os dinheiros públicos nem sempre da forma mais comedida, para dizer as coisas de uma forma simpática. Talvez seja esse um dos problemas da fotografia (e não só, da arte quando apoiada institucionalmente) em Portugal. Primeiro, gasta-se desalmadamente, e depois, de repente, corta-se a verba... A segunda coisa que queria destacar: o "vício" da fotografia como reprodução do real, parece que veio para ficar. Digo vício, porque volta e meia contagia todos ou a grande maioria dos actores do meio, incluindo os críticos. De vez em quando, passamos por isso. A fotografia só vale a pena se for neutra, fria, uma imagem em que o autor tenta não intervir, como se isso fosse possível, e como se essa não intervenção, não fosse ela mesma, uma forma de intervenção. Digo isto, porque actualmente, em termos do mercado da fotografia, sente-se muito a influência da chamada Escola Alemã, ou Escola de Dusseldorf, que, segundo Sérgio Mah, não é escola nenhuma, mas simplesmente um pequeno grupo de autores influenciados por dois professores, e que por sua vez, influenciaram meio mundo na fotografia. Bom, menos mau... Pelo menos ainda nos resta o outro meio, aquele que trabalha em contra-corrente... :-) Mas é essencialmente devido a essa "escola" que o "quanto maior melhor" entrou na moda, assim como o quanto mais neutro mais "realista". A questão das dimensões, encaixou-se que nem uma luva na necessidade que a fotografia tinha de penetrar nos grandes museus (para concorrer com as literalmente grandes obras da pintura) e a "neutralidade" da imagem fotográfica, serviu os ideais daqueles que vêm na fotografia algo que deve ser puramente documental, ou, para citar Hilla Becher, precisamente uma das precussoras dessa vaga, a fotografia deverá ser apenas "um substituto para o objecto". Esta atitude, ou "onda", quanto a mim, acaba por "matar" a fotografia, já que a transforma num simples espelho. Que nada tem de seu, apenas reflete o que vê... Mas a fotografia já nos provou que, apesar de todos os revezes que poderá ter nas galerias, (e agora refiro-me à tua observação relativa à falta de público) será sempre sobrevivente, porque já ninguém vive sem ela. Pode não estar em Braga, nem no LisboaPhoto, mas a fotografia nunca deixará de estar em todo o lado. E por aqui me fico, senão o meu comentário começa a ser maior que o teu artigo... :-)

Joao Henriques
October 12, 2008

Pois, os Encontros de Coimbra, transformados em esmola Centro de Estudos de Fotografia, anos e anos que lá fui a fio era a minha viagem anual de sonho fotográfico... Obrigado pelo teu comentário, quando é que escreves mais no teu blog?

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