#16 … no país da fotografia

José Cabral, Anjos UrbanosP4Photography

Embora África nas suas diferentes expressões e convulsões esteja relativamente bem documentada por fotógrafos exógenos, é pouco conhecida entre nós a fotografia vinda daqueles que nela vivem e trabalham, à excepção de um pequeno número de fotógrafos sul-africanos que encontram eco a nível internacional, casos de David Goldblatt, Guy Tillim e Michael Subotzky. A fotografia dos Palop’s parecem não fugir a essa excepção, que agora se vê um pouco contrariada com esta exposição do moçambicano José Cabral,  em que são mostradas imagens efectuadas desde os finais dos anos 80 até à data. Vindas de um quotidiano que demonstra particular interesse pelo universo infantil, são as crianças que na sua alegria, serenidade e inocência se enquadram em contraponto ao que o resto das fotos permitem entrever, degradação, pobreza, as promessas ainda por cumprir do pós-colonialismo, num Moçambique felizmente menos exaurido pela guerra e tentando a sua caminhada pelo regime democrático, contudo creio deaumbular sobre o sentido desta exposição, aparentemente muito mais pessoal do que documental, pese embora o facto do largo horizonte temporal das fotos nos poder colocar perante um exercício retrospectivo ou de aparente coadjuvante da história. Não é isso que impede que este seja um conjunto fotográfico que nos transporta para um universo de esperança, algo diferente dos desditosos testemunhos que nos chegam de África, o que só por si já é uma enorme benção.

Inês Gonçalves, S. Tomé, Máscaras e MitosGaleria Pente 10


Esta autora trás-nos um conjunto de retratos dos habitantes de S. Tomé e à semelhança com José Cabral, poupa-nos às habituais litanias da desgraça africana, se bem que nas fotos não deixe de se ler a dureza com que a vida cavou alguns desses rostos e corpos. Com o continuado massacre de imagens em volta da perda, da morte, da fome, da violência, etc., quase nos habituámos a considerar que tudo o resto não existe, que a felicidade ou a alegria são miragens que nos estão vedadas, e o que nos é apresentado como proposta de felicidade, geralmente assenta sobre uma imensa e enganadora base de maquilhagem e artifício. Aqui, também o olhar se interroga perante a artificialidade destas vestimentas, que apesar de transformarem os seus utentes em personagens das Tragédias, em simultâneo lhes confere um certo sentido de estranheza, de deslocamento, sendo de notar o ar de seriedade com que as imagens nos surgem, pese embora a auréola de teatralidade que carregam. A grande maioria são retratos em PB, mas o conjunto é interrompido por pontuais imagens a cores, num aparente quebrar de expectativas, algo que creio poderia ser dispensado, face à tremenda ambiguidade e riqueza que os retratos em PB já carregam, mas essa é mera opinião, antes importaria perceber a razão por detrás desta opção, que de modo algum obnubila a beleza do conjunto.

Catarina Botelho, Dias Úteis, R Anchieta 31 (ao Chiado)

Reunidos sob o título “Dias Úteis” estão 3 trabalhos da autora (“s/ titulo”, “modo funcionário de viver” e “termo de identidade e residência”). O pequeno gesto e o fragmento do quotidiano são valores em alta no mercado fotográfico, situação para a qual tem contribuido o continuado discurso de crise, financeira e de valores, resultando num apelo a um retorno ao básico, naquilo que aparenta ser uma nostalgia do passado com tanto de anseio de segurança como de receio pelo futuro, sintomático não apenas da errância e falta de direcção, mas sobretudo e mais grave, da incapacidade para assumir o presente e acolher o desconhecido. Esta idéia sai reforçada pela quantidade inusitada de trabalhos que reflectem estes sintomas, pontuados pelo desespero, pela impotência, pelo desinteresse, pela desresponsabilização, pela incapacidade em encontrar um rumo, mas sem dúvida que esse parece ser o real de muitos, há que entendê-lo e aceitá-lo dessa maneira, mas conviria sublinhar que existem outras realidades possíveis e que nem todos estão desejosos de contribuir para o ecrã negro que actualmente teima em querer desfilar perante os nossos olhos.

Por outro lado, consecutivas acusações de que a fotografia não “reflecte” o real, algo que advém das suas propriedades específicas e que aliás me parece injusto, dado que nada existe que possa condensar uma tarefa que já de si é impossível, e aliadas também às acusações de “estetização” desse real, são alguns dos factores que ajudam a condensar e perceber as águas em que navegam estas séries, que bafejam o banal mas que paradoxalmente eliminam o acessório, o que de algum modo as torna num inverosímil excesso de realidade ou porventura numa ficção. Se o mundo da fotografia parece carente de maior conhecimento acerca da interioridade e profundidade, em oposição às tendências objectivas, gesto que só por si garantiria maior realismo ao acto fotográfico, isso é-nos sem dúvida mostrado neste registo do universo feminino proposto por Catarina Botelho, em contraposição a uma utilização massificada e objectificada do corpo. No entanto parece assistir-se a uma proposta de narratividade do real em que a vida se forma de um conjunto de gestos ausentes, quiçá distantes, a caminho de um universo claustrofóbico e sem saída, tão distante da realidade como o outro do final feliz e embelezado, em que certas fotografias nos querem fazer acreditar. Esta tendência actual, em que se tenta mostrar o real como ele é, quase como acto expiatório de uma culpa pelo facto de tanto tempo se andar a viver sob a égide da ilusão, embora apresentando simbolicamente a necessidade de assentar os pés na terra – o que é meritório – não deixa contudo de ser uma visão parcelar daquilo que efectivamente pode ser a realidade e a sua construção. Provavelmente, o que nos é mostrado é apenas aquilo que a autora desejaria exprimir, no entanto esse é um dos dramas destas séries, que de tão abertas nos seus sentidos, acabamos por desconhecer se estão ancoradas em real ou se se tratam de ficções, pois que me parece que a viverem neste limbo, claramente perdem a sua vitalidade. Numa nota final, alguns dos planos vislumbrados, tem claras similaridades com o cinema de pendor mais documental ou até realista, como é o caso do português Pedro Costa, não deixando de ser interessante o facto de ter ele sido escolhido para esta edição da Photo Espana, uma edição em que claramente se faz sentir o apelo ao real, no entanto, fica por conhecer de que forma sai a fotografia engrandecida ou desvalorizada nesta comparação, o que só por si, já daria para outro artigo.

Sandra Rocha – “Há Metafísica Bastante Em Não Pensar Em Nada”, Casa Fernando Pessoa

Desta vez não tenho nem uma foto que suporte esta pequena recensão. No dia em que fui visitar a mostra aconteceu um pequeno recital de piano no andar de baixo, o qual confina com o espaço expositivo, pelo que me sentei numa cadeira ali deixada, quiça propositadamente à apreciação das imagens, certo é que dormitei um pedaço, acordei ao som das palmas, levantei-me e saí, qual concerto, quando se sabe que já não há encore, esquecendo-me de registar algumas imagens. Sobre poemas de Alberto Caeiro, um heterónimo de Fernando Pessoa estas fotografias de Sandra Rocha, não me deixaram vontade de gritar pelo encore, pese embora alguma associação bem conseguida entre o simbólico e o imaginário da genialidade pessoana. A escolha dos motivos, algo decalcados uns dos outros, a má qualidade das ampliações, não serviram bem a esta proposta da autora, que se reconhece como alguém que cultiva a excelência sobretudo em trabalhos de pendor documental. Já as imagens (“made in china”) que mostrara nos Encontros da Imagem em Braga me tinham transmitido alguma sensação de decepção, mas é assim a proposta artistica, agradando a uns, desagradando a outros. Talvez estas palavras de Inês Pedrosa, directora da casa, sejam mais sensatas que as minhas… «Alberto Caeiro foi o Mestre e o menos erudito dos heterónimos de Pessoa. O aviso concreto contra as máscaras do conhecimento, o sábio guardador dosrebanhos do pensamento original. Por isso é, dentro do universo Pessoa, o poeta favorito dos amantes da natureza e dos defensores do regresso a um hipotético « mundo natural». Mas Caeiro é outra coisa, mais complexa e simples: um escritor que não tem medo das palavras, que não faz cerimónia com a vida. Olha e vê – e não se inquieta com a distância existente entre o olhar e a escrita, nem procura diminui-la. As imagens de Sandra Rocha fixam essa tranquilidade essencial de Caeiro, e o seu dom para contemplar a beleza das coisassem se sentir ameaçado ou, de alguma forma, intimidado por elas. Caeiro é o poeta do bom senso, essa qualidade essencial da inteligência humana que a velocidade feérica das artes e engenharias tantas vezes apaga. É essa, talvez, a grande marca da sua singularidade: o desassombro de lançar sobre tudo o que existe um pensamento sem vénias nem preconceitos. As fotografias de Sandra Rocha iluminam essa busca de uma justiça atenta e inaugural; usam a coragem do pormenor e a limpidez da liberdade. Fazendo-nos respirar o ar do exterior, a vida, a morte, a imensidão, os limites e a provocação eterna da beleza, convocam-nos para uma relativização de todos os nossos ilusórios saberes e sentimentos. Conduzem-nos à sensatez da alegria.»

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