#14 … no país da fotografia

Domingo de manhã, rodando pela A17, deparo, no vidro traseiro de uma camioneta de transporte de passageiros, ou deverei já dizer passageiras, revelando antecipadamente a trama, num cartaz onde se inscrevera “Dia Internacional da Mulher: fazemos o mesmo que os homens! E de salto alto!”. Ultrapassei o veiculo mas não o escrito,  pois até confirmei pelo retrovisor se a frente corresponderia ao verso. Atrás do condutor, mumificado, talvez pela monotonia do conduzir em linha recta, e indiferente às mulheres em pé, uma nuvem de braços no ar, batendo palmas. Imaginei que cantavam, de preferência de salto alto. Sorri.

Este fim de semana foi de cálice cheio (de Porto), eis as notas da prova…

Li ZhenshengO Livro Vermelho de Um Fotógrafo Chinês – Centro Português de Fotografia

20090307_lx_expo_019©Li Zhensheng

O Livro Vermelho foi um dos símbolos maiores do domínio que uma ideologia pode atingir, quando servida por uma máquina de propaganda e repressão como a que foi montada na China de Mao Tse-Tung.  As imagens apresentadas são disso testemunho, como afirma Maria do Carmo Séren, “fotografias que, vivendo, acima de tudo, a Revolução Cultural e a indefectível admiração por Mao Tsé Tung (…) um mito de muita esquerda ocidental e (que) entusiasmou a contracultura. Trouxe-nos os kispos de nylon baratos, as camisas à Mao, os workshops de cultura de rua. Trouxe-nos, acima de tudo, uma China que parecia feliz e muito jovem, construindo um país com o Livro Vermelho e a ciência dos estudantes dos cursos médios, esses guardas vermelhos que Mao agraciou. Com as imagens de Li Zhensheng a humilhação inútil substitui a intransigência, a simulação do mito destrói a fé” (texto integral aqui).

É-nos mostrado em tom de proximidade o que foi uma ditadura do proletariado que se transformou numa ditadura no protelariado, ilustrando o impacto da ideologia numa consciência colectiva que com ela não soube o que fazer, testemunho que felizmente sobreviveu, graças à teimosia e astúcia de um fotógrafo, ele próprio vítima posterior das tentações revisionistas do seu país e daqueles para quem e com quem trabalhava. O aspecto propagandístico ressalta na maioria das fotos, muitas delas com um conteúdo estético quase cinematográfico a que certamente não será alheia a paixão inicial  que Li Zhensheng nutria pelo cinema, à força convertida em serviço à pátria. Uma palavra para a legendagem, acrescendo à compreensão do abundante conjunto de imagens mostradas. No final, uma sensação algo apreensiva, se considerarmos que nestas fotografias estão simbólicamente contidas as sementes daquilo que parece ser a China actual, aparentando ainda ter uma visão sobre o mundo quase literalmente decalcada das páginas do defunto manual, com a diferença crucial de que agora o mesmo é debruado a ouro e o seu alcance se faz sentir muito para além das fronteiras internas desse país.

Colectiva – Hospital de S. João, 3 Formas de VerCentro Português de Fotografia

lfalves©luís ferreira alves

O formato de exposição colectiva em redor de um sujeito, é presentemente um dos conceitos mais complexos e interessantes que se pode encontrar na vertente da fotografia documental. Embora possa não existir uma colaboração estreita como existirá por exemplo numa equipa de investigação, em que os esforços comuns giram em volta de um sujeito confinado muitas vezes à hipótese-validação, no colectivo de fotógrafos existe uma soma de contributos individuais que, não estando confinados pelas barreiras do método cientifico, ainda assim não deixam de contribuir para uma noção de veracidade (não de verdade objectiva). Neste projecto, inserido nas comemorações dos 50 anos do Hospital de S. João, no Porto, é interessante o contraste obtido nas fotografias de 3 artistas com estilos, escolas e sensibilidades tão distintas, são eles Luís Ferreira Alves, Olívia da Silva e Paulo Pimenta.

lfa©luís ferreira alves

Previamente à visita, já tinha visionado este post multimédia no Arte Photográphica, que começa com uma curiosa frase de Luís Ferreira Alvescheguei à conclusão que o esquema conceptual das fotografias iria ser eu próprio, as fotografias que me saltassem ao caminho, eu tirava-as”. Uma vez demonstrado ao que vinha, o fotógrafo exibe uma mão cheia de fotos absolutamente espantosas de rigor formal, de domínio técnico, mas que sem dúvida interpretam os valores do mesmo em relação ao local, um sítio feio, desinteressante, frio, escuro, sombrio, mórbido, que só a muito custo e de forma artificial consegue devolver algum lado de calor humano, contudo, isso não impedindo que o mesmo seja fotografado de forma verdadeira, realista e com tudo o que a palavra possa implicar, subjectiva. O “abalo ao conceptual” e a subjectividade do portfolio proposto poderão não deixar indiferentes os cultores da actual vertente neutral e objectiva da fotografia.

osilva

osilva2©olívia silva

Olívia da Silva exibe uma visão também ela dotada de rigor e formalismo, embora neste caso talvez mais académico que estético. Pelas suas palavras, depreende-se que tenta fundir neste projecto de retrato, uma amostra de colaboradores, um aspecto artístico já presente no edifício que evidenciasse o aspecto de retrato (o quadro de D. João VI) e a mais complexa idéia de trazer colaboradores de várias áreas a um espaço cerimonial do hospital (a sala onde o quadro estava exposto) espaço esse que não lhes seria muito familiar. Confesso o meu gosto pelo retrato em formato quadrado, mas os planos escolhidos bem como a iluminação não me pareceram especialmente felizes. Por outro lado, a figura de D. João VI pela repetição (e posição ocupada no plano) parece ascender sobre as pessoas que estão a ser fotografadas, parecendo provocar um desequílibrio hierárquico que retira importância ao fotografado e fazendo duvidar sobre quem está a ser efectivamente a ser fotografado/representado. Quanto à ideia de colocar colaboradores em ambientes que lhes não são familiares, tal pode ser um interessante ponto de confluência entre escalões hierárquicos, todavia de que modo pode essa aproximação ser duradoura, ou temos apenas essa ilusão patente nas fotografias de que a fotografia supostamente pode ou deve promover alguma horizontalização da hierarquia? E poderá esse nivelamento ser compatível debaixo da égide de uma figura autocrática omnipresente nas fotografias, ou é apenas forjado com base no facto de D. João VI ter sido patrocinador da medicina em Portugal?

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ppimenta21©paulo pimenta

Paulo Pimenta apresenta uma abordagem cunhada no fotojornalismo, tal como num ensaio de cobertura de um evento, tentando dar uma visão abrangente do mesmo, ou para utilizar  as suas próprias palavras “da entrada até à saída” (do hospital, leia-se) proporcionando uma visão que tenta aproximar o  espectador da vivência na vida hospitalar, os aspectos íntimos e reconhecidos da vivência hospitalar, a dor, o sofrimento, a angústia, a espera, o acto laboral, alternando entre o fotograma realista e algumas metáforas visuais, complementando e completando este interessante projecto.

Júlio de MatosFlat Water – Galeria Serpente, Porto

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Para quem não conhece o Porto, a Rua Miguel Bombarda é o ponto fulcral das artes na cidade, onde se contam fácilmente umas 4/5 dezenas de estabelecimentos, entre lojas, galerias, ateliers, etc, ligados às artes, ao design, etc, sendo promovido mensalmente o dia das inaugurações, que a torna numa artéria apinhada de pessoas e eventos interessantes, quase porta sim porta sim, num frenesim cultural sem paralelo no país (infelizmente). Este sábado foi um desses dias, o que conjugado com o dia solarengo, trouxe a essa arty rua um ambiente de festa, quase a descambar na overdose cultural.

É nessa rua, mais concretamente na Galeria Serpente que reside até 4 de Abril esta exposição de Júlio de Matos em cujo statemente se lê “1 – A bidimensionalidade e horizontalidade da superfície da água, quando em repouso. A água enquanto conceito inicial de espelho, que gerou mais tarde o conceito de espelho com memória.
2 – A bidimensionalidade da impressão fotográfica, e a sua aparente tridimensionalidade provocada pela nossa incontrolada capacidade para descodificar a informação fotográfica como uma janela sobre a realidade.
3 – A bidimensionalidade dos artefactos gráficos justapostos com um rigor pixelizante na superficie da imagem fotográfica, podem questionar a aparente tridimensionalidade da imagem ao propor á visão um exercício mental de reconciliação perceptiva.

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A apresentação desta série, está também complementada por um texto a cargo de Bernardo Pinto de Almeida, intítulado “Para uma semiologia prática da imagem”, possívelmente ancorado na incapacidade descodificadora a que alude o artista no ponto 2 do statement. A temática do elemento Água é usada como pretexto para um paralelo encontrado com os limites do fotográfico, a água como espelho e como elemento portador de memória (a este respeito ver os trabalhos de Masaru Emoto: Mensagens da Àgua), a bidimensionalidade da superfície aquática, qual prova de impressão e finalmente, numa vertente talvez menos percetível à ligação com a Água, os elementos gráficos introduzidos, digitalmente suponho , os quais confesso, me fizeram vir à  cabeça uma frase que vi num projecto fotográfico americano “i’m going Baldessari”. O aparente quebrar daquilo que se espera perceber numa imagem onde a natureza é dominante, induzido pelas linhas geométricas introduzidas artificialmente, tem efectivamente o dom de relançar o questionamento sobre a forma de olhar não só a natureza, como a matriz simbólica nela aposta, contudo parece também esse acto introduzir nesta série um elemento de complexidade talvez dispensável, pois creio que a mesma já contém uma riqueza conceptual considerável, mesmo considerando apenas a proposta dos pontos 1 e 2 do statement.

20090307_lx_expo_046Não que discorde de um certo desconforto provocado pelo sobreposição gráfica em imagens algumas delas de uma beleza relativamente kitsch, a arte também pode desconfortar mesmo sem que para isso tenha que necessiriamente epater le bourgeois, chocando ou subvertendo. A minha dúvida prende-se talvez com o facto de que o dispositivo empregue parece não contracenar adequadamente não só com o conceito de espelho e memória, mas além disso, dificulta a leitura simbólica da imagem, mais contribuindo para o adensar semiótico da mesma, ainda que sendo trabalhado no espectador talvez o desconstruir de uma certa forma de olhar, para posterior reconstrução da mesma com base em novos dados. Não conheço o trabalho anterior deste fotógrafo, pelo que se torna difícil perceber a sua trajectória apenas com base no texto introdutório ou no CV, todavia parece aparente a vontade de abrir novos caminhos da sua expressão fotográfica, ainda que não descolando do cariz identificador da prática anterior. Com base no que nesta exposição é dado a observar, existem dados suficientes que permitem antecipar entusiasmo e expectativa na antevisão de novos desenvolvimentos, face a esta exposição que foi talvez a mais interessante da tarde, não tanto pelo aspecto pictórico,  mas sobretudo pela proposta conceptual nela contida.

O dia não quis terminar sem mais uma exposição, desta feita uma pequena mostra de artistas do colectivo lab65 na FNAC do NorteShopping. Pouco há a dizer, apenas duas fotos de cada fotógrafo, deu para ficar com uma idéia acerca dos trabalhos promissores das gentes sobretudo ligadas ao Norte, mas com um ou outro elemento também do Sul, quase todos com o denominador comum da premiação em concursos de renome. Foi pena não ter conseguido apanhar a “Hospitalidade” do Paulo Catrica, que esteve na galeria dos Silos do NorteShopping, pois que já estava em fase de desmontagem.

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Comments:

lion
March 10, 2009

O Norte tem destas "cosy" coisas boas q tbm podem ser "alimento" de inspiração :))))

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