a minha casinha (uma série pouco séria…) @ 27.05.2009

Vi finalmente o Changeling de Clint Eastwood, uma história arrepiante baseada em factos reais sobre a odisseia de uma mãe a quem foi devolvido o filho errado e que, não o reconhecendo, se vê internada à força num asilo psiquiátrico, onde a polícia, ao abrigo de uma lei com foros de absurdo, internava arbitrariamente tudo quanto era mulher considerada “perigosa”, barbaridade que aliás não era assim tão usual naqueles tempos, bastando relembrar a famosa lobotomia proposta pelo nosso bem conhecido e prémio Nobel, Egas Moniz, hoje justamente esquecido.

Quase um século depois prepara-se a nova revisão do DSM ou Diagnostic and Statistical Manual for Mental Disorders, sobejamente conhecido entre os estudantes de Psicologia, Psiquiatria e Psicoterapia e restantes profissionais da saúde mental, uma espécie de Biblia onde se tenta exaustivamente balizar a doença psíquica. Apesar de toda essa informação utilmente compilada, existe alguma cisão no mundo da sáude mental não só quanto à utilidade dos diagnósticos como às propostas terapêuticas deles resultantes, muitas vezes apoiadas em testemunhos pouco sólidos, sobretudo sabendo-se o quão fugidia e pouco dada a classificações é a doença mental. Um pouco à conta de toda esta classificação, tiveram que se arranjar remédios para tanta doença, no que se tornou um (imensamente) lucrativo negócio para as farmacêuticas, a quem parece dar imenso jeito que se vão inventando novas doenças, quando não as inventam directamente ou através de uma “ajudinha” dos media, veja-se a recente gripe suína e imagine-se os lucros que terão sido feitos com o Tamiflu, sobre o qual nem sequer existem certezas acerca da efectividade contra a doença.

Embora segundo consta (pode ser lido um pequeno artigo em DSM-V Major Changes | World of Psychology)  o DSM-V não vá trazer alterações de fundo à presente quarta edição, creio não errar muito ao afirmar que embora exaustivo continuará a não impedir o erro de diagnóstico em larga escala, como conduzirá amiúde a prescrições inadequadas (e quiçá excessivas) do ponto de vista terapêutico, embora seja essa parte da fórmula encontrada para lidar com a mais insidiosa e grave doença que afecta o mundo contemporâneo, justamente a doença mental. O despreparo – e a falta de vontade política – para lidar com o fenómeno é de tal ordem, que acaba por ser o fármaco a tomar a dianteira no amparo ao doente, que após o início da toma facilmente se vê dependente do químico, amiúde agravando o problema, ao invés de o resolver. Em vários anos de psicoterapia, assisti a uma percentagem mínima de casos em que o medicamento foi efectivo e as mais das vezes foi-o em conjunto com outras variáveis e certamente não apenas devido à medicação em si (o mesmo se pode dizer das psicoterapias), pelo que não me coíbo de afirmar que a medicação actualmente existente (ansíoliticos, antidepressivos, estabilizadores de humor, etc) é várias vezes mais perigosa para a saúde do que a sua não toma.

Infelizmente a maioria dos casos recorre ao psiquiatra, que é quem proporciona a baixa médica, as receitas para os medicamentos e quem supostamente é o expert, mas tirando os casos muito graves e pessoas em risco de suícidio, a medicação deveria ser evitada ou a última medida a tomar. A saúde pública deveria estar munida de profissionais suficientes ao nivel do atendimento psicoterapêutico, para mais com uma grave crise de desemprego entre psícólogos,  que permitissem um efectivo acompanhamento dos casos que se revelam menos graves, pois que uma larga faixa da população não tem possibilidades de recorrer à psicoterapia privada, e quando o faz a expensas próprias, muitas vezes não dá oportunidade a melhoras pelo abandono precoce das sessões porque não sente melhoras rápidas ou simplesmente não entende o que “anda lá a fazer”. Com efeito, uma parte da responsabilidade deve ser assumida por muita da psicoterapia que age de forma directiva, classificativa, julgativa, analítica, comportamental e apoiada em atitudes que embora na teoria sejam respeitadoras e empáticas da pessoa humana, na prática tal acaba por não suceder, afastando os clientes e dando mau nome à generalidade das práticas. Por outro lado, é bem possível que todo o esforço colocado na psicoterapia quer pelo cliente quer pelo terapeuta, seja invalidado pelo desconhecimento das forças que desorganizam a mente e consequentemente das que a organizam, pelo que embora muita mais aconselhada do que os medicamentos, é bem provável que seja apenas uma medida um pouco menos primitiva, aliás como parece ser a capacidade de relacionamento que temos uns com os outros através da linguagem, isto comparando com outros domínios de relacionamento bastante mais subtis, e como tal muito menos estudados e (re)conhecidos.

Mas voltando ao DSM-V, pelos vistos – desgraçadamente – aparecerá uma nova desordem relacionada com as crianças e adolescentes hiperactivos, pelo que se podem esperar doses maciças de drogas “calmantes”, em mais um episódio de continuada idiotice e falta de reconhecimento perante uma nova estirpe de jovens, que necessitam de tudo menos que os acalmem. Na parte da identidade de género, uma boa nova, pelos vistos vai passar a deixar de ser considerada doença ou disfunção sexual, e tal como na homossexualidade, que embora já tenha sido abolida como doença na revisão de 1970, ainda por aí existe muito boa alminha que acha que tudo o que sai da norma é doença. Esses são os que certamente tem também uma opinião bem formada sobre os abusos dos padres católicos sobre milhares de crianças na Irlanda (e resto do mundo) em que uma delas resume a bondade do Natal a uma época em que se fazia uma pausa nas violações…

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Comments:

lion
May 28, 2009

New pavement? :) e o filme serviu de mote a 1 tratado de saúde mental e certeira critica social, ( é caso p dizer , "deu pano para mangas"...)

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