#2 … no país da fotografia

Uma pequena excursão à Planície Alentejana permitiu matar saudades da minha Évora e apanhando mais duas flores com uma só ramada de mão, visitei a retrospectiva de carreira “Antologia Experimental” do fotógrafo José Manuel Rodrigues, patrocinada pela Fundação Eugénio de Almeida e exposta no Palácio da Inquisição, onde também eu fui “inquirido” pela última vez a fim de terminar a licenciatura, para a ignominiosa cadeira de Economia Regional, espaço agora airosamente dedicado ás inquisições artísticas, visita após a qual se deu 3 passinhos á direita e onde se entrou para a exposição colectiva “Café Portugal“, no fórum daquela fundação.

Uma visita a Évora é sempre um momento de grande alegria pela memória dos tempos de estudante que por lá passei em meados dos 80 e ainda adentro dos 90, nunca deixei de voltar regularmente, para olhar a indolente mole humana que vai pululando pela Praça do Giraldo, para escutar a deliciosa pronúncia, pela luz que parece entrar por uma qualquer porta da muralha, pela paisagem urbana, angular, caiada, granítica, infelizmente agora recortada por uma série de horrendos “vasinhos de flores”, labor de algum esteta preocupado com a falta de verde no centro da cidade e quiçá convencido de que a mesma é a sua varanda, tendo conseguido não menor proeza que assassinar toda a estética das arcadas e da Praça do Giraldo, bem como da Praça do Município e sabe-se lá que mais, pois que não tive tempo para visitar o resto da cidade, a arquitontura paisagistica no seu máximo expoente!

©2008jose manuel rodrigues - foto da Série Solo a Solo
foto da Série Solo a Solo

Mas vamos à “Antologia Experimental” exposição individual do fotógrafo José Manuel Rodrigues, nascido em Évora e por lá de novo após alguns anos na diáspora, do folheto pode-se ler “Este projecto expositivo, de carácter antológico, é estruturado em torno da série recente Solo a Solo (2005-06), e explora cruzamentos múltiplos entre fotografias das últimas duas décadas e o trabalho performativo e experimentalista realizado sobretudo na década de 1980, período em que José M. Rodrigues, então a residir na Holanda, manteve estreitas ligações com os movimentos artísticos de vanguarda do centro da Europa. Apresentam-se, em 12 núcleos expositivos, algumas das fotografias mais marcantes do autor, e um conjunto de obras/instalações, filmes experimentais, peças tridimensionais e séries fotográficas – inéditas ou raramente vistas em Portugal. Entre as obras inéditas destacam-se um filme dedicado a Ernesto de Sousa, Enciclopédia Universal (1984 – 2008) e dois projectos de 2007 criados para esta exposição, e Lugar e Lucefece.  A exposição é de uma produção própria da Fundação Eugénio de Almeida com a colaboração do artista, que procura tirar partido da excepcional localização do Palácio da Inquisição, um edifício do século XVII situado no principal núcleo monumental do centro histórico da cidade de Évora, fronteiro ao Templo Romano e virado à Catedral.

Conhecia algumas imagens do fotógrafo, já tinha visitado “Solo a Solo” em Sines, “Jogos proíbidos” nos silos do NorteShopping no Porto e tido a oportunidade de folhear alguns livros da sua fotografia, mas desconhecia por completo todo o resto do seu corpo de trabalho que abrange muito mais que o fotografia, mas onde a imagem se mostra quase sempre presente. Desta antologia constam inúmeros trabalhos dos anos 80, os quais assumiram claramente o risco próprio de quem experimenta e em simultâneo é influenciado pelo surrealismo, que a par de uma economia de meios, fornecem elementos que de algum modo nunca deixam de estar presentes no restante percurso do autor. Se este traço inicial do percurso parece mais vincado, mais demarcado, parecendo apontar para uma fotografia “independente” – se é que isso existe  e com isso quero apenas significar uma estética vincada pouco dado a modismos – nos trabalhos mais recentes essa tendência esbate-se um pouco (Solo a Solo), sem contudo abandonar as temáticas principais.

Alguns desess temas são recorrentes nesta antologia, o retrato, sobretudo na exploração do rosto e do auto-retrato, os 4 elementos, mas o preponderante Terra, apresentados sobre as mais diversas formas, perspectivas e composições. Uma perspectiva rica da obra do fotógrafo, bem casada com o espaço, informativa e formativa, onde como afirma Alexandre Pomarse com as experiências se aprende, e esta é uma antologia experimental, aqui também se ensina a ver, ao longo de um percurso inesgotável“, sendo o potencial lúdico e didático desta exposição enorme, como me deliciei com uma bailarina (real) que durante largos minutos dançou sua sombra na projecção de um dos filmes – Lucefece – ou quando abri uma instalação caixinha-supresa de fotos. Uma beleza esta antologia, em todo o caso não comparável ao magnifíco bolo de laranja com que se fechou a tarde na cafeteria do fórum, mas o estomago também não desdenha de arte.

Em seguida rumou-se ao “Café Portugal“, exposição de arte contemporânea portuguesa itinerando agora no Fórum Eugénio de Almeida, criada a pretexto de uma visita do actual Presidente da República à Rep Eslovaca e que assenta no conceito de identidade, pertença a um país, a um património comum. No mínimo curiosa esta “integração” portuguesa na identidade europeia através dessa tipologia social, cultural e patrimonial, que é o café, citando George Steiner “desenhe-se o mapa das cafeterias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da “ideia de Europa“.

A alguns eborenses o título desta exposição trará certamente o reavivar de algumas memórias, pois existiu um Café Portugal em Évora – hoje totalmente travestido numa desenxabida multinacional de roupa – que concorria com esse outro café “à antiga”, o Café Arcada, na Praça do Giraldo. Em ambos ainda por lá assisti a uns encontros de jazz lá pelos 80 e tais, mas a fumarada era tão espessa que já não relembro os tocadores, fecharam ambos pouco depois, tendo o Arcada felizmente sido reaberto já neste século e até agora sobrevivendo. O Café Portugal era lembrado pelos locais com mais carinho que o Arcada, quiçá por ser mais popular “frequentado por eborenses e pela malta do reviralho”, e acrescento eu, pelo facto de ladear com a sede do Partido Comunista mesmo a 2 passos no largo de Camões, dado que à época ainda Évora vestia de vermelho, estando o Arcada reservado à burguesia, às senhoras finas esposas dos alemães da Siemens, aos domingos ao som de orquestra.

Nestoutro “Café Portugal” alguma fotografia se abriga nesta “encomenda” da mais alta patente nacional, Paulo Catrica com 6 fotos sobre o Teatro S Carlos, ou um ensaio de como a fotografia pode ser uma coisa aborrecida de se ver e relembro como ao contrário, a “estética do documental” pode ser de uma extraordinária beleza, através das fotos de lugares do Porto de Inês d’Orey, obra essa não presente nesta exposição. Um trabalho de José Luis Neto – prémio BESphoto 2006 – plasticamente desinteressante, mas com uma carga tremenda de polaridade, ironia, sugestão, pois à encomenda para fotografar os 21 monumentos portugueses candidatos às 7 maravilhas, contrapõe uma obra miniaturizada que exige um esforço de atenção e visão impar, trabalho que “reflecte sobre a memória, a sua subjectividade e o seu processo de construção”. Uma foto de Manuel Botelho intitulada Ração de Combate, cuja ideia de identidade é representada pela abordagem de uma vivência de guerra, onde se entrevê um fantástico postal deixado no chão onde se pode ler sobre a bandeira portuguesa “LUTAMOS PELA PAZ”. Todos estes registos fotográficos bastante interessante a nível conceptual, mas cuja forma plástica em todos os casos é desgraçadamente feia ou assim assim, embora técnicamente irrepreensível, apontando talvez para a idéia de que o conteúdo supera a forma, mas não poderia a moça ser bonita e inteligente ao mesmo tempo…?

Rematando esta “conversa de café”, uma passagem sobre as escolhas para esta exposição entregues a Filipa Oliveira, algumas delas rebuscadas no sentido da mais imediata apreensão acerca da ideia de identidade nacional – casos dos extraordinários desenhos de Rui Moreira, em que a alusão aos caretos do Norte a história bíblica de José e Maria é algo obscura, reflectindo a itinerância dos portugueses- mas abrangendo um leque de obras que pontificam de imediato sobre essa ideia, o retrato de Amália, o barco de pesca feito de azulejos, o catolicismo (sem Fátima…), a alusão à ditadura e à guerra colonial (mas a não à integração dos retornados e imigrantes na formação dessa mesma identidade), a tauromaquia, num conjunto de artistas que parece talhado pela preocupação crítica sobre a sociedade. Ainda assim há espaço à arte pela arte, com a escolha da fotografia de um icone da cultura de elites – Teatro S Carlos – mas se houve algo em que nunca os portugueses foram pródigos foi na produção de formas de cultura de elite, pelo que se despercebe esta escolha, ao invés abrindo mais sentido ao vazio da ausência de uma obra sobre o desporto como grande fenómeno de identidade nacional em que justamente “a nação” se projecta, ou dito de modo curto, nem uma obra sobre as bandeirinhas de Scolari na janela? Já sabíamos que o sr Presidente não vai muito á bola, mas tanto também não. Como em tudo, há que fazer escolhas e a curadora fê-las certamente levando em linha de conta não só o patrono como o carácter da exposição e não serão alguns reparos que a tornam menos meritória, enfim, uma boa viagem à planície.

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