#7 a minha casinha

A minha casinha tem sido no último par de meses, também a da obra de Olivier Messiaen, compositor, professor e ornitólogo, de quem se tem vindo a comemorar o 100º aniversário do nascimento, com a data a ocorrer precisamente ontem, 10 de Dezembro. Devo confessar que apenas este ano descobri mais a fundo a obra deste autor, que tem momentos absolutamente extraordinários. Um deles é Quatuor por la fin du temps, ontem interpretado no CCB pelo Schostakovich Ensemble (Pascale Moraguès, clarinete, Priya Mitchell, violino, Pavel Gomziakov, violoncelo, Filipe Pinto-Ribeiro, piano), com leitura de poemas de Nelly Sachs por Beatriz Batarda e espaço cénico de Paulo Nozolino, que como se pode ver, alargou as fronteiras do seu magnífico trabalho como fotógrafo para os limites da cenografia, o que só por isso já constítuia um estimulo adicional à ida. Esta obra de Messiaen tem uma história algo trágica, sem dúvida elucidativa da vastidão da alma e do humano, que Pedro Mexia nos fez o favor de elucidar aqui, e de onde retiro este pequeno excerto, no qual se explana o modo absolutamente inesperado e maravilhoso do acrescentar de mais um dia à Criação “Messiaen explicou que o quarteto tinha oito movimentos porque Deus fez o mundo em seis dias e descansou ao sétimo; o oitavo dia
representava então a eternidade, marcada pela aparição de um anjo que declara o fim do tempo
“.

O espectáculo abriu e encerrou com a declamação de poesia pela actriz Beatriz Batarda, onde se ouviu pouco à vontade na lingua portuguesa, impreparo dos textos, emoção engasgada, a pontos de uma senhora ao lado comentar (em voz pouco baixa) um “não fiquei convencida”. Desvelou-se também uma faceta pouco conhecida de Paulo Nozolino, a de cenógrafo, apresentando uma instalação que consistia num imenso ecrã por detrás do quarteto, no qual se foi revelando com o andamento do concerto, um tríptico com rostos de 3 homens, provavelmente prisioneiros – à semelhança de Messiaen quando compôs a obra – 2 deles cortados a meio e apenas o rosto central em plano total, numa fotografia típica de prisioneiro. Sem dúvida uma analogia feliz, a prisão corta os homens ao meio mas ainda assim permanece neles uma luz e uma integridade, uma vez mais à semelhança com o compositor, que ainda que partido pela prisão nazi onde se encontrava, foi capaz de erigir (e até tocar para os seus captores) esta magnífica obra. O ecrã começa totalmente escuro e vai revelando essas fotografias até ao seu desaparecer total na imensa luz branca, final feliz e simbólico do retorno à luz eterna, também ele procurado por esta música religiosa.

Dois momentos de grande beleza, sensibilidade e mistério, foram o 5º andamento, Louange à l’Eternité de Jésus (Jesus-Palavra, no princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus e a Palavra era Deus) e o 8º e final, Louange à l’Imortalité de Jésus (a Palavra feita carne, Jesus-Homem, ressuscitado imortal) que ajudam a meditar no sentido desta obra dedicada ao eterno, que quanto mais não fosse, se me impunha também pela atenção a essa figura central e soberana que é Jesus Cristo, na sua faceta unificadora do bem e do mal, transcendendo a ambos pelo sacrifício e ascensão, desse modo sinalizando para o humano a possibilidade de um percurso de eternidade metafísica, em que poucos ainda hoje se atrevem sequer a acreditar. Messiaen, sem beliscar a religião católica a que pertencia, apresenta contudo aqui um quadro musical que vai muito para além da hipótese de dor, de perda, de materialidade, das trevas, ao invés a cada momento sublinhando os aspectos harmoniosos do silêncio e da luz/côr, numa ditosa emissão de vibrações de paz, sabedoria e amor.

Namaste, Olivier Messiaen.

PS – Nos próximos dias existem vários concertos de celebração deste aniversário, quem quiser saber mais pode visitar aqui, aqui e aqui.

PS2 [2008.12.15] Passados uns dias deste artigo, Augusto M Seabra publicou hoje a crónica ao concerto desta mesma obra, todavia tocado na Glubenkian no dia 1 de Dezembro por outros músicos. Vale a pena ler, aguardo com expectativa a recensão também deste concerto no CCB. Note-se que não sou crítico de música (nem de nada), apenas amante com sentido crítico, pelo que não há comparação entre o que escrevi e o imenso conhecimento que esse conhecido crítico denota.

PS3 [200.12.16] Hoje sim, publicada a nota sobre este concerto no CCB.

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Comments:

teresa
December 11, 2008

qdo li o anúncio deste espectáculo, fiquei curiosa e obviamente c vontade de o "ouver", quer pela qualidade da música, quer pela multidisciplinariedade de artes nele contida e hoje tu és ponte verbal da sua expressão, ainda bem q o fruiste e q a tua casinha o retem... E esta foto/"pintura", ... de onde e de quem provém?

Joao Henriques
December 11, 2008

Todas as fotos do site são minhas, è excepção dos artigos de fotógrafos devidamente mencionados. Esta foi tirada recentemente em Lisboa.

teresa
December 11, 2008

Congratulations, then, Mr João! Uma fotografia que nos entrega à pintura Very interesting work

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