bus stops to nowhere/the future

The Future de Miranda July [filme] e Bus Stops To Nowhere de Timo Klos [série fotográfica], dois objectos ímbuidos de questões comuns, ou tão antagónicas que acabam por se tocar. As fotografias pertencem ao registo “documentário”, tantas vezes “equivalente” a real, sendo a opção pela tipologia um sustentáculo formalista do trabalho. Que mostra o quê, concretamente? Justamente aquilo que se diz no título, paragens de autocarros, nas quais nunca passará um autocarro sequer. Porquê? Tratou-se de algum delírio urbanístico? Não, tratam-se de lugares construídos dentro de edificios que abrigam pacientes que sofrem de demência, os quais são colocados nestas paragens fictícias à espera que passe o autocarro que os levará a algum lugar, evitando desse modo que venham a entrar num autocarro real.

Algo que se pode dizer de imediato é que, pelo menos neste caso e através destas fotografias e o que sabemos dos lugares que mostram, não é necessário pessoalizar para entender de imediato a dimensão que assume a doença. Embora o objecto não a mostre, nem à pessoa, é tão fortemente sugestivo que se torna desnecessário fazê-lo, mesmo em se tratando do “real”. Nas fotografias impressiona sobretudo, além da doença, uma noção que nos é cara, a de futuro e da sua ausência. Futuro esse que está dissimulado no filme The Future de Miranda July, que não é um documentário, é ficção, mas que impressiona também por razões similares: um objecto que pertence a um real quase surreal (que não advém apenas de um gato falante). Se nas fotografias, não nos imaginamos a ficar numa paragem onde nunca passará nenhum autocarro, não só porque se trata da construção de um real sem “futuro”, sem consequências, algo que é do domínio do inconcebível, aliás mesmo as pessoas que lá estão partilharão dessa opinião, pois para elas aquilo “é” o real, no filme, constrói-se o real através de uma acção futura mas quase irreal, a compra de um gato pelo casal, que se subdivide em acções mais pequenas, as quais parecem não levar também a lado nenhum, quiçá, sem futuro.

Sob capas diversas, a doença nas fotografias, o relacionamento do casal no filme, ambos pertencem a um fundo transcendente, metafísico, cujas interrogações são absolutamente imprescindiveis: para onde é que vai a vida ques e vive, o que é futuro, o que é que importa (performance) aquilo que se faz?

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