#3 … no país da fotografia

Testemunhos – Trajectos de Qualificação, Alfândega do Porto

Mostra colectiva de fotografia, com um filme-documentário, vários textos e o que me pareceu ser um slideshow (não estava funcionante) este trabalho foi uma encomenda do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), sobre o tema da qualificação, escolar e profissional. Das palavras de Sérgio Mah, comissário da exposição “Procurou-se, deste modo, potenciar uma representação actualizada e empiricamente sensível sobre o quotidiano de pessoas e perfis sócio-profissionais, sobre contextos de formação e sobre condições sociais e ambientes laborais em que o desafio da qualificação tem vindo a adquirir especial oportunidade e relevância pública.(…) Deste modo, por entre imagens e palavras, Testemunhos — Trajectos de Qualificação propõe uma incursão sobre experiências reais nos domínios do trabalho e da formação, mas também sobre modos e percursos de vida que inevitavelmente nos faz pensar sobre a relação entre trajectos educativos e trajectos profissionais. Esta é, como sabemos, uma reflexão cada vez mais presente e necessária, também porque abrange uma significativa maioria da população portuguesa. Contudo, mais do que descrever e procurar respostas esta exposição pretende sobretudo delimitar um contexto susceptível de mobilizar a nossa consciência individual e colectiva para uma temática que atravessa diferentes aspectos do domínio privado e público e que nos remete, inevitavelmente, para os dilemas e os desafios de um país em mudança.

Sendo um projecto institucional do IEFP, a mensagem é clara e assumida, aliás pode-se ler no site “tem como principal objectivo dar visibilidade a histórias de vida que se (re)construíram quando a qualificação se cruzou com a experiência, na preparação de novos futuros. É inevitável, sobretudo em Portugal, o cruzamento de projectos pessoais de fotografia com “encomendas institucionais”, a maior parte dos autores tem que trabalhar para colmatar o fim do mês, com raras excepções a poderem fotografar e sustentar a fotografia que querem, sem colocar em risco a sobrevivência financeira e pessoal, é a mescla entre o projecto inteiramente pessoal e os “constrangimentos” da encomenda. Se no caso do fotógrafo de tendência fotojornalistica, isso pode parecer menos problemático para a gestão da respectiva carreira profissional e artística, já no caso do fotógrafo “conceptual” esse casamento poderá levantar algumas questões, nomeadamente se a “encomenda” está de acordo com a sua visão artística, de que modo é afectada a unicidade estética da obra, etc, ou dito de outro modo, como coexistem os paradigmas estéticos da autoria e da originalidade, com as “encomendas”, sabendo que essas parecem ser dinâmicas que afectam o modo como o fotógrafo é publicitado, convidado a expôr e sobretudo “comprado” pelas colecções. Será que esses critérios prevalecem? Não tenho idéia de quem consegue ter mais sucesso financeiro, mas a “olho”, na fotografia em Portugal, parecem ser os “artistas conceptuais”, cuja representatividade nas colecções privadas (as que mais pagarão) é visível, isto porque a actividade fotojornalística parece mais destinada a outros meandros menos rentáveis, pelo menos por cá. Despe o artista esse “chapéu” perante a encomenda? É importante que o faça? De que modo é afectado? É coerente consigo mesmo e/ou com a sua obra? É essa coerência importante ou desejável?

No que diz respeito ao fotográfico, foram agregados neste projecto fotógrafos de várias sensibilidades, desde o fotojornalismo “artístico”, casos de Sandra Rocha, Pedro Letria e Augusto Brázio, a correntes estéticas que se parecem balizar mais de acordo com a “arte conceptual”, eventualmente apoiada em escolas ou correntes de fotografia, como parecem ser os nomes de António Júlio Duarte, André Cepeda, Patrícia Almeida e Augusto Alves da Silva. Se este era um trabalho que poderia remeter de modo confortável para os domínios do fotojornalismo, a inclusão de outras abordagens estéticas enriqueceu-o de tal modo, que considero esta exposição fundamental a quem deseje alargar horizontes sobre o olhar fotográfico contemporâneo.

Quanto ao que estava exposto, a Patrícia Almeida foi destinada a missão de fotografar cinco centros profissionais das áreas de Lisboa e Porto. Já tinha observado em Portobello algumas características que aqui se tornam de novo visíveis, alguns traços visuais de uma provocante ironia, rigor de composição, por vezes até cénica, encenada, com uma das fotos da mesa composta para o almoço a parecer ilustrar essa dinâmica da autora. A narrativa visual é rica apesar de directa e não obstante o classicismo rigoroso da composição. Daí resulta uma estética imediata, agradável e ainda que pouco perturbadora ou aparentemente pouco questionante, será que nos questionamos apenas em face da perturbação que nos é causada? A riqueza das tomadas de vista foi facilitada pela pluralidade de locais que estavam á sua disposição para fotografar, mas isso não lhe retira qualquer mérito. Por outro lado a aparente “neutralidade” do documento fotográfico, apanágio deste tipo de fotografia, é trabalhada de um modo sui generis, desfazendo um pouco (mas não muito) as “regras” do documental, que aliás outros fotógrafos representados na exposição “infringem” de modo claro.

Aos restantes autores foi-lhes pedido que ilustrassem um “caso”, o de alguém que frequentara a formação profissional. É desconhecido se se trata de um caso de “sucesso” ou como foi a amostra escolhida, de modo a chegar a estas pessoas.

André Cepeda, apresentou uma fotografia na linha do que já lhe conhecíamos de Ontem,. Aqui a marca autoral parece estar mais no domínio do que se entrevê, sempre menos do que se deixa ver, na dureza das formas, numa composição de fórmula estranha. Alguns momentos captados remetem para noção tão díspares como o aborrecimento, o fastio, o esforço, a concentração, o estudo, a curiosidade, etc, tudo sempre embebebido por uma estratégia de revelação crua, de pouco “glamour” estético, nada de ícones apenas aquilo que é, ou parece ser, acabando essa estratégia por talvez revelar maior densidade no tratamento do sujeito. Não é uma estética fácil, aparentemente denunciando até algum desconforto perante o sujeito tratado, mas esta é uma impressão inteiramente subjectiva e além disso, até que ponto está o autor presente naquilo que fotografa?

Sandra Rocha, apresenta uma fotografia interessante, quase todos os planos de composição paralela, praticamente na perpendicular ao sujeito, numa fórmula muito pouco vista e visualmente difícil. O tratamento da luz é belo, a fugir muito da proposta de “neutralidade” subscrita por alguma arte conceptual, pelo que esta fotografia dificilmente caberá nas colecções contemporâneas, presentemente pouco dadas a este tipo de abordagem. Aborda-se a diversidade de uma vida que mistura afectos com trabalho, curiosamente apenas as autoras femininas mostram o afecto de forma clara, os homens optando por uma linguagem por vezes mais do domínio da razão nas suas propostas, por vezes rebuscadamente intelectual. Existirá uma fotografia “feminina”, mais instintiva, a fotografar com o estômago como diz Nan Goldin? Ainda assim gostei da poesia visual proposta neste ensaio pese embora a estética “ferrugem” de oficina de serralharia que permeia as fotos, mesmo as que não estão directamente envolvidas com a actividade laboral.

Todavia contém alguns perigos esta narrativa, ao qual não se furtaram outros autores presentes, sobretudo no ilustrar de conceitos que são demasiado complexos para poderem ser encerrados na fórmula qualificação=sucesso que alguma desta foto parece ilustrar. A história é levada para o lado da versão oficial, porque o autor está a ser pago para isso, ou ainda que não totalmente assumido, é inconscientemente influenciado por esse facto? Em 4 casos, é fotografado o acto de comer, ou o pão, ou a preparação de refeição, sem dúvida que o trabalho é aquilo que coloca o pão na mesa, mas está isso associado a trabalho qualificado? Provavelmente… Em 3 casos, os autores apresentam a “casa nova” do cidadão que frequentou a formação, pressente-se a ambição de possuir e adquirir casa própria como uma das mais intimamente arreigadas no ser humano, desejoso de conforto, segurança, estabilidade, mas “ligar” imagem de casa nova=sucesso=qualificação profissional é uma visão possível, ainda assim algo enviesada. Indubitávelmente existe uma correlação, mas não creio incorrer nalguma injustiça se afirmar que a formação profissional é ainda e foi em muitos casos autenticamente “despejada”, via fundos provenientes dos diferentes quadros comunitários, como ferramenta estratégica de aumento de produtividade que poderia ser, mas que tal não conduziu a resultados muito efectivos no plano prático e vejam-se os indíces de produtividade, crescimento do PIB, taxas de rotatividade, crescimento da massa salarial, aumento da procura e exportações, enfim, saímos da cauda da Europa? Foi graças á qualificação profissional? Algumas das narrativas descritas por Kathleen Gomes, parecem inclusivamente apontar num caso ou outro para o descair para alguma verdade oculta, que embora não inteiramente assumida se pressente, a formação como “obrigação”, algo imposto do exterior, não totalmente desejado. Um autor “independente” ao relatar a formação profissional, ilustraria apenas os casos de sucesso?

Augusto Brázio, que se reconhece como o retratista luso actualmente com maior protagonismo, apresentou a D. Júlia, costureira, desafio maior ter que conjugar cores e formas geométricas, numa mente que provavelmente pensa de modo automático “rosto, preto e branco”. Num autor cujo trabalho é tão vincado, este ensaio poderia ser uma proposta complexa. Apresentando o sujeito no contexto de alguém que, além da profissão ainda tem que tratar da lida da casa e dos filhos, o resultado final parece-nos pouco conseguido no domínio de uma estética própria, de uma linguagem que distinga o autor, pontuando talvez em demasia o uso da côr e do gráfico, mas numa casa de costura a tentação era grande. Ainda assim uma narrativa interessante, diversa, com algumas anotações de puro deleite visual, como o Cristo-Rei em contraponto ao cruxifiço dependurado no retrovisor do automóvel.

Pedro Letria mostra uma narrativa que não sendo exaltante visual ou conceptualmente, leva a bom porto o que lhe é pedido. É comum a todos os autores a necessidade de ir buscar pontos de vista que possam trazer riqueza a uma abordagem que está confinada a uma só pessoa, sobretudo quando se tem como instrumento narrativo uma câmara e não uma caneta e papel, tal tarefa é bem mais dificil do que possa parecer. O ensaio mais “fotojornalistico” de todos.

António Júlio Duarte, ilustra Jerónimo, profissional da pesca. O traço autoral é distintivo no uso da côr e naquilo que usualmente se consideram “erros” fotográficos, que o autor integra bem numa fotografia de dificil formato quadrado mas de grande riqueza visual, ainda que do todo possa resultar uma estética que provoque ambivalência no espectador, uns amarão, outros odiarão, estou mais do lado dos primeiros. Ainda assim quando a composição integra paisagem ou fragmentos de “still life” parece-me mais bem conseguida do que quando abraça pessoas, num registo que por vezes parece usar o humano como mera ferramenta de composição visual o que numa fotografia deste género pode parecer algo estranho. Por outro lado, o uso da narrativa que enuncia a “casa nova” mais visível no catálogo que na exposição, parece-me uma abordagem um pouco dada ao “discurso oficial”. Discordo desta fórmula de sucesso e é aqui que creio que o fotógrafo “faz encomenda”, embora o possa fazer de modo inconsciente. Poder-se-á argumentar que é apenas uma constatação, a de que com esforço e aplicação se conseguem obter coisas, mas para além da perspectiva materialista inteiramente válida, estão outras dinâmicas não menos importantes e sobre as quais importaria que a fotografia também reflectisse (ou fizesse reflectir, como largamente pretende), aqui subscrevo Jon Presser quando afirma que “a fotografia documental avança as falsas causas do sistema liberal porque ignora os aspectos ideológicos do sseus próprios padrões de representação” in Image Based Research.

Augusto Alves da Silva apresenta quase sempre uma fotografia em que o simbólico é claramente mais forte que o simbolizado. Pouco dado a imediatismo visuais, denota profundo conhecimento acerca do poder codificador e simbolizador da imagem. Neste ensaio, se lhe retirássemos a carga do nome do autor que o mesmo carrega, diríamos tratar-se de alguém que possui um gosto particular pelo cliché, que convoca o kitsch para as suas imagens, um fotógrafo que parece entrar na cabeça do povo e que fotografa como se fosse o mais comum dos mortais. Recriar um registo popular, sem glamourizar os “petiscos, pão e vinho tinto”, é decerto um traço de ironia que se regista e que parece figurar na sua obra. Ironia ou talvez não, este fotógrafo é normalmente associado a grande coerência na sua estética,  recorde-se a “paródia” ao encontro de Bush, Aznar, Blair e Durão nos Açores, na série “3.16” de 2003, em que a paisagem açoreana ilustrava a complacente natureza, que segue o seu curso independentemente das desgraças que por ela passem, ou num tom mais político, tudo vai bem pelo mundo desde que em NY se possa viver protegido, ainda que enjaulado. Quem olhasse as fotografias separadamente da proposta conceptual que as apoiava, teria dificuldades em encontrar um fio condutor, confundindo eventualmente fotografia “de paisagem” que manifestamente não era. Neste ensaio, o fotógrafo ilustra um electricista que arranjou dinheiro para comprar um barco – a meias – e dedicar-se à pesca. Pese embora o imediatismo que as suas imagens convocam, parece ser ubíquo o dom de esconder significados, quer apoiado na ironia (sarcasmo como mecanismo de defesa?) ou por imagens de uma estética banal ou próxima, com as quais se poderia escrever uma fotonovela. Sendo possível que no anseio da intelectualidade resida o seu oposto, até porque as lógicas demasiado díspares são normalmente aquelas que estão mais próximas, ou como diz Pedro Mexia “o engraçado é que as pessoas mais «elitistas» cedem com gosto aos gostos da multidão, que as mais «misantropas» são na verdade fúteis, as mais distantes da «communis opinio» anseiam pela aceitação social e as mais «sofisticadas» pensam exactamente como adolescentes.”

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Comments:

madalena
October 28, 2008

(Harlem é um sítio giríssimo de onde guardo imensas recordações....hei-de voltar ..um dia ..kem sabe ?? )

October 29, 2008

Sim senhor, um excelente trabalho de crítica. Por acaso, já tinha ouvido falar dessa exposição, mas agora com toda esta apurada descrição, a vontade de a ver cresceu. E certamente que, se me deslocar ao Porto em tempo útil, tentarei vê-la. Continua assim com este Blog, que começa a ser uma referência importante nestas (infelizmente) não muito abundantes reflexões sobre a fotografia portuguesa na Net.

Joao Henriques
October 29, 2008

Olha que vale muito a pena a deslocação, não se vê um trabalho desta dimensão todos os dias e sobretudo com estes actores fotográficos.

teresa
October 29, 2008

Depois de ler esta crítica apurada e bem burilada (na horizontale não na diagonal como é meu costume) resta-me ir visitar as imagens. ainda bem que vais sinalizando os caminhos da arte

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