Beleza ou Inteligência?

© Thomas Ruff

©ThomasRuff, da série Jpegs

“Pergunto porque é que a apropriação, a alienação, a análise e a nulificação substituíram a perseguição da beleza? (Thomas Ruff) Faz uma pausa antes de responder: É talvez porque a fotografia tem sido tão mal utilizada, que eu penso que você tem que ser muito cuidadoso quando está a olhar para uma fotografia. Há que saber as circunstâncias sob que foi feita – porque de outra maneira você não pode a ler, ou você poderia entendê-la mal, ou a imagem pode ser mal empregue. Dado que a fotografia é um meio tão realístico, parece mostrar-nos que tudo aquilo para que olhamos, estava efectivamente na frente da câmera. Mas entretanto não estava.” Ver a entrevista com Thomas Ruff.

Não obstante a resposta ser algo enviesada em relação à pergunta feita, Thomas Ruff discrimina um dado que me parece de destacar, que é o da importância de saber as circunstâncias em que a fotografia foi feita. Embora a ênfase para a “veracidade, bom uso, etc” se possa encontrar no conhecimento da fórmula de produção, tal proposição parece incompleta, pois esse conhecimento não parece bastar para que de modo automático se atinjam aqueles objectivos. A fotografia é um objecto de tal modo dualista, que em simultâneo aponta para fora e para dentro, pelo que o mau uso da mesma poderá ser assacado em várias direcções. Por outro lado, ao se ver sujeita e equiparada às ciências sociais e ao academismo, seria óbvio que na fotografia começariam a sobressair as qualidades mais do domínio do racional, em detrimento da estética, como esta série Jpegs de Thomas Ruff parece querer demonstrar.

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Comments:

October 28, 2009

Thomas Ruff herdou a "filosofia" estética do casal Becher, que postula que a fotografia deve ser o mais possível neutra e imparcial (como se isso fosse possível), e que a uma fotografia não deverá ser mais que um simples registo,ou substituto para o objecto, quando não o podemos observar de forma directa. Como tal, parece querer provar-nos isso de forma tão primária como o conceito que vulgarmente se denomina de "Escola Alemã". Digo de forma primária, mas no entanto, essa palavra não pretende ser ofensiva neste contexto. Primário, será aqui sinónimo de imediato, superficial se quiserem, mas sempre condicente com o que é a imagem fotográfica na sua verdadeira natureza. Porque, por mais que queiramos dar voltas, aquilo que uma imagem fotográfica realmente nos mostra, é não mais que uma pequena fracção de espaço/tempo de um determinado acontecimento e/ou lugar. No que respeita ao espaço, temos ainda que entrar em linha de conta com o ângulo em que nos encontramos relativamente ao que observamos e com a objectiva que usamos. Mais nada, portanto, podemos inferir da observação de uma imagem fotográfica (mesmo que esta não apresente qualquer montagem posterior) sem que, ao fazê-lo, ultrapassemos os seus limites. No entanto, é isso que sempre se faz. Para o bem ou para o mal, raramente vemos uma imagem fotográfica apenas como um simples produto desse corte espacio-temporal. Ao contrário, ao olharmos para as Torres Gémeas a arder, (seguindo a sugestão de Thomas Ruff) não vemos simplesmente dois prédios que ardem, mas um símbolo do terrorismo, com toda a carga simbólica e preconceituosa que isso acarreta. Quando vemos uma imagem, não vemos simplesmente essa imagem, vemos todas aquelas que já vimos antes, tenham sido ou não fotografadas. Mas Thomas Ruff, parece querer "acordar-nos" para a realidade de que, de facto, aquela imagem é somente aquela imagem. O reverso deste "caminho", é que, por aí, acaba-se por anular tudo aquilo que em fotografia pode constituir uma linguagem, deixando no seu lugar o vazio. Talvez por isso, Thomas Ruff esteja tão preocupado em nos dizer que, afinal, as imagens nada nos mostram. Que se desfazem em manchas de pixeis, quando vistas na sua verdadeira natureza.

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