#7 … no país da fotografia

“PMC/ P.M.I. Passport“, José Luis Neto

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Na Galeria IPT, em Tomar, mais uma volta pelo país da fotografia, desta feita na sua faceta “arte contemporânea”. A escolha deste artista – premiado Besphoto em 2005 – para a primeira exposição desta nova galeria do Instituto Politécnico local (que oferece uma licenciatura em Fotografia) é algo que me convoca alguma reflexão. Algumas páginas atrás, bati no excessivo protagonismo daquilo que me parece ser uma corrente de utilização estratégica da fotografia, ligada a um academismo formalista, pouco inovador, mais preocupado com normas e métodos. Parece-me que este autor está de certo modo ligado a essa corrente, mas, e desconheço ainda porquê mas tentarei encontrar-me, neste projecto não se me oferece a mesma vontade de violência. Seja porque sou natural de Tomar e estou naturalmente satisfeito por lá ver a fotografia singrar, ou porque coloco em causa os meus handicaps, provavelmente ligados a uma visão da fotografia de pendor humanista, ou vanguardista, ou demasiado Magnumnizado que foi o meu cérebro, pela presença contínua de autores na cabeceira do leito. Ou então, simplesmente simpatizo com alguns projectos de José Luis Neto, como foi o caso deste. Diga-se, em abono da verdade, que em termos de fotografia no seu molde “tradicional” não há ali nada para ver, mas em abundância parece haver o questionamento sobre o modo como se vê.

Uma certa tendência despolitizada ou melhor dizendo menos partidarizada, porque a política até é interessante, sobretudo se não tiver partidos, mas dizia eu, uma abordagem mais fenomenológica, questionando o experiencial, embora não pareça ser uma marca muito vincada neste autor, ou pelo menos neste projecto, dela se podem vislumbrar alguns traços. Do que se lê no blog da galeriaiptestas imagens são então utilizadas como base para um trabalho que vai interrogar a natureza e os limites do fotográfico, da representação e da autoria“, inferimos a parte da desconstrução do medium, enfim, todas as artes necessitam dos seus falsos dramas do tobias ou não tobias, mas descambo. Evidentemente que não se trata apenas disso, a mutabilidade é o que abre caminho aos novos processos, aos novos ciclos de criação-manutenção-destruição, mas ver toda a gente a fazer do mesmo, já é algo assim estranho. Este trabalho pode não ter fotografia, mas tem idéias interessantes através da mesma, as quais são apresentadas em paralelo com o processo do questionamento do meio em si, se o mesmo serve a identidade do estudo proposto, é uma questão a reflectir. Em torno de alguma comunidade fotográfica contínua o debate sobre se “é isto fotografia”, a resposta parece ser a de que sim, também é, embora noutros moldes que importa também entender, de modo a que o percurso do “fotográfico” se vá tornando perceptível e transmutando em novas abordagens.

A imagem falhada, o apagar da identidade em favor da identificação, entre outros dados deste trabalho, são factores interessante quando analisadas do ponto de vista da divergente distância entre o Eu real e o Eu imaginado, que conduz à neurose colectiva contemporânea, com frisa a psicologia. No entanto, em que medida é que esta arte contribuí – se é que tem que o fazer – para que entre o humano possa emergir a empatia, a compreensão e a congruência, é resposta que provavelmente daqui não virá. Não se estando em presença de uma exposição que sob alguns critérios (será que servem aqui??) se possa considerar conseguida, vemos contudo um artista que tem preserverado na afirmação da sua linguagem (ver Continuum, 22474, 22475 Anónimo, projecto 7 Maravilhas), num obra que procura levantar questões importantes, se depois a um nível mais plástico as mesmas tem conteúdo isso parece não ter tanta importância no esgrimir destas propostas. Convém no entanto referir que esta atitude da convergência entre os trabalhos ao nível da coerência da linguagem utilizada, da temática conceptual – nalguns casos apenas uma espécie de mais do mesmo – são valores bem cotados na bolsa da arte contemporânea, pelo que esta exposição terá que ser vista também sob esse prisma. A este respeito certamente não será indiferente nem inocente a escolha deste autor (embora talvez nem lhe interesse representar essa via) para primeira exposição, da galeria de uma escola de fotografia, afinal de contas, há rankings, há prestígio, há competitividade, há status e toda essa tralha que convém ensinar aos alunos/artistas, se querem ter sucesso no mundo da arte contemporânea, mas como diz Manoel de Oliveira, “um tem a escola, outro a espontaneidade, o que eu gosto mais é da espontaneidade“.

“De Corpo e Alma”, vários autores

Em seguida fui até ao magnífico Convento de Cristo, ultimamente tenho sido visita regular mas confesso não perceber ainda bem porquê, embora possa pensar nalgumas pistas. Numa sessão de desenvolvimento pessoal vi-me (e todos os presentes) confrontado por um potente medium com uma parte daquilo que seria a minha história anterior, o qual me falou brevemente sobre a ligação que (supostamente) eu tivera aos Templários e note-se a bem da credibilidade, que desconhecia em absoluto o facto de eu ter nascido em Tomar. Suponho que possa vir daí o crescente interesse que tenho pelo local, que cada vez mais vai revelando ao público novas áreas restauradas, onde desta vez descobri uma ala apelidada de “Noviciado“, com uma fantástica sala, decifrada pelos entendidos como uma obra prima do Renascimento. Ando-me a confrontar com a minha própria história, talvez sem o saber.

acosta
Autor: acosta

Fui então visitar a exposição “De Corpo e Alma“, tema que dá mote à “III Bienal Porto Santo“, uma exposição de arte contemporânea patente no Convento de Cristo, que reúne trabalhos de cerâmica, desenho, escultura, fotografia, instalação, joalharia, pintura e vídeo. A fotografia está representada pela “Secção de Fotografia da AAC com a mais recente proposta fotográfica, contextualizada no ambiente e características do espaço arquitectónico que acolhe a exposição.” Nesta mostra fotográfica estão patentes vários artistas, mas duas delas tem nomes que desconheço serem a mesma Patrícia Almeida daqui e daqui e Joana Vasconcelos, daqui, mas estou em crer que se trata de mera coincidência de nomes, pois em nenhum dos casos reconheci as autoras, but… Uma fantástica caixa de luz (este mecanismo impressiona-me sempre) de acosta e uma montagem de Mauro Almeida foram as boas notas nesta secção “Académica de Coimbra”, cujo pendor é claramente amador, talvez à semelhança da equipa de futebol, mas nada contra o amadorismo, aliás só a favor, é tudo “fotográfico”.

Mauro Almeida
Autor: Mauro Almeida

Embora estivesse presente mais alguma (pouca) fotografia nesta mostra, a parte da AAC estava concentrada apenas numa sala. Desta mostra colectiva de fotografia pode-se dizer que de um modo geral a selecção estava inteligível face ao tema proposto do “corpo e alma”, embora fora desta secção estivesse um fotógrafo cujo nome não recordo, que apresentou apenas uma fotografia, de um rebanho de cabras… Do restante trabalho posso dizer que gostei tremendamente da obra de uma autora para mim desconhecida, Salomé Nascimento, uma espécie de pintura em pele ou a fazer lembrar pele, profundamente hipnótica e que só por si me valeu a exposição toda. Após passagem pelo trabalho que tem online, aqui e aqui, só confirmei a excelência do mesmo.

Uma bela excursão à minha terrinha, até parece que o Pai Natal das artes, por lá chegou mais cedo este ano.

Da Vinha ao Vinho, de Nanã Sousa Dias

Da minha outra terrinha, aquela onde vivo actualmente, na galeria da câmara municipal de Torres Vedras está este trabalho, de um autor que fez a sua afirmação fotográfica já tardiamente e que era (é) conhecido como músico de jazz. Fazendo valer o ditado, de que mais vale tarde que nunca, desenhou-se uma ascensão na sua afirmação estética que encontrou algum eco a nível nacional e internacional, sobretudo no domínio da fotografia de paisagem. A fama foi grangeada através da utilização apurada da técnica de Ansel Adams conhecida pelo sistema de zonas, em conjunto pela preferência dada ao retrato paisagistico, em preto e branco, utilizando máquinas de médio e grande formato. Nesse domínio viu-se competência técnica, nalgumas fotografias da costa portuguesa com bom recorte estético, mas quando confrontado com pessoas ou paisagem urbana já o tratamento dado por este autor, parecia ainda andar á procura de uma expressão mais coerente. Que revelaria este trabalho, quiçá exigente, de uma linguagem que não parecia ser a sua, a do registo documental mais etnográfico.

É sempre um prazer entrar numa sala repleta de fotografia a preto e branco, para mais impressa em papel baritado. Do percurso pelas fotos expostas, pode-se ler a utilização feita pelo autor de 5 formatos diferentes de câmeras fotográficas, desde o 35 mm, passando pelo médio, até ao grande formato, cujos reflexos são evidentes numa panóplia de tamanhos das fotografias apresentadas, tendo sido utilizados também 5 tipos de rolos PB diferentes. Nalguns casos, parece não ser claramente visível o que é que a alteração no formato pode acrescentar ao tratamento do tema, utilizando-se indiscriminadamente o 35 mm para fazer paisagem e o médio formato para reportagem, numa mescla técnica algo complicada de masterizar. Num autor a quem ouvi afirmar não gostar do formato quadrado por ser muito difícil de compôr, curiosamente algumas boas fotos desta exposição são nesse formato, quiçá, terá aletarado a sua opinião. Por outro lado pergunta-se como alguém que é conhecido pela exigência técnica nos seus trabalhos e difunde o sistema de zonas como “imagem de marca”, se permite expôr fotos com zonas queimadas ao nível das altas luzes, com quase todas as fotos demasiado escuras nas zonas médias e sombras?

Num trabalho complexo como poderá ser este, é tentador afirmar que se faria assim ou assado, aliás contaram-me uma história interessante a esse respeito, acerca de dois autores, ambos convidados para determinado projecto fotográfico. Quando o segundo deu uma vista de olhos pelo material do primeiro e viu que lhe faltava uma parte da temática que justamente o primeiro tinha feito, voltou apressadamente ao local e bateu a sua chapa, inspirado no trabalho do outro. Posteriormente foi mostrar essa fotografia – onde supostamente fez melhor – ao outro fotógrafo com a frase “tás a ver pá, assim é que devias ter feito”… Ainda assim, há que analisar até onde for possível, sem caír nessa tentação do “como faria eu”. Desta mostra, algumas linhas da mesma parecem um pouco repetitivas, num exemplo, apresentam-se 6 fotos consecutivas a fotografar uma cuba em aço inox, motivo gráfico que pelos vistos animou o autor a apresentar 6 variações ao tema, o mesmo voltando a suceder com a “paisagem vinha” e aí terei contado mais que 6, embora quase todas com tomadas de vista muito próximas, num registo excessivo, aliás esta mostra peca por isso, fotos a mais, poder-se-ia ter guardado todos estes planos para o livro – se houvesse insistência nisso pois alguns parecem redundantes – fazendo-se a exposição apenas com o best of, poupava-se em dinheiro, todos ganhavam. Matuto para encontrar pontos fortes e comparando com outras coisas que vi sobre o vinho, até de artistas locais como Daniel Abreu e João Paulo Barrinha, não consigo ver em que ponto é que a escolha deste autor foi uma proposta de valor acrescentado para a idéia “da vinha ao vinho“.

O registo documental etnográfico assumiu uma densidade notável nos últimos anos, o fotógrafo tem que se preparar muito para além das suas noções préconcebidas acerca do tema que vai fotografar, se o quiser retratar de forma coerente. O que transpira desta exposição é alguma falta de idéias, compensada com múltiplas tomadas de vista sobre o mesmo sujeito, variando apenas os angulos de abordagem, as câmaras e os filmes usados, etc. Se ainda assim, em face dessas escolhas, estivéssemos em presença de trabalho pleno de estética, de pictórico, de variedade, de composições interessantes, então poderíamos dizer que apesar de tudo, se tinha obtido um bom trabalho, assim obteve-se, não de todo um mau trabalho, mas apenas mediano.

Este tipo de encomendas contém algumas desvirtudes a analisar, a pessoa que escolhe o fotógrafo tem noção de que tipo de fotografia se trata, a fim de poder escolher alguém que entregue um bom trabalho, ou será que o critério é esse e se não é  baseia-se em quê? Na amizade? No currículo do fotógrafo? No facto de ser da praça? Qualquer um destes fins é legítimo políticamente ainda que discutível, atente-se nas palavras do presidente da edilidade, “este livro nasce da necessidade sentida por todos aqueles que, de uma forma ou outra, estão ligados à vitivinicultura no Concelho de Torres Vedras e que, sempre que necessitam de mostrar ou promover o seu trabalho e os seus produtos, não possuem uma ferramenta que bem ilustre essa realidade, esse mundo.” Entre outros critérios possíveis, pelos vistos figurava também o de arranjar um catálogo promocional (a pagar pelo Estado) de um produto que é privado, aliás diga-se em abono que o design do livro, parece ser coerente com essa estratégia, sendo menos um livro de fotografia artística e mais uma ode ao vinho, com manchas de vinho, lettering em grená, poesia “Bacólica”, etc. Numa variação ao que afirmei, se que de facto quem fez a encomenda sabia da “poda”, pode-se ler mais adiante “com as suas vestes tão depressa verdes como grenás ou amarelas“, mas não era de exposição a preto e branco que se tratava? Esta dinâmica acerca do “quem”, já esteve presente na escolha de Eduardo Gageiro para o projecto sobre Torres Vedras, “Viagem ao Centro Histórico”, do ponto de vista fotográfico, artístico ou documental, um autêntico fiasco, a fazer lembrar o Nick Knight e a célebre e dispendiosa campanha Portugal West Coast. A questão não é a boa vontade para com o gesto artístico, aliás nesse aspecto, a edilidade torreense tem sido pródiga a apoiar a fotografia, é sobretudo, para além da competência e capacidade técnica do artista, se está o mesmo “comprometido” com o tema, se lhe interessa, se o apaixona, se o retratará de forma consistente.

Numa outra dinâmica, talvez esta ainda mais delicada, tem o fotógrafo a noção de que pode desempenhar bem o que lhe é pedido? Aqui cruzam-se sempre os dados financeiros, está o mesmo em posição de recusar uma oferta que lhe pode ser vantajosa não só financeira como promocionalmente? Se me vierem dizer que foi trabalho de borla  e que só se pagou aos custos, então será que o trabalho foi feito com toda a dedicação que lhe era devido, apenas porque foi feito pro bono? Questiono-me sempre até que ponto é a “encomenda” boa para o fotógrafo. Provavelmente estou a falar de um segmento de fotógrafos que se servem da exposição que tem numa dada área para abarcar negócio noutras áreas, que não sendo as suas facetas mais fortes, naturalmente propiciam entrada em caixa, afinal de contas, há que chegar ao fim do mês, mas qual é o preço dessa estratégia, é o que seria interessante conhecer.

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