capital reflex #29

A União Europeia emitiu um comunicado em que se afirma estar a recessão técnicamente ultrapassada. Devido a esse facto, estou em dúvida se devo ou não decretar o fim desta série, a qual foi iniciada com o intuito de dar uma panorâmica sobre os reflexos da crise económica no contexto português. Como já não há crise, estou quase de mãos a abanar, mas de todo é assim, já há algum tempo que decidira dar outro rumo à série, tentando auscultar o pulsar dos tempos presentes, sem que a tónica deixasse de estar na questão económica, mas alastrando-a para outras possibilidades que de algum modo permitissem um quadro mais completo.

Sobre a crise, hoje passei por aquilo que seria uma boa “história” fotográfica aqui para esta série, reconheço-o agora, mas que no momento fui incapaz de sequer pensar nisso: dirigia-me de carro a uma empresa da zona, quando de modo que me pareceu aflitivo um casal me pediu boleia, parei, indaguei que queriam, boleia para a uma terra, da qual nem sabiam o nome, andavam à procura de trabalho. Ele aparentando os 50 e tais, ela mais idade, descobri que eram ambos mais novos do que imaginara. Indaguei porque iam a pé por aquela estrada, não tinham dinheiro para o autocarro, nem tinham ainda comido nada hoje, eram 4 da tarde. Ele queria arranjar trabalho, não era bêbado, nem drogado, disse-me, mas como não sabia ler nem escrever ninguém lhe queria dar emprego, agricultura quase não há, a construção está difícil, não tem direito a rendimento de inserção, ela recebe 200 euros, não pode trabalhar, é doente do coração. Gente simples, que me pareceu séria, a única coisa que queriam era um trabalho, para poderem ter dinheiro para comer, aliás essa foi a palavra que mais ouvi no tempo que passou, queriam comer. Levei-os ao sítio onde queriam ir, ainda uns quantos quilómetros depois do meu destino, dei-lhes algum dinheiro, embora não mo tivessem pedido e reflicto, acho uma fotografia tão insuficiente para poder dizer alguma coisa sobre esta gente…

[…] já tinha colocado o post, mas mesmo podendo parecer obsceno vir falar de filmes já a seguir, tenho que citar dois que abordam a questão actual da precaridade laboral, do desemprego e do ambiente geral que se vive nas empresas. Ambos fazem-no de forma particularmente realista, não obstante se possam considerar pouco alimentados por códigos do cinema realista ou neorealista, basta dizer que um desses códigos é justamente o de empregar actores amadores ou sem estatuto de vedeta, o que desde logo não acontece com o primeiro desses filmes, que tem em George Clooney o actor principal, e que toda a gente conhece – especialmente as senhoras, cujo título em português é “Nas Nuves” ou “Up in the Air” no original, de um realizador, Jason Reitman, que já deu mostras de ser capaz de fazer grandes filmes (“Juno” e “Obrigado por Fumar”). O outro filme, creio que passou ao lado das salas nacionais, nem sei o título em português, mas em italiano chama-se “Tutta la vita davanti” e é de Paolo Virzi, uma divertida(?) história sobre a vida num call-center. Sempre que vejo filmes destes, coloco em dúvida as capacidades narrativas, especulativas, de representação do real, da fotografia.

http://www.imdb.com/title/tt0427944/
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Comments:

January 22, 2010

Como pudeste comprovar, crises haverão sempre. Como tal, nunca serão demais, todas as iniciativas que as denunciem, alertando o comum, pacato e "dorminhoco" cidadão, para esses factos. Se uma fotografia é insuficiente? Nisso concordo contigo, mas mesmo assim, é melhor que nada. Boa continuação de projecto.

lion
January 27, 2010

história comovente e digna de registo, parece saída de um filme passado durante a grande depressão americana dos anos 30. "The migrant mother", registo fotográfico famoso desta época. Desta história tua, actual e nacional ficou o céu bem azul a testemunhar o evento:)

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