blue mud swamp, entrevista com filipe casaca

Com o Filipe Casaca e a pretexto do seu livro Blue Mud Swamp dá-se início a um ciclo de entrevistas com autores que publicaram recentemente livros de fotografia. Trata-se de um projecto fotográfico efectuado na China, na sequência de outros autores portugueses que tem dedicado atenção ao Oriente. O projecto fotográfico “fora de portas” tem sido fonte de continuado apelo para os fotógrafos, alimentando por vezes a ideia equívoca de que Portugal não tem interesse fotográfico, e por vezes a expectativa entre a comunidade de que, pelo facto de fotografar no estrangeiro, o autor poderá atingir uma espécie de maioridade autoral. A esse tipo de preconceitos somem-se alguns handicaps deste tipo de projectos, em que por vezes se labora tangencialmente à fotografia de turismo, onde se não sente integração ou empatia do autor com o meio, onde o desconhecimento, onde a falta de tempo, de meios,  faz com que se plasmem obras de pouco destaque. Blue Mud Swamp de Filipe Casaca parece ser uma dos casos felizes  de “contorno” a esses obstáculos, afirmando-se de qualidade em vários níveis, desse modo destacando-se de alguma mediania nesse tipo de propostas autorais.

João Henriques – Filipe, conversemos um pouco primeiro sobre o teu novo livro “Blue Mud Swamp” e depois iremos ao teu anterior, “A minha casa é onde estás”. De onde surgiu esta série, o que é que te levou a ir fotografar para a China, de que modo pensas que pode este trabalho ser interessante para quem o vier a ver?

Filipe Casaca – Decidi ir a Dalian por ser uma cidade com características diferentes daquilo que já conhecia da China. Tem uma forte ligação com o mar, atracções naturais e infra-estruturas lúdicas que a tornam procurada pelo turismo interno. Poderia resultar numa nova abordagem e acrescentar ao entendimento desta cultura. Agrada-me a ideia de que cada pessoa possa fazer a sua própria interpretação sobre o que apreende deste trabalho.

JH – Pelo que se pode ver no teu site, continuas interessado no Oriente. Sobre o que é o Japan?

FC – O Oriente… Há uma frase do Junichiro Tanizaki que talvez ajude a explicar este meu interesse; “Contrariamente aos Ocidentais que se esforçam para eliminar tudo o que se assemelha a uma mancha, os extremos-orientais conservam-na preciosamente, e tal e qual, para fazer um ingrediente do belo. É uma desculpa, dir-me-eis, e aceito-o, mas não é menos verdadeiro que amamos as cores e o lustro de um objecto maculado pela sujidade, pela fuligem ou pelas intempéries”.

Japão é um “work in progress”. Inicialmente o interesse pelo Japão começou naquilo que eu conhecia da cultura, do cinema e da fotografia. Agradava-me o nível experimental e a ausência de ideias preconcebidas no mundo das artes. Agora também me interesso pela sua música de improvisação. Depois, com a convivência, desenvolvi fortes laços de amizade, que ajudam a entender o porquê deste meu interesse.

Para os meus projectos atrai-me principalmente a diferente forma de ver o “mundo”, a complexidade que está por detrás das coisas aparentemente mais simples e vulgares. O Japão não é assim tão facilmente perceptível e apreensível, é preciso “descodificar” as suas várias camadas de informação, desde a “Big Picture” até ao ínfimo detalhe.

 

JH – Como é que se fotografa lá fora? É uma pergunta estranha, mas na qual tenho curiosidade, pois tenho alguma dificuldade em fotografar fora de sítios com os quais não estou familiarizado. Como se faz com as pessoas sobretudo?

FC – Tento fotografar no estrangeiro como fotografo cá, não faria sentido de outra maneira. A minha atitude mantém-se receptiva, tentando integrar-me na conduta social que consigo apreender acerca do lugar onde me encontro. Acima de tudo há que comunicar com as pessoas…

 

JH – É curiosa a associação que fazes com a palavra, através do texto do Mingyu Wu. Em que medida é um texto desses estruturante de uma série e deste livro? O que é que a palavra trás?

FC- O texto da Mingyu Wu foi realizado para esta série na sequência de um desafio que lhe lancei. Queria conhecer a ideia que este trabalho lhe transmitia. Não queria um texto sobre fotografia mas algo que vivesse por si próprio, embora baseado em conceitos que estão presentes no trabalho.

JH – Como é que construíste esta série? Levaste uma ideia predefinida? Foste fotografando e no final começaste a juntar as peças?

FC – Já tinha uma ideia definida, aliás, o projecto foi desenvolvido no âmbito de uma bolsa de criação artística da Fundação Gulbenkian. Claro que apesar de ter já algumas ideias, evito fechar-me sobre elas, de forma a dar espaço para outras opções que me são dadas a conhecer no momento. Na prática há sempre um conjunto de ideias e sensações que vêm à posteriori quando estou a realizar e também a editar um trabalho que são determinantes para o resultado final.

 

JH – No teu site já é visível algo daquilo que criaste, mas a experiência de visualização de um livro é sempre diferente. Aliás, devo-te dar os parabéns, o livro é um prazer, em termos de objecto físico, desde o material da capa, à qualidade da cor e da impressão, até à forma como editaste e paginaste, numa experiência que resulta densa, imersiva. A minha curiosidade reside em saber donde vem estas escolhas, porque é que escolheste full bleed, porque é que optaste por um escurecimento pronunciado da imagem, no fundo, os porquês destas opções formais.

FC- Para mim um livro de fotografia além de visual é também algo muito táctil. Dou muita importância ao trabalho do designer e procuro que todos os detalhes e materiais estejam em consonância com a minha ideia. Neste caso optei pelo full bleed porque queria que as imagens criassem uma sensação visual de expansão para além do seu suporte; não as queria “aprisionar” no tom do papel. A densidade pronunciada das imagens está relacionada com a forma como expus o slide; esse aspecto foi mantido na impressão, para ajudar a criar uma sensação de algo um pouco natural.

JH – Poderia tentar nomear aqui algumas influências que me parecem visíveis, mas em todo o caso será melhor ouvir de ti: que outros livros ou fotógrafos te influenciaram para construir este livro?

FC- Há um filme de que me lembrei várias vezes durante este trabalho, o “Suzhou River”, de Lou Ye.

JH – Embora não conheça esse filme, pelo que vejo no IMDB faz todo o sentido, aquilo que dizes. Seguiste um formato exterior parecido neste livro com o teu anterior, “A minha casa é onde estás” apesar de, depois, todo o layout interior ser completamente diferente. Que experiências retiraste da construção do 1º livro para este segundo.

FC- Quis manter propositadamente o mesmo formato do livro anterior, mas mudar a relação de escala entre as imagens e o seu suporte. Cada livro é em si próprio uma experiência única, e todas as necessidades adequam-se muito ao que o trabalho do próprio livro pede. Mas talvez acima de tudo na edição das imagens, mais alguma experiência no processo de produção gráfica e gestão de recursos.

 

JH – A esse pretexto talvez possamos falar um pouco agora sobre esse teu primeiro livro, “A minha casa é onde estás“. Ao contrário do Blue, trabalhaste a preto e branco, sobre uma visão mais privada. Existem elementos de ligação entre os 2 trabalhos?

FC – Existem. Apesar do livro “a minha casa é onde estás” pertencer a um mundo íntimo, neste caso a relação com a Teresa, o carácter pessoal como eu a representei está ligado a algumas questões que me interessam desenvolver nos meus trabalhos em geral, e à forma como abordo os temas. No elemento humano gosto de me deter nas particularidades do corpo, na sua ausência de movimento, na sua tensão, nas posses naturais e inconscientes, aparentemente comuns, mas de alguma forma diferentes… De perceber tanto o “peso” como os “efeito do tempo” nas matérias-primas e nos espaços, e a forma como reflectem o seu processo natural de envelhecimento.

Pretendo também que as imagens não fiquem presas unicamente ao que é visível, mas que levantem outras questões que estão omnipresentes. Penso que há uma certa transversalidade na forma como represento os temas, que pode ser um “reflexo” de mim próprio.

 

JH – O que é que te parece desta tendência de trabalhos fotografados em diferentes modos, câmeras, processos (no teu caso é apenas uma alteração cromática), quando uma certa linha anterior – e ainda actual – aponta para uma constância desses factores, numa espécie de constituição de assinatura pessoal que o mercado parece valorizar?

FC – Uma assinatura pessoal de um fotógrafo não é somente marcada pela técnica e estética que utiliza, mas sim pela forma como aborda o tema em si. Não queria utilizar a expressão “o olhar do fotógrafo sobre” mas é algo deste género. É perfeitamente possível usar uma mistura de técnicas e de estéticas, sem desvirtuar um corpo de trabalho. Há um tipo de abordagem própria que cada fotógrafo tem, que vai além de questões formais, pois tem a ver com a forma como representa as suas ideias, o que por si só uniformiza o trabalho.

 

JH – Por outro lado, o que é que uma auto-edição ensina e quais as suas dificuldades? Desde a parte da concepção estética e artística até à materialidade, desde o design à impressão, acabamentos, etc?

FC – Uma auto-edição levanta imensas questões, desde a forma como o trabalho é apresentado em livro, ou seja, como é feita a sequência das imagens, questões de design e todas as técnicas relacionadas com o processo gráfico. Procuro sempre opiniões e conselhos, mas como se trata de uma auto-edição a decisão final é sempre da minha responsabilidade. Depois, claro, vem o quebra-cabeças da gestão dos custos… Por estar 100% envolvido em todos estes aspectos é muita pressão, mas adquire-se uma aprendizagem nestas várias vertentes.

JH – Como é que se financia uma auto-edição desta qualidade em Portugal, actualmente e face à exiguidade de fundos para cultura e a ainda menos, para fotografia?

FC – É uma luta constante e desgastante. Tenho conseguido através da venda de fotografias, que leva o seu tempo! Neste último caso foi possível também graças ao apoio da Catarina Ferrer, da Galeria Pente 10. Decidimos fazer uma edição conjunta o que permitiu ajudar a financiar o livro. As vendas do próprio livro, em Portugal, mas essencialmente no mercado internacional, contribuem muito para o retorno desse investimento a médio-prazo.

JH – Como achas que vai o mercado editorial de livros de fotografía? Qual é o feedback dos leitores?

FC – Nos últimos tempos tem havido um boom positivo para o livro de fotografia. As editoras independentes e as edições de autor têm uma maior possibilidade de ver o seu trabalho divulgado no mercado nacional e muito mais no internacional. Há uma abertura por parte das livrarias da especialidade (tradicionais e on-line), há feiras da especialidade e exposições de livros. Parece que o número de pessoas interessadas em livros de fotografia tem vindo a aumentar, o que é óptimo!

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