autoreferencialidade

© Martin Klimas, da série FOULARD

 

Por vezes existem escolhas temáticas que se impõem de imediato, tal é a ordem de interesse, de contemporaneidade, de valor acrescentado ao debate e ao estímulo intelectual que propõem. Outras nem por isso, sem que contudo se perca de vista o labor e o empenho de quem vai por caminhos menos óbvios. Acerca de uma exibição de fotografia, pode ler-se no descritivo da galeria que a apresenta: “High-quality silk scarves from establishments like Dior, YSL, Hermes or Louis Vuitton provide the thematic background for the new photo series ‘Foulard’ by Martin Klimas. (…) these scarves are themselves subject to an identity crisis situated between object and picture.(…) As fashion, they are more Zeitgeist than avant-garde, do not shape style so much as quote artistic trends such as Abstract Expressionism, Op and Pop Art and make us think of artists like Rothko, Vasarely or Lichtenstein. In association with the patterns, complex perspectival constructions result, opening up intriguing pictorial expanses whose visual power is absolutely bewitching.” Tomados pelo seu valor facial, estes lenços pertencem ao universo do acessório de moda. Contudo não se tratam de meros acessórios, existe algo mais neles que está para além do seu mero valor decorativo. Os seus portadores aspiram a um estatuto, o qual tem uma determinada correlacção com o valor monetário, geralmente pouco acessível a bolsas comuns, que normalmente é pedido ao candidato a possuidor. Não estando porém em causa o apport estético-estatutário que o referido objecto transfere para o seu proprietário – gostos e carteiras não tem discussão – pois nada disso interessa à fotografia, existem no entanto outras questões.

Por exemplo, existe por detrás destas fotografias mais alguma coisa que não estejamos a ver, além da autoreferência e da contínuada apropriação do mundo da moda por objectos artísticos? A autoreferência da arte em relação a si mesma, neste caso a fotografia apontando para a história de arte, é sem dúvida um mecanismo legítimo, aliás, qual é ele que não o seja hoje em dia. Porém, será que este conjunto de citações de tendências artisiticas suporta algo mais que essa autoreferência? De que modo é que fala sobre o mundo, qual é a opacidade que esses lenços podem ocultar?

Uma possibilidade mais velada tem que ver com o jogo de palavras possível: uma aparência, aliás um lenço, algo que contribui para a aparência, que por sua vez aparece noutra aparência que é a imagem. Se esta é outra forma, quiçá mais elaborada de autoreferência, acontece porém que nesse jogo de espelhos apenas se reflecte outra imagem, reflexão essa não no sentido do pensar mas da aparência. É uma imagem que se reflecte a ela mesma, mas não sobre ela mesma. Algo que se vê ao espelho, mas que pouco ou nada representa ou coloca em perspectiva das suas próprias contradições, restando ao pobre espelho responder à “quem é a mais bela de todas”.

Habituados que estamos às complexas elaborações artísticas contemporâneas, ficam dúvidas sobre a possibilidade meramente narcisista que se levanta. Quando a arte se limita a referenciar a si mesma desta forma algo “decorativa”, estará a crise de identidade situada entre o objecto e a picture, como alude o texto introdutório? Curiosamente o termo “crise de identidade” pode colar-se até de forma malévola não ao objecto, mas ao seu possuidor, cuja crise se pode manifestar mais pela busca de uma aparência do que por uma identidade propriamente dita. Que porventura se pode estender ao comprador da picture, que pensa estar a levar arte para casa, apenas porque entrou numa galeria e pagou em conformidade. Mesmo em termos formais, onde estão as “intriguing pictorial expanses whose visual power is absolutely bewitching”? Parece nunca ter estado fora de moda, este género de argumentação que se procura auto-fundamentar com uma verborreia – e obra – artístico-decorativa, não sendo no entanto por isso que se torna menos entediante. Um prelúdio para a PARISPHOTO. Felizmente há mais Paris. E foto.

 

© François Berthoud

Aborde-se outro caso, desta vez uma exposição de trabalhos de ilustração numa outra galeria: “Berthoud soon developed a distinctive style for the graphic transcription and illustration of contemporary clothing, shoes, handbags, perfumes, and accessories. His expressive, aesthetically appealing linocuts, drip pictures, and computer graphics have accompanied countless fashion campaigns – from Yves Saint Laurent to Bulgari or Sonia Rykiel. In these works the depicted object and Berthoud’s visual interpretation of it complement one another to generate atmospheric total works of art that substantially shape our perception of a featured product and contribute to its marketing success. (…) Particularly fascinating is the use of complementary analog and digital techniques to produce masterly results.”

Conhece-se pouco da problemática da ilustração para a representação do real. O texto introdutório parece apontar para a prática como mero adereço comercial, como aliás pode ser entendida a maior parte da fotografia de moda. Pode também neste caso como no anterior afirmar-se que se trata de uma imagem que reflecte outra e não sobre outra? Um adereço que reflecte outro, pode ser de uma ironia algo tautológica. Para que serve esse reflexo, aparentemente mais belo e contendo mais craftsmanship que o anterior, se pouco ou nada reflecte, senão o mero instrumento de marketing? Se, ainda para mais, se fascína com o “use of complementary analog and digital techniques to produce masterly results”, então estamos perante uma arte que olha para o umbigo e pouco mais.

 

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