#11 … no país da fotografia

02a-14

Analisada isoladamente esta imagem poderia demonstrar o “partido” tomado pelo fotógrafo, no caso eu, mas não se trata de fotojornalismo, ou documentalidade do contemporâneo, nem sequer da rápida associação ou denúncia da “escalada” do conflito, como a imagem pode sugerir, nesta guerra como em qualquer outra nunca há vencedores. Vou apenas tentar ilustrar uma idéia que hoje me ocorreu ao visitar a exposição do colectivo francês Odessa na Galeria K (kameraphoto) e que é justamente a da descontextualização e da sensação de desorientação daí advinda, também da dificuldade em penetrar, quando considerada uma foto individualmente. Pode-se ler no site  “O projecto de Patrick, parte de um abcedário em que cada um dos fotógrafos foi livre de editar segundo a sua inspiração. Uma oportunidade para cada membro do colectivo compor um vocabulário imagético comum, a partir de uma escolha de palavras reveladora de sensibilidades e preocupações. Este projecto, POUR ZARMA, CHANGER À BABYLONE, é o primeiro passo na construção da identidade colectiva pois elseu modus operandi, estilo e objectivos.

Ao percorrer as fotografias expostas, foi-me difícil encaixar na temática face à aparente diversidade estilística, formal, contextual, sem dúvida proporcionada pelo “colectivo” nas suas diferentes expressões fotográficas, mas informo que nada li previamente, assim que entrei fui ver as fotos. Como ultimamente me tenho embrenhado em ver sobretudo trabalhos individuais (à excepção das exposições colectivas tipo BESart), trabalhos esses que aparentam ter uma direcção, um cunho bem marcado, não que aqui essa direcção não exista, talvez por isso essa minha dificuldade. Embora a unicidade se vá revelando à medida que a atenção aumenta, confesso que inicialmente andei a tentar “colar as pontas” o que não foi de todo desagradável, até porque os puzzles têm o seu encanto. Á medida que fui estando um pouco mais com as imagens, mais o conteúdo se foi revelando e embora sentisse algumas fotografias como estando descontextualizadas, todavia o “chapéu” que as abriga é tão vasto que sem dúvida fazem outro sentido. Aparentemente a única ligação com a imagem que tenho acima é a de que por vezes isoladamente, é difícil apreender a essência do que se propõe.

http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/ficheiros/31/21/ficheiro2131_mpicqqwuzol.jpg

Ainda visitei MANEL ARMENGOL. TRANSIÇÕES. 70s em Espanha, China, Estados Unidos no Arquivo Municipal de Lisboa, pode-se ler no site “Esta exposição reúne uma selecção de 75 fotografias da colecção da Fundación Foto Colectania, realizadas por Manel Armengol (Badalona, 1949) em Espanha, nos Estados Unidos e na China durante os anos setenta. Estes três países, apesar de muito diferentes, tanto geográfica como culturalmente, viviam em comum, um período de mudanças fundamentais na sua história. A obra de Manel Armengol representa este momento, numa perfeita simbiose entre o lugar, o tema fotografado e o olhar do próprio fotógrafo. ” Esta exposição é um caso curioso, as fotografias embora se possam confundir com tal, parecem não encaixar bem no icónico “momento exacto” da linhagem preto e branco-humanista-cartierbressoniano, aliás mais parecendo o pós-cartierbresson,  um registo mais próximo do americano do que do europeu. Algo que me pareceu peculiar, sobretudo nas fotos da China, que de facto parece casar bem com a idéia de transição e que tem a ver com os olhares fotografados, em que quase nunca se consegue identificar para onde se dirigem, algo que inevitavelmente se associa à incerteza da mudança, todavia esta séria chinesa não é loquaz no retrato da mudança, ainda que em discretas filigranas ela se possa vislumbrar. Nas fotos de Espanha, as manifestações barbaramente rechaçadas pela polícia abrem um pouco mais o espaço ao contexto proposto da “mudança”, mas nas fotografias dos Estados Unidos novamente o véu se torna mais discreto, ainda que a questão racial, a sexualidade e outras temáticas sejam abordadas, a sensação que fica é a de que o fotojornalismo praticado é-o “ao longe”, nunca “close enough” como defendia Capa.

[Update, às 2 e tal da manhã do dia seguinte]

Um pouco na linha do que escrevi na primeira parte deste artigo acerca da foto que publiquei, encontrei um post de Alessandra Sanguinetti no blog da Magnum, discutindo a responsabilidade editorial da publicação de uma imagem sobre as tropas israelitas, na primeira página de uma edição do NY Times, que para quem não sabe, é um dos jornais de referência americanos. De certo modo, os blogs também tem uma responsabilidade editorial, daí ter escrito o que escrevi.

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Comments:

A.
January 15, 2009

bela caminhada ontem! : ) bjs A.

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