#12 … no país da fotografia

Esta série “no país da fotografia” começa a parecer-se um pouco com uma certa fase da minha vida em que fotografava Jazz até cair. Sendo a motivação nesse tempo o “ouvir”, menos o fotografar, dei por mim a ter que assitir a muito concerto secante, razão pela qual, entre outras, fui deixando a fotografia de jazz para trás. A situação dentro de mim era já de tal modo incomportável, que face á minha paralisia, o Universo enviou um ladrão para me sacar o equipamento todo, no seguimento de um dia e noite estranhos após um Estoril Jazz. Isto a propósito de andar a percorrer exposições, não por obrigação mas por gosto, todavia está-me  a custar escrever sobre coisas que não gosto, portanto tenho que utilizar a táctica feia em termos críticos que é a de fechar os olhos e escrever apenas sobre o que gosto.

Este fim de semana fui ao Museu da EDP ver “Retratos, 10 anos do Microcrédito em Portugal” que conta com fotos de vários elementos do colectivo Kameraphoto entre outros fotógrafos. O retrato não é uma categoria fácil, talvez seja aliás das mais difíceis, pois na maioria das vezes não conta com a colaboração do retratado e se isso acontece, é por vezes complicado ensaiar a naturalidade. São 40 os retratos, de outras tantas pessoas que recorreram a essa bela iniciativa que se iniciou com Muhammad Yunus, a maioria dos registos que se observam nesta exposição seguem um tom relativamente fotojornalistico, ainda assim alguns fotógrafos optaram dentro do género por apresentar um trabalho um pouco diferente. Dentre os que me cativaram encontram-se os de Valter Vinagre, pode-se ver abaixo um deles,

uma outra série (cada fotógrafo entrou com 3 se não estou em erro) de que gostei foi a de Sandra Rocha, da qual abaixo se reproduz uma, já tinha gostado bastante do trabalho que apresentara no “Testemunhos – Trajectos de Qualificação“.

Para o fim deixo aquela que sem dúvida me cativou o olhar durante mais tempo, este trabalho de Nelson d’Aires, que está soberbo (fotos retiradas directamente do site do artista em nelson d’aires)

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Ainda no mesmo local (o Museu da Edp está a ficar uma referência incontornável nas artes plásticas, já em seguida uma exposição de Jesus Never Fails, de António Júlio Duarte) visitei Lá Fora, colectiva de artistas consagrados ou novos valores que residem ou residiram no estrangeiro. São cerca de 200 trabalhos de vários domínios “diversas linguagens, diversos suportes e técnicas, diferentes gerações”. Alguma fotografia, Edgar Martins, Júlia Ventura, Rita Barros, Brigida Mendes e um ou outro nome menos conhecido. Exposição que tenta encontrar um fio condutor da portugalidade na diáspora, fio esse que ora invisível ora menos ténue, se vai enlaçando no visitante, na medida em que se sustente um olhar mais cuidado. A nível fotográfico nada que me apetecesse trazer para casa, quando muito este Edgar Martins que abaixo se reproduz (foto feita no local), sobre quem já aludi aqui.

Terminei com a passagem pela galeria 3-em-1 VPF-Rock-Plataforma Revólver, para visitar Boys Need Yoga Too de Tatiana Macedo, da sinopse do projecto pode-se ler “as imagens que vemos nesta exposição são uma parte
do trabalho resultante de uma viagem de Tatiana Macedo à China, no Verão de 2008. Quando decidiu passar dois meses em Xangai, não foi cheia de ideias pré-definidas sobre o que iria desenvolver, investigar. Decidiu deixar coisas em aberto, para tentar perceber o que a cidade lhe proporcionava. Uma coisa é sempre certa. A fotografia é o seu suporte primordial. Em todas as suas múltiplas abordagens, seja mais documental, mais propositadamente “promocional”, mais conceptual. O importante em cada projecto seu é a maneira como se relaciona com o sujeito que escolhe, como se tentasse relatar e reflectir o seu contexto social, sem nunca o transformar num número ou numa percentagem. Para nos obrigar a pensar exaustivamente no outro, naquele
que não somos nós. Naquilo que nos aproxima, ou no que supostamente nos afasta. Em Xangai, ao fotografar quem passava na rua apercebeu-se de uma diferença marcante. As raparigas naquela cidade não usavam calças de ganga, não usavam roupa “casual”. Estavam sempre ultra femininas, bem vestidas, arranjadas. Os rapazes a seu lado eram quase invisíveis, não se destacavam. Foi irresistível, passou dois meses a fotografar as mulheres no metro, na rua, a comer, a divertirem-se. Em cada imagem relaciona-se sempre com uma mulher, de cada vez, por um breve instante. Temos a sensação que sem o conhecimento destas. Sentimos que quase sorrateiramente, a artista investiga as jovens raparigas chinesas. Investiga também, obviamente, o seu papel na China de hoje.

Imagens retiradas de Tatiana Macedo – Boys need yoga too | VPF Rock Gallery

Não sei se é herdeira neste fotografar que aqui nos mostra do mestre August Sander (ver foto abaixo), mas tenta-se nesta exposição dar uma visão de um país, de uma cultura, através da moda, o que é sempre interessante, embora esta seja talvez uma perspectiva redutora sobre este trabalho…

http://www.raederscheidt.com/Vintage%20AR%201927%20von%20August%20Sander%20ret_bearbeitet-3.jpg

Com muito menos, The Sartorialist, faz muito mais… mas fiquei com vontade de ir á China…

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Comments:

nica paixão
January 21, 2009

mas é possivel saber quando chega de fotografar jazz sem nos roubarem o equipamento, certo? para mim falar do que se gosta torna sempre a leitura mais intessante para os outros. Bom trabalho.

nica paixão
January 21, 2009

e só para eu ter uma ideia, quanto durou o "sono"?

Évora
January 22, 2009

Engraçado como estas duas fotos retomam a velha questão da relação entre a fotografia e a pintura, neste caso com o hiper-realismo pictórico. Será que não houve aqui influência de Richard Estes? (para quem não conheça, basta uma busca google de imagens)

Évora
January 24, 2009

Do Richard Estes: Bus reflections; telephone booths (soberbo); Downtown reflections, etc

Joao Henriques
January 21, 2009

Acho que sim, eu devia era ter "acordado" antes, sem ser à força...

Joao Henriques
January 21, 2009

Ainda vou dormitando de vez em quando... mas de modo consistente uns 3 anos

Joao Henriques
January 22, 2009

Estás a falar de quais?

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