#13 …no país da fotografia

Desta vez, uma mão cheia de visitas, as do fim de semana, mais a atrasada nota da ida ao Porto, para ver o prémio BesRevelação 2008, exposto em Serralves.

Manuel Luís CochofelThe Inner World of Valentina 170167 – Galeria Pente 10, Lisboa

A exposição está distribuída por 2 pisos, no primeiro são exibidas imagens retiradas de sites da Internet dedicados à busca de parceiro para fins matrimoniais, fotografadas directamente do ecrã. O fotógrafo seleccionou imagens que os utilizadores colocaram como sendo as mais propícias à auto descrição, num curioso exercício de “curadoria” acerca do retrato fotográfico. Esta exposição vem num momento quente acerca das apropriações e direitos de autor no fotográfico, com o processo movido a Richard Prince pela apropriação de fotos de Patrick Rastafarian na série Canal Zone e o caso mais conhecido do já icónico poster de Obama (agora toda a gente quer ter um obamavatar), resultando numa acção contra Sheppard Fairey, movida pela Associated Press.

O que senti ao olhar as fotos foi uma estranha sensação de falsidade, de irreal, todavia parece ser essa – pelo menos em parte – a dinâmica que está por detrás do desejo de se dar a conhecer nestes “lugares virtuais”, onde se mostra sobretudo a imagem “luminosa”, alegre, simpática, etc, resultando contudo numa sensação de artificialidade, ainda que pelo menos um dos candidatos tenha mostrado acerca de si uma coluna de fumo proveniente de uma explosão que ocorreu perto da sua casa, o que certamente daria uma tese sobre as motivações casamenteiras deste pretendente… Na sala mais abaixo, e na continuação do projecto, o fotógrafo desvenda algo dessa personagem virtual mas com uma vida real, a quem fora atribuído pelo site de busca o nome de código Valentina 170167. Recorrendo a um medley – para usar a linguagem musical, que pelos vistos privilegiou também nesta exposição – de imagens suas provenientes de outros projectos, é exibida uma sequência que remete para o estado interior da pessoal real subjacente, as suas motivações, desejos, fantasias, etc. Manuel L Cochofel urde uma narrativa ficcionada à qual não faltam motivos de interrogação, sabendo-se no entanto que à pergunta “o que está esta fotografia aqui a fazer” pode estar subjacente  uma boa ou má intenção. A fotografia no molde “arte contemporânea” aprofunda-se neste artista, que embora desenvolvendo um empenhado trabalho de afirmação, aparenta, estranha e injustamente, ser ignorado pela crítica local, pelo que se saúda de forma ainda mais pronunciada a aposta da Pente10 neste fotógrafo.

Paulo NozolinoBone Lonely – Galeria Quadrado Azul, Lisboa

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Num formato muíto diferente do habitual, quer a nível da dimensão exterior, dos acabamentos ou até de alguns recursos estéticos, mas revelando a mesma alma empática perante o sofrimento e a dor no mundo que lhe é reconhecida, imagens sempre evocantes do limiar entre a redenção e a crucificação, pelo que o trabalho embora substancialmente alterado na forma apresentada, não deixa de ter uma marca autoral vincada. Como afirma Alexandre Pomar na crónica sobre a exposição em Nozolino 2009, e acerca da obra deste fotógrafo, “sem a distância que se recomenda ao testemunho e sem a arma segurizante da ironia trata-se de uma descida aos infernos“.

Parece evidente a existência de uma forte afirmação neste trabalho, da parte de um artista que tradicionalmente usou o mesmo grande formato expositivo anos a fio, ao apresentar agora material que cabe numa folha A4. Tal acto poderá ter subjacente várias leituras, por um lado, a possível ruptura com o caminho certo preconizado pela arte contemporânea, i.é, aquele que para ascender ao sucesso parece ter que passar por um aprisionante e asfixionante mais do mesmo, canône esse aqui parcialmente abalado, sobretudo numa faceta que até agora tem sido um dos focos da discussão sobre fotografia contemporânea, a de que o tamanho conta. Já era conhecida a invalidação, ao menos parcial, desse mesmo caminho pelo fotógrafo, ao recusar a nomeação para o prémio BesPhoto. Por outro lado, na actual conjuntura depressiva por todos conhecida, o artista parece emular o momento, através de um aparente “baixar” de expectativas, retornando a um formato aparentemente mais realista ou então, apenas mais deprimido financeiramente. Aspectos mais especulativos à parte, parece seguro o facto de Paulo Nozolino conseguir mais profundidade e mistério numa fotografia sua, ainda que suja, feia ou pequena, que outros fotógrafos em séries inteiras.

António Júlio Duarte – Jesus Never Fails – Museu da EDP, Lisboa


Jesus Never Fails, é o título desta série que António Júlio Duarte fotografou em Goa, frase encontrada num autocarro indiano – imagem que todavia não aparece na série mostrada, “para adensar o mistério” explica o fotógrafo, mas cuja leitmotiv poderia muito bem ter inspirado uma outra “God Doesn´t Exist” que tanta polémica deu recentemente, também ela escrita numa autocarro, desta feita europeu. O puzzle apresentado, e de facto, a fotografia quadrada presta-se bem a esta noção de puzzle enigmático, é composto por estranhas coreografias animais, fragmentos de memória da presença portuguesa no território, texturas de degradação, aspectos de construção/desconstrução do território, que embora apresentados sob a forma de uma realidade fragmentada, são unificados por um título feliz que evoca o não acaso, a desfragmentação,a unidade, a continuidade e sobretudo o infalível processo de contínua mutação entre nascimento, crescimento e morte, de todos-parte que dão origem a novos todos-parte, quer pela integração, quer pela dissolução dos elementos anteriores. Se existe exposição em que o título claramente é maior que a soma das fotografias, esta é certamente uma delas, sem qualquer desprimor para as imagens apresentadas.

Vários artistasBesRevelação 2008, Museu de Serralves, Porto

Este BesRevelação visando a descoberta de jovens valores na fotografia, apresenta este ano trabalhos de Mariana Silva, Nikolai Nekh e David Infante.A primeira destes artistas, apresenta um espaço onde podem ser vistos pequenos registos filmícos do pós-25 de Abril, com recurso a um instrumento chamado moviola, que projecta a imagem num pequeno ecrã, onde se podem ver fotogramas manipulados e realinhados de modo a proporcionar um visionamento algo desconcertante, certamente visando colocar em causa a capacidade do meio para reter a verdade. Embora este projecto se enquadre num âmbito algo escorregadio face ao que se poderia considerar fotográfico, é de notar que os prémios Bes, em conjunto com o trabalho de alguns outros actores do meio, tem vindo a alargar um pouco o escopo do que tradicionalmente se conhecia como fotográfico, e embora não isentos de polémica, tem o condão de poder contribuir com novos horizontes. Nikolai Nekh apresenta imagens que transformou em postais e um video – editado e com velocidade alterada – de gravações familiares, trabalhando aspectos ligados á memória e ao local. David Infante apresenta aquele que pode ser o projecto mais fotográfico dos três, numa série aparentemente inspirada naquele que parece ser uma linha de influência em si, José Manuel Rodrigues, de quem é assistente. O uso dos quadrados, do preto e branco, das colagens, dos elementos Terra, da utilização das imagens do fotógrafo como sujeito, evocam essa filiação, que contudo descarta as linhas de mero decalque, conseguindo aportar novos destinos, criar originalidade, numa selecção onde a memória e a identidade parecem ser os conceitos privilegiados.  Devo dizer que simpatizei com qualquer um dos projectos, no de Mariana, pelo aspecto conceptual que coloca em dúvida a capacidade das imagens apresentarem uma qualquer verdade, algo que foi apresentado de uma forma muito interessante. Em Nikolai, um registo fotográfico de forte conteúdo estético, adensando o conceito com o recurso á instalação video, hoje em dia tão em voga, embora nem sempre acrescentando algo de novo. (abaixo fotos de David Infante retiradas da galeria gasosa).

 


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