As primeiras

©1990, Évora_Praça Giraldo_Senhora dos Jornais

Depois do post de ontem sobre Évora, fui rebuscar umas velharias saídas dos primeiros 10 ou 20 rolos que disparei. A minha primeira máquina foi uma Canon AE-1, que comprei com 2 lentes e mais uns acessórios por 50 contos, com o meu primeiro salário de 56 contos. Nesse mês cheguei a casa e vai de pedir um “empréstimo” à minha mãe a qual espantada perguntou, mas já não ganhas o teu ordenado, respondi orgulhoso tirando do saco, está aqui o meu ordenado todo. E aí fui eu armado em fotógrafo, sonhando com a Magnum, o Cartier-Bresson, o Capa, o Erwitt e outros tantos…

©1990, Évora_Praça Giraldo_Miúdos
©1990, Évora_Praça Giraldo_Miúdos

Estas três primeiras foram ambas tiradas no 25 de Abril de 90, os miúdos brincando no palanque das comemorações que entretanto já tinham acabado, a outra de uma senhora que vendia jornais pela rua, mas que já andava muita encurvada pelo peso dos anos que até metia dó vê-la ainda a ganhar a jorna, carregando as notícias frescas na sacola ao ombro.

©1990, Evora_Arcadas_Cego

Esta tem um história para contar, estive encostado uns bons 20 minutos esperando apanhar a arcada limpa de gente, uma vez que era feriado e o povo passeava pela rua, apesar da chuva. Aí estava eu a praticar a paciência, apanho uma aberta de passeantes, foco, disparo, passados días revelo, espreito as provas de contacto e não é que vejo uma figura a espreitar detrás do homem, diabos me levem se dei por ela ao fotografar.

©1990, Reguengos de Monsaraz, familia de ciganos

Estas são de uma família cigana que vivia para os lados da praça de touros de Reguengos de Monsaraz, um dia por lá me aventurei a fotografar sendo abordado por 2 pequenos, passados minutos já fotografava o acampamento todo, as famílias, com a devida algazarra do costume, se queria comprar umas calças, etc, ainda o melhor estava para vir, entro numa barraca com uma velhota já cega que grita pra mim “aí o mê sobrinho voltou” e assim que diz aquilo desata o mulherio numa gritaria pegada, que era eu que tinha ido para o Porto à tantos anos e que nunca mais tinha voltado, enfim uma história mirabolante da qual lá me desenvencilhei como pude. Por lá fiquei conversando e fotografando até ao final da tarde, ora me queriam comprar o carro, se sabia de alguém que quisesse comprar uma mula, de tudo se falou, na altura da refeição ainda tentei tirar umas fotos mas fui severamente reprimido pelo chefe, à refeição nunca, disse. Feitas as despedidas, ficou prometido que voltaria daí a dias com as fotos, chegado a casa pousei a máquina e alguém se lembra de ver se tem rolo dentro (só tinha feito um rolo, fotografar à pobre), aflito acudi mas já o negativo tinha ficado quase todo queimado, ainda revelei mas só se aproveitavam meia dúzia e algumas delas parcialmente queimadas, perdi a coragem de os enfrentar e de propôr novos retratos e nunca voltei, hoje com pena minha e certamente deles também, que quantas pragas não terão rogado ao fotógrafo aldrabão.

©1990, Reguengos de Monsaraz, familia de ciganos
©1990, Reguengos de Monsaraz, família de ciganos
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Comments:

teresa
October 14, 2008

muito frescas e lavadinhas estas fotos, quase como um primeiro amor

Joao Henriques
October 14, 2008

comentário eufemistico esse...

November 13, 2008

Excelentes fotos! Tenho uma grande curiosidade pela fotografia analógica, mas sou fotógrafo novo, da época da fotografia digital. Tenho visto algumas fotos reveladas pela tecnologia antiga, elas ganham um aspecto diferente. Belas fotografias, parabéns!

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