#4 … no país da fotografia

Virgílio Ferreira, “Peregrinos do Quotidiano“, no Centro Português de Fotografia-Porto

©Virgilio Ferreira
©Virgílio Ferreira

Das palavras do autor “Este Projecto foi desenvolvido em 2006 em algumas cidades asiáticas, Banguecoque, Macau, Hong Kong, Pequim, Xangai e Tóquio.(…)é entre linhas que procuro as ambiguidades e contradições.(…) De uma forma intuitiva e aleatória caminho pelas ruas, sou atraído por luzes, cores, cenários, pessoas anónimas que se cruzam comigo e que convido a posar. Os retratos são realizados muito rapidamente mas, de uma forma rigorosa e selectiva, procuro relacionar a pessoa com o fundo. Como o foque e o desfoque criam tensão, os rostos desfocados transformam-se em máscaras fugidias; esse deficit de informação conquista a atenção do observador e atribui maior protagonismo, mas também enigma ao retratado, – o anonimato é sempre intrigante. As imagens sem gente contextualizam e criam diálogo com os retratos, são atmosferas emotivas, jogos de descodificação. As fotografias sugerem inquietação e, com isso, poderão provocar um confronto perante o que entendo como um certo estado de amnésia de uma sociedade carregada de estereótipos, alienada de uma rede social. Essencialmente colocam questões à sobrecomplexidade em que vivemos, remetendo, por vezes, para uma posição reflexiva em relação ao outro e ao próprio sujeito. Sem recorrer a qualquer manipulação digital o trabalho foi realizado em médio formato com uso de color reversal film.

Da sinopse de Maria do Carmo Serén “(…) O objectivo declarado liga-se com essa figura da Sociologia que lhe dá o título: o universo que se adivinha nos gestos e actividades dos habitantes urbanos do mundo em rede mediática. Tudo nos surge numa perspectiva fotográfica muito actual, exuberância de cor em imagens directas, sem trabalho digital, debitando as alegorias contemporâneas do olhar fotográfico, como o desfocado, a sobre-exposição e os timings dessa mesma exposição, o objecto fotográfico fragmentário e ocultado, os contrastes entre a nitidez do fundo ou do primeiro plano e, acima de tudo, a composição que procura representar o que fica no olhar errante. Trata-se, pois, de um trabalho de autor que tem o mérito de deixar uma forte impressão sobre essas duas realidades coincidentes: a globalização patente no vasto continente asiático, (cidades pós-modernas, preenchidas pela informação) e a emergência multicultural de características orientais que não deixam perder o espírito da festa e da fundação: a ornamentação, um certo excesso da cor, a profusão do dourado, um ou outro traço cultural. E, naturalmente, a solidão que matiza as metrópoles da contemporaneidade, mais nítida ainda porque temos de a identificar num rosto na penumbra, no alheamento dos gestos, sem velhas estratégias de abandono e melancolia.

Torna-se difícil acrescentar valia crítica quando o autor e a comissária da exposição já convocam linhas suficientes de reflexão e apreciação da imagem, no caso de Maria do Carmo Serén, sempre exemplar no modo como “ilustra” a fotografia, com textos carregados de sensibilidade e saber. Este registo fotográfico foi amável comigo, uma estética cheia de “rasteiras” visuais, desfocada, sub ou sobreexposta, de composição reveladora, cheia de poesia e encanto. Aliado a uma estética que me agradou – mas que certamente vai deixar muita gente a torcer o nariz – o tratamento do tema torna-se intelígivel e coerente à medida que se avança pela exposição. A narrativa embora deixe a entender pelo título a associação ao religioso, dificílmente convoca imagens que o deixem transparecer, embora se possa associar Oriente a espiritualidade, a menos que se veja o anonimato dos rostos desfocados como um traço de budismo, filosofia espiritual na qual os conceitos de vacuidade do Eu, a desidentificação com o ego-imagem-rosto, tem lugar cimeiro.

Ainda que o fotógrafo deixe vincada a não manipulação a nível digital, a escolha da técnica de iluminação e do filme escolhido nada fica ao dever ao “manipular”, se é que me faço entender. Aliás parecendo ser uma “fotografia de rua” não já ao jeito cartier-bresson do “momento decisivo” – o cidadão é convidado a posar, a luz é altamente elaborada, possívelmente até com uso de algum kit de iluminação, e isso, também são formas de “manipulação”, ou talvez mais eufemisticamente, encenação. Optar por esta afirmação, deixa subentender não apenas uma declaração neutra, mas um posicionamento perante a “manipulação digital”, embora isso não seja de todo claro, no entanto a leitura da fotografia aparece fortemente influenciada pelo uso do desfoque e da iluminação que usa. Por outro lado, a impressão foi feita em jacto de tinta, o que provavelmente poderá revelar algum tipo de tratamento digital nomeadamente a scanização dos negativos, processo que só por si é “manipulação” digital. Se existe valorização no mercado para este tipo de fotografia “não manipulada” é algo que desconheço, embora saiba que alguns coleccionadores privilegiam a aquisição da prova de contacto do grande formato, processo talvez mais próximo do conceito de “isenção” no tratamento. Mas não creio que seja dessa fotografia que se trata aqui, a mesma deseja exibir um plano de idéias, esse plano não parece neutro, se se entender por neutralidade também a ausência de manipulação. Por outro lado, é possível que, e aqui entro em águas turvas, seja exigível a esta fotografia a demarcação do cliché piroso que se viu ampliado no mundo da fotografia desde que o digital se popularizou, com o uso e abuso de toda a espécie de filtros e efeitos, todavia esse fenómeno já acontecia no tempo do filme. Uma fotografia que se auto-sustenta e faz bom uso das diversas estratégias e técnicas fotográficas contemporâneas, como parece ser esta, poderia dispensar a demarcação populista, e quem sabe se o estético de hoje não é o piroso de amanhã. Por outro lado creio que a manipulação digital tem servido a alguns autores para a criação de originalidade e marca autoral, conceitos que embora sejam presentemente abanados, não estão de todo ausentes do processo de mercado, e que por outro lado são apanágio de todas as estéticas fotográficas, quase todas elas “manipuladas” de uma maneira ou de outra. Os textos de suporte ao fotográfico são de tal modo importantes hoje em dia, que por vezes parecem ultrapassar o domínio da ajuda á inteligibilidade da exposição, desviando a atenção da fotografia para o autor. De qualquer modo, um excelente trabalho, diverso do tradicional registo preto e branco da fotografia “humanista”, embora assumindo linhas que lhe são devedoras, num modo “reportagem/ensaio” artístico, pleno de contemporaneidade, que nos convida a olhar para além do primeiro plano.

Aditamento [12.Nov.2008]: O autor submeteu o seu trabalho (não sei se foi este “Peregrinos do Quotidiano” que fui ver) ao “Critical Mass”,  e o portfolio foi um dos escolhidos para passar à próxima fase, mais info em http://photolucidapdx.blogspot.com/2008/10/theyre-here-theyre-here-2008-critical.html.

Estava presente uma outra exposição no CPF, De um Chão Nosso“, e transcrevo textualmente documento produzido a partir de uma reportagem fotográfica realizada durante o ano de 2007, toma a forma de umas bases fotográficas para um Inquérito, um inquérito regional, através das quais se possibilita o entendimento da realidade construída de um conjunto abrangente de aldeias que, dispersas no território duriense, formam entre si uma rede com significado, sentido e conteúdo identitário“, sendo que apenas nesta introdução, já temos um tratamento da lingua portuguesa (ver negrito meu) digno de reflexão, quiçá um vislumbre do que se veria adiante. Fotografias a cargo de Mário João Mesquita e Sónia Pinto Basto, se qualquer deles mantém ambições fotográficas no domínio do documental ou até do paisagistico, tal não transparece nas imagens, de uma pobreza estética confrangedora, mal tratadas, mal impressas, de uma incompetência gritante. Poder-se-ia em abono afirmar que apesar da estética, o tema tinha sido tratado de forma coerente, mas sou totalmente ignorante sobre as identidades patrimoniais do Douro, é verdade que tinha uma boa oportunidade para deixar de o ser, mas ver a fotografia tratada desta maneira, desinteressa-me do tema de imediato, será certamente um problema meu. É possível que o Centro Português de Fotografia não tenha sido criado como local exclusivo à fotografia de excelência, mas dá vontade de perguntar quem foi o crâneo responsável por este atentado ao registo documental, porque nesta “desgraça”, ninguém “ficou bem na fotografia”.

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