#10 … no país da fotografia

Visita à exposição Listen Darling… The World is Yours, na Ellipse Foundation em Alcoitão, mostra que “reúne trabalhos de mais de quarenta artistas que, no seu conjunto, evidenciam as mudanças radicais pelas quais a cultura passou nas suas dinâmicas psico-sexuais, durante os últimos trinta anos. A exposição, que se organiza em torno de alguns trabalhos fundamentais de Louise Bourgeois,  Eija-Liisa Ahtila e Shirin Neshat, entre outros, observa o modo como as mulheres vêem as mulheres, as mulheres vêem os homens, os homens as mulheres e os homens os outros homens, muitas vezes através da confrontação directa com a sexualidade e as políticas sexuais(…)“Listen, Darling” – uma expressão extremamente comum na gíria gay, conotando simultaneamente uma intimidade ligeiramente irónica e um certo cinismo – segue-se a surpresa: “The World is Yours”. A sua conjugação coloca outras questões: A quem pertenceu esse mundo? A quem pertence agora? O que significa ser-se responsável e assumir a sua propriedade? ” A Ellipse Foundation for Contemporary Art, face ao nome, poderia pensar-se tratar de uma qualquer iniciativa estrangeira em Portugal, mas já é por demais sabido nestes dias que é tão sómente o depósito de arte do recentemente e in extremis salvo da forca, Banco Privado Português. As tricas dos últimos tempos deixam um rasto pouco diáfano sobre a operativa, mas são contas de outras auditorias.

Esta era uma exposição com muito interesse para mim, pois prossigo um trabalho de ligação entre o papel do género (gender role) e as danças tradicionais, não se tratando contudo da dissecação da mediatização simbólica do mesmo, à semelhança dos trabalhos de Cindy Sherman com a feminilidade.  Das várias obras presentes nas diferentes categorias da arte contemporânea, conta-se alguma fotografia, que como seria de esperar face à tematica, contém Nan Goldin, Cindy Sherman, mas surpreendentemente, nada de  Duane Michals, Robert Mapplethorpe ou Andy Warhol, contudo é desconhecido se a colecção foi pensada ou estruturada à volta de alguma dinâmica específica do contemporâneo, ou se, utilizando uma expressão contabilistica, face às existências, era a mostra possível, no entanto podem existir no acervo obras desses autores sem que tenham aqui sido mostradas, embora seja algo pouco provável, considerando a temática proposta, o nome dos autores e o respectivo valor comercial.

Da parte fotográfica destaco 3 retratos, este de Ryan McGinley, cheio de disponibilidade, de à vontade, insinuante, exalando sexualidade por todos os poros.

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Estoutro de uma artista que me tem vindo a encher o olho, Rineke Dijkstra, aliás em seguida rumei à colecção do BES no CCB,  quase só para olhar os retratos dos forcados, cuja paralelo com este parece ser a associação da masculinidade com o uso dos uniformes, aqui veja-se como é sintomática essa noção, pois trata-se dum soldado da Legião Francesa, exército para onde só iam de facto “homens”.20081213_lx_expo_002_pt

Finalmente este de Hiroshi Sugimoto, que me deixou em suspensão, sem palavras, talvez um dos melhores retratos que jamais vi e que só por si valeu toda a exposição. Em abono da verdade, trata-se de uma obra “falsa”, reencenada a partir de uma figura de cera, com técnicas de iluminação estudadas da pintura Renascentista, mas a verosimilhança é tal, que conforme sugere o artista “If this photograph now appears lifelike to you, you had better reconsider what it means to be alive here and now”, após esta constatação, sinto-me verdadeiramente desapontado e enganado, é assim a fotografia…

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No campo dos usos mais diferenciados da fotografia, um favorito é John Baldessari (na foto abaixo)

20081213_lx_expo_019a quem claramento prefiro a Richard Prince, que embora fazendo correr rios de tinta das penas pensantes, como aliás Cindy Sherman, ambos pouco me divertem, curiosamente nesta mostra, uma foto do primeiro, em que ambos aparecem juntos (foto seguinte).

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Finda esta panorâmica, onde espero voltar pois a mostra estará até Agosto do próximo ano, voltei a O Presente: Uma Dimensão Infinita, colecção do BES que está exposta no Museu Berardo . Já me referi por duas vezes aqui no blog a esta colecção, a primeira vez vi-a no espaço denominado BESart ao Marquês de Pombal, achei-a uma mostra estranhamente estruturada, talvez melhor dizendo, com critério vago. Referi após a primeira visita ao Museu Berardo que algumas obras da colecção não estavam expostas, de facto assim é, mas se não estou em erro a ala “Arquitectura” da primeira vez que lá fui, não se encontrava aberta ao público, tapada que estava detrás de uma foto de Jeff Wall. Na altura aludi ao sentimento de que gostaria de ter visto Sugimoto, ora nessa ala lá está não apenas uma, mas duas fotos do artista, bem como toda a tendência dusseldorfiana, minha besta negra, mas da qual me quero ver livre, ou como dizia alguém do whisky, “se não gostas, tens que beber mais até passar a gostar”… vai ser difícil, o único que me parece comover é Struth, mas sou um tanso que fotografa e vê fotografia à espera (também) de se emocionar.

Entre as duas exposições que visitei, o critério da mostra torna-se mais interessante na primeira, com efeito as subdivisões propostas no BES (retrato, arquitectura, natureza, etc) embora possam parecer fáceis à vista, são um exercício de facilitação parecido com os que algumas políticas educacionais portuguesas visam atingir, ao invés do simplificar, surge o simplório, preversa antitese do objectivo a que se propõe, mas aqui isto está tudo muito melhor explicado (ver caixa de comentários).

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