#9 a minha casinha

lxreader

O artigo podia chamar-se “a fita do Óscar”, mas o trocadilho estéril, facilmente induziria a quem passa a possibilidade de leitura acerca da melhor estatueta, quando apenas é faladura, sobre um ou outro filme da estação premiável. Vi O Leitor, lido o filme, que gira em torno (da necessidade) do julgamento, acabei meditando nas questões da lei e da moral, pilares da sociedade ou ervas daninhas? Doutro ângulo, a necessidade que temos de julgar e explicar, que nos parece col0car (in)cómodamente do lado do bem ou do mal. Se um não existe sem o outro, a erradicação de um poderia significar a erradicação do outro, talvez indo além de ambos, já preconizara Nietzsche.  É um exercício complexo esse de não julgar, sobretudo quando abundam as referências para o fazer, nessa autêntica prateleira de supermercado que é a consciência colectiva, a abarrotar de preconceitos, dogmas, mitos, ideologias, mentiras, num pronto a consumir acéfalo, geralmente servido nesse prato porta-logótipos, inútil e imbecil, em que se transformou a grande maioria dos media contemporâneos.

Quem como eu não leu o livro, acaba por não se aperceber da rasteira induzida pela adaptação do argumento, lêde isto n’ A Natureza do MalE dentro da enormidade da culpa, a insinuação de uma vergonha maior, que escorre pelo livro e é, no início, a culpa do rapaz por ter elidido Hanna Schmitt, a mulher mais velha, primeiro junto da família e depois, num momento capital. Nesse momento, que por razões inexplicáveis o filme não mostra, Hanna surge sem ser esperada na piscina fluvial e o rapaz, questionado pelo grupo de amigos, finge não a conhecer. Ele julgará que foi a sua cobardia que motivou o desaparecimento de Hanna e o espectador de O Leitor fica sem chaves para a culpa que Michael Berg arrasta consigo até reencontrar Hanna Shmitt na barra do Tribunal“. Esse artifício, cujo fim não se vislumbra claramente, que caso tivesse sido evitado, teria apenas um efeito, o de apaziguar a necessidade de encontrar explicações para a dor que não se compreende e se julga poder, através da suposta compreensão, ajudar a sarar. Seguindo os passos de uma terapia bem sucedida, na qual sem o processo de aceitação e integração, não existe dor curada, amiúde o processo de compreensão, sobretudo quando não acompanhada da empatia,  poderá até ser dispensável, sendo a prescrição mais do domínio do perdão, caminho esse percorrido tardia e equivocamente no filme.  Aliás como na vida, em que o mais importante acto interior deveria ser o de perdoar, mesmo sem passar pelo julgar ou compreender, e em que se acaba por perder demasiado tempo com o (pseudo)compreender, sem dúvida para poder inocentar ou culpar, arrastando dor e sofrimento para todos os envolvidos. Mesmo no claramente punível (no social), o suposto acto de compreender acaba por tomar tantas formas, pontos de vista, opiniões, etc, que a punição acaba por se espalhar em direcções insidiosas, quantas vezes abatendo-se sobre todos, menos sobre o que efectivamente deveria ser punido, resultando numa sociedade que não chega a termos, nem sobre a punição nem sobre o perdão, tal como parece acontecer neste filme.

Milk é o filme. Liberdade para se ser quem se é, um ser não eludido pelo arrumado consciente colectivo, onde pontuam os iluminados sermões dominicais, os limpos e imaculados lençóis conjugais, os fortes e inquebrantáveis laços pátrios, essa tríade igreja-pátria-família, cuja construção parece assentar em modelos de sustentada  hipocrisia-cobardia-irresponsabilidade. Só não estamos numa sociedade doente porque um pequeno número de células continua a lutar pela vida, pela afirmação, pela responsabilidade, pela diferença, pelo não julgamento. Os Milks desse mundo são o exemplo da afirmação – acto e palavra – maior de que um homem pode ser capaz, eu sou o que sou, desse modo erguendo-se responsável, individuado e cosmocêntrico, perante um colectivo coxamente infantilizado no eucêntrico e/ou etnocêntrico, no qual e apesar deste filme, os gays não são excepção.

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