2 livros


 

Mármore, de Pedro Letria. Ontem, de André Cepeda.

O livro é por excelência o local d(est)a fotografia. Letria diagnostica a alma do mundo em poesia concreta, Cepeda trata da alma de um mundo em prosa versada. André Cepeda expõe-se e ao Porto a nú, é dificil olhar aquelas imagens, é-nos dificil olharmo-nos. Culpa, expiação, impotência, vergonha, vítima ou/e salvador, são noções pessoais e colectivas que assombram cada imagem de “Ontem”. A coreografia da pobreza, da prostituição, da toxicodependência, temas complexos, de difícilima abordagem, conhecem aqui um enquadramento em profundidade e extensão, que confere a este trabalho uma qualidade imutável, duradoura, que justamente perdurará. É documental? Não é? Que interessa isso? É um trabalho tremendo. Mais livre estou para o dizer, pois que inicialmente reluctei sobre este trabalho, nem a exposição na Zé dos Bois nem a do prémio BesPhoto, as únicas que vi, lhe fizeram justiça, agora sim emendada, nas paginas deste excelente “Ontem”.

Pedro Letria pisa um chão diferente, talvez não seja marmóreo como o título erróneamente leva a crer, mas a evocação da qualidade perene da pedra persiste em revelar-se a cada fotografia. O que é que se faz com a vida, ou aliás de que é feita a matéria? Para onde vamos? Em “Marmóre” a viagem faz-se pelo mundo, não em território único e circunscrito como em “Ontem”. Um mundo exterior mas cuja viagem é interna, feito de dúvidas, hesitações, onde por vezes parecem encontrar-se respostas (o magnífico jogo página-contrapágina), mas no final são as perguntas que perduram, o mistério da essência, que não está acessível nem com raio-x, imagem com que se encerra este belo trabalho.

A confrontação parece mais fácil em “Mármore” que a de “Ontem”, mas as aparências iludem, como nos deixamos influenciar pela “facilidade das formas”, embora tanto Letria como Cepeda pouco ou nada lhes cedam. No fundo ambos abordam questões semelhantes, no essencial será sempre assim, as perguntas repetem-se, a forma de as procurar responder é que é tão diversa que quase parecem existir muitas. Nenhum destes registos é de amor à primeira vista, mas não será isso nunca impeditivo a reconhecer o profundo, pensado e empenhado trabalho fotográfico que se colocou em ambos os livros.

Links
André Cepeda
Pedro Letria

Share: Facebook, Twitter, Pinterest

Leave a Comment: