#5 … no país da fotografia

Ida a Tomar, supresa! Criação de um centro de arte e imagem do Inst. Politécnico de Tomar, que tem uma licenciatura em Fotografia, já vai para alguns anos. Exposiçao Inaugural de José Luis Neto (premiado BESPhoto 2006) com PMC/P.M.I. Passport. Anunciada como estando aberta ao sábado de todo o dia (à tarde, das 14 às 19), não me foi possível pela manhã, pelo que a seguir ao almoço lá fui eu todo lampeiro. Pelo arrastar desta prosa já devem calcular o que aconteceu, exposição fechada, zero avisos, nada, algo inaugurado dois 2 antes… Enfim, ainda assim uma grande alegria sendo eu natural da Nabância, ainda que me veja obrigado a voltar lá antes de 22 de Novembro, data do encerramento da exposição.

Adenda [16.Nov.2008]: Ontem voltei à exposição, fui lembrado de que no dia em que fora, era feriado de Todos os Santos, logo estava fechada. Concedo, metade para mim metade para eles, no horário afixado não constava o encerramento aos feriados.

Mariana Alves, série Evan Parker, Drawn Inward
Mariana Alves, série Evan Parker, Drawn Inward

Rumei ao Seixaljazz, associado ao cartaz, uma boa surpresa e outra menos boa, começo pela melhor, “Mood Indigo“, de Mariana Alves, exposição de pintura que visou apresentar o Jazz através de representações visuais do som. O desenho exposto é da série que mais olhei, que embora seja capa do catálogo, não corresponde ao título da exposição “Mood Indigo“, obra de Duke Ellington. Esta produção foi feita no local, a artista desenhou escutando os respectivos discos. Reflectindo sobre a parte desta obra que mais gostei, a mesma talvez esteja também colorida pelo mecanismo de espanto, encanto e atracção que foi a descoberta do Evan Parker Electro-Acoustic Ensemble, através de Towards the Margins (1997), Drawn Inward (1999), Memory Vision (2003), Eleventh Hour (2004). Embora cotada como Jazz, esta é uma estética que vai muito para além disso, aliás ao ouvido comum facilmente chega a pergunta, mas isto é Jazz? O que é não interessa, só posso dizer que foi das músicas que mais me maravilhou nos últimos anos (e continua), Evan Parker talvez possa ser desconhecido do grande público do jazz, mas tem uma autêntica legião de fãs no mundo da música improvisada, aclamado como um dos grandes inovadores ainda vivos, a par de Cecil Taylor, Peter Brotzmann e talvez Ornette Coleman, este último esta semana na Aula Magna (5Nov) e no Coliseu do Porto (7Nov), a apresentar esse bom disco que é Sound Grammar, a não perder para quem gosta de jazz “à homem” (ainda sou acusado de machismo musical)… Aí embaixo uma foto (fraquita) do músico (à esquerda) na Glubenkian, reparem na expressão de ambos em face da notação musical que se pode ver na pauta, este concerto fez esfriar muito lugar nesse noite… O desagradável no Seixal, foi ver a exposição de fotografia evocativa a Eric Dolphy tão mal tratada, mal impressa, ampliada a ficar no pixel, sem qualquer jeito.

evan parker à esquerda, mats gustafsson, à direita

Domingo foi dia de Museu de Electricidade, em Alcântara, nunca lá tinha estado e a viagem revelou-se autêntica surpresa, tanto que me senti com uma alegria infantil, contagiante, querendo saber tudo, mexer, divertir-me como os miúdos que por lá andavam. Uma autêntica beleza este restauro, uma mais-valia para o turismo e cultura lisboeta, num local cheio de atractivos para miúdos e graúdos, simplesmente encantador. Nele figura também uma exposição (permanente segundo creio) de vários períodos do seu funcionamento, com especial incidência na década de 40, em que pontuam algumas (muito) bonitas fotos de Kurt Pinto, numa estética documentalista com traços de semelhança com o que de melhor se produz hoje. A visitar sem demora, levando filhos, sobrinhos, ou apenas a criança que há dentro de cada um.

foto, Kurt Pinho, 1940
fotografia de Kurt Pinto, 1940

O museu está também predisposto para outras mostras artísticas, como se sabe a EDP através da sua fundação tem vindo a apadrinhar novos talentos. Numa galeria está presente uma exposição de Pedro Gomes, das palavras de João Pinharanda lê-se “Pedro Gomes, une, em choque, digital e manual. E, na mesma operação, questiona o Desenho como disciplina. A Forma é um guião cifrado que se esconde na face oculta da obra, onde o desenho linear se inscreve; e que se revela pela técnica de minúsculas perfurações. A imagem final aproxima-nos (através de uma verdadeira negação irónica) da pixelização das imagens digitais que dominam a actualidade. Também a Cor não tem finalidade descritiva mas sim um fim evocativo: a nostalgia do cinzento, enunciada nas irrelevantes imagens de um quotidiano em fuga; o amarelo e o branco como pontos de uma energia que transcende a máquina e contamina a nossa vontade criativa. Somos assim conduzidos à consideração destas obras como verdadeiros “desenhos úteis.”

Quanto à parte fotográfica, ela estava inserida na Exposição internacional de Design Ecológico, “Remade In Portugal“, com dois video slideshows, “Terra Nova” de Alberto Plácido (a foto original não é tremida, foi apenas a minha deficiente captação)

©Alberto Plácido
©Alberto Plácido

cuja série apresentava fotos nocturnas tiradas em aterros sanitários, deixando transparecer uma paisagem sem humanos, quase de outro planeta (Marte talvez, devido ao vermelho…) alegoria perfeitamente conseguida face ao corrente estado do ambiental, na nossa querida nave mãe Gaia. Ambas as exposições estavam deficientemente apresentadas, com problemas de resolução do ecrã, conduzindo a um exercício bastante desconfortável de visualização, quiçá desvalorizando o potencial não só da imagem, como da mensagem que aquela carrega. As “Trashformações” de Rita Burmester, parecem conduzir a uma nova identidade do lixo,

©Rita Burmester
©Rita Burmester

mas estas fotos não mexeram comigo, nem no plano estético, nem no plano conceptual. Não creio que baste associar a idéia de “Identidade” ao lixo, ou do lixo, para que saia de imediato um trabalho de grande valia artística.  As palavrosas idéias não são tudo na fotografia, e alguma da foto contemporânea parece apenas viver do apoio das palavras, não da riqueza estética ou conceptual. A temática “ecologia” no fotográfico já ganhou uma dimensão considerável, como se pode perceber pela atribuição anual do Prix Pictet, pelo que é provavél que se venha a assistir a uma explosão deste tipo de dcoumental, inevitavelmente com trabalhos de grande calibre e outros que nem por isso.

A restante exposição tem algumas peças de designers nacionais e estrangeiros, alguns workshops temáticos, enfim vale a pena dar uma olhada, até 15 de Novembro.

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Comments:

edufon
November 4, 2008

Excelente seu blog. Vou seguí-lo para continuar lendo suas reflexões sobre fotografias. Parabéns! Eduardo

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