#9 … no país da fotografia

©2008 - autoretrato
©2008 - autoretrato

Fim de semana bem passado, cheio de fotografia, mas não só, aparecem espaços artealternativos por Lisboa, por vezes com propostas interessantes, casos da Fábrica de Braço de Prata e da Lx Factory, ainda que estes sejam sobretudo frequentados por artistas em formação/afirmação, evidentemente ainda não integrados no circuito “oficial”. Comecei pela colecção de fotografia do Bes no Museu Berardo, aliás, por onde haveria de ser, já me tinha referido atrás à primeira (a)mostra da mesma no espaço denominado BesArte, no edifício do banco, ao Marquês de Pombal. Em face da pouca informação disponibilizada na altura da visita, despercebi o caminho que a colecção tomava, agora, é-nos levantado não só um pouco do véu que presidiu à aquisição das obras, como também um maior número delas, permitindo um olhar mais aprofundado. Muito animadora a grande aposta em autores portugueses e sobretudo em jovens, alguns deles agraciados pelo BesRevelação (autores até 30 anos, não percebo bem porque é que não pode haver revelações mais tardias), posso dizer que gostei muito de algumas dessas propostas, aliás mais, do que da maioria das dos autores consagrados portugueses.

A esse propósito fiz uma viagem pelo site Anamnese, um tremendo trabalho de Miguel von Hafe Perez e colaboradores, “Anamnese é um projecto que visa a criação de uma plataforma de informação sobre as artes plásticas em Portugal e sobre a actividade dos artistas portugueses no contexto internacional na segunda metade do séc. XX, a partir de uma cronologia de eventos no período compreendido entre 1993 e 2003.” Tentei revisitar toda a fotografia produzida/exposta nesse período e um fenómeno curioso sucedeu comigo, gostei imenso de muitas das primeiras obras de vários autores, mas em face de visões de trabalhos mais recentes dos mesmos, desgostei da maior parte. Uns, poucos, de quem não aprecio particularmente a obra agora, o registo manteve-se, porque a obra deles não mudou de tom, talvez se chame a isso coerência, que provavelmente tem um determinado valor de mercado, outros de quem gostava, continuei a gostar. Ou seja, na minha percepção do percurso de alguns desses autores, houve uma degradação visível na qualidade da obra, mas como não sou expert nem crítico, dificilmente descortinarei razões para tal, se existem.

Nesta mostra da colecção do BES não estão expostas algumas obras, mas que se sabem presentes, após visionamento do catálogo editado, ele próprio um esforço louvável de várias pessoas ligadas ao meio fotográfico. A aposta da aquisição foi centrada no séc. XXI, pois desse modo reflectiria os valores do banco, modernidade, inovação e o bla bla bla que se sabe. Todavia, como se sabe os bancos não são instituições de misericórdia, portanto haverá outros valores por detrás e certamente um deles será o potencial de valorização, pois criam-se fundos para tudo e mais alguma coisa, algum deles estará indexado à cotação da colecção, sacando-se uns cobres a clientes ávidos de risco, faz-se uma colecção com o “pêlo do cão”. Se o mercado cair, o risco é tranferido para o detentor da participação et voilá, o mecenato a fazer grande figura. Mas pode não ser bem assim e apenas deliro… Se neste caso a procura cria a oferta e se tal está ligado com a degradação (às minhas vistas) do trabalho de alguns artistas, é uma questão que ainda pode carecer de maior clarificação. Mas tudo isto são apenas possibilidades, não existe aqui nada de ilegal nem de condenável, agora porque é que tanta instituição financeira compra arte actualmente, sabendo que não há almoços de borla… Aliás a posição do BES é interessante sobretudo no domínio da fotografia, cria 2 ou 3 prémios, adquire obras aos premiados, sabendo que o simples facto de adquirir a A ou B pode fazer aumentar a cotação do artista, uma engenhoca destas no mercado de capitais teria que ser muito bem explicada, como estamos nas artes, está tudo correcto.

Mas nada disto tem que ver com a qualidade das obras, portanto fora estes apartes, do ponto de vista didático foi para mim uma excelente visita, que aliás espero repetir mais vezes antes de acabar. Foi maravilhoso ver ao vivo a obra de alguns autores, Baldessari, Struth, Wall, Eggelston, Dijkstra, Goldin, Michals, Moffatt, Tillmans, fiquei com pena de não ver Alessandra Sanguinetti, Sugimoto. Dos portugueses que ainda não conhecia, gostei bastante do que estava exposto de Gabriela Albergaria, Vasco Araújo e Pedro Barateiro. Embora não pudesse ter uma visão do conjunto dos portugueses por se encontrarem espalhados pelas diversas temáticas em que se encontram agrupadas as obras, revisito o catálogo e vejo muito aparato, mas pouca ousadia, risco, criatividade, diferença, dizer que há muita natureza morta, é uma metáfora…

De caminho, uma boa exposição da pintura provocante e sem concessões de Nuno Viegas, um autor que desconhecia e que muito apreciei (apesar do choque de cores e traços), na Galeria Arte Periférica ao CCB. De seguida ainda fui à Lx Factory, por onde ainda não tinha passado, uma exposição de fotografia intitulada “Insular” de Alexander Koch, fotógrafo ligado á moda e publicidade portuguesa,  em que o desenho da interacção entre os corpos e o vidro onde desempenham figuras de dança, confere ao corpo um carácter de ilha. As fotos estão bem trabalhadas mas acho-as talvez mais interessantes como ensaio para uma revista de moda do que para uma exposição, ou então ainda vinha de vistas alagadas pela colecção do BES. A alegoria do título é interessante, embora os corpos como ilhas, na maneira como o fotógrafo registou a interacção, pareça tudo menos solitária ou isolada, talvez possa significar que vivemos como ilhas, mesmo quando aproximamos e tocamos o outro. Ainda deu para visitar a exposição dos alunos finalistas de Artes Plásticas do politécnico de Tomar, onde a simpática autora Gabriela Carraínho, teve a bondade de me ciceroniar, devo confessar que vi alguns trabalhos muito interessantes, embora nenhuma proposta inestimável ao nível da fotografia. O potencial desta Lx Factory para a animação cultural alternativa lisboeta é enorme.

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