32 inch ruler / map of babylon, john gossage


 

Fruto da última incursão à STET, assentou nas prateleiras caseiras o livro de John Gossage intitulado The 32″ Ruler / Map of Babylon. Não é comum o post alusivo a aquisições livreiras, no entanto um email anunciando a exposição dessa série numa galeria parisiense, acabou por promover esta reflexão que se partilha. O facto de o mesmo ir ser exposto numa galeria, não foi o que realmente despertou interesse, contudo, nesta digressão, esse dado não pode ser escamoteado. Estas imagens estão numa galeria, à venda em dimensões de 60×90. São imagens que se desviam da linhagem do “decorativismo e papel de parede”, que uma boa percentagem das galerias geralmente exibe durante a Paris Photo. Grande ou, de preferência, que dê com os cortinados, parece ser o mote geral, pelo que apenas isso já seria digno de nota neste conjunto de fotografias.

Uma obra, que curiosamente é sobre decoração, a regra e esquadro, para ser mais preciso, onde se tangencia o viver idiosincrático dos americanos endinheirados, sobretudo através das casas onde moram, dos carros que compram, das decorações dos interiores das casas, enfim, das aparências. Americanos com poder, note-se, pois que se trata do bairro de Kalorama, em Washington, onde habitam diplomatas, políticos, enfim o género de pessoas que Gossage habilmente não mostra, ampliando desconfortavelmente a invisibilidade real, por contraposição à mediática, daqueles que mandam.

As fotografias são simples, mas na aparência apenas. Seria fácil constituir uma série política e documental sobre Washington que relevasse das questões que habitualmente povoam o imaginário foto-documental: violência, racismo, desigualdade, etc., mas esse nunca é a mira de Gossage. De uma enorme precisão composicional, tiradas sempre em dias ensolarados e de céu azul, onde desfoques selectivos remetem para complexas relações figura-fundo, são imagens subrepticiamente irónicas, embora um olhar menos avisado possa dizer que se trata de um livro para “tias republicanas desfolharem na hora do chá”. O próprio design do objecto parece a certo tempo transformar-se em catalogo de decoração, com “etiquetas” cromáticas semelhantes às que se podem presenciar em mostradores, de tecidos, de alcatifas, enfim, de produtos decorativos.

John Gossage é actual e provavelmente um dos grandes autores de culto da fotografia, por culto entenda-se pouco conhecido fora do meio fotográfico e sobre o qual recaiem as atenções (do meio) de cada vez que lança um novo trabalho seu, ou desenhado por si. Os livros que produz são de um modo geral construídos a partir de layers nem sempre óbvios, de uma complexidade formal e conceptual estudada, sendo cuidadosamente desenhados e editados. Talvez uma fotografia que primeiro se estranha, mas que depois se entranha, de um autor que merece maior (re)conhecimento.

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