cinzas pascais

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Quarta-feira de cinzas em New Orleans, de Alec Soth. Ao primeiro olhar é um trabalho pouco impressionante, mas não será essa uma perspectiva redutora da fotografia, em que tudo tem que ser espectacular e sobretudo mediaticamente berrante? Mas o que impressiona é a forma como alguns “comentadores” falam da maneira como o fotógrafo explorou o tema. Citando António Guerreironada ilustra melhor a perversão dessa ideia moderna de opinião pública do que o lixo opinativo dos blogues e das caixas de comentários dos leitores nos jornais online — caricaturas grotescas da hipertrofia da opinião mediática. Este fluxo imparável da opinião é o oposto da liberdade real de pensamento e de comunicação. É uma conversa que se molda inteiramente pela vontade do reconhecimento e segundo critérios que são os de uma ortodoxia partilhada pelo grupo a que se pertence, simetricamente recusada por outros grupos cuja aspiração é a mesma: triunfar nas guerras da opinião e ocupar um lugar nesta dialéctica sem síntese.
De que modo afectam Soth estes comentários? Ele que parece um fotógrafo preocupado em perfurar a couraça da indiferença e da estupidez, através de trabalhos que conjugam o Eu e o Outro, a proposta “literária” ou “narrativa”, sempre enraizada e profunda, de quem não se limita a exibir “troféus” ganhadores de concursos de fotografia, em que o anti-vedetismo e o anti-glamour (ver o trabalho fashion magazine, por ex) se perde em favor de mais naturalidade e simplicidade.
Quanto ao trabalho mostrado, é absolutamente pertinente a questão do pecado e da expiação ou não vivessemos debaixo de 2 milénios do mito dominação-submissão embebido nessa dinâmica. Deste delirio neurótico-religioso e depois de ver esta série de imagens, parece ganhar corpo a idéia de que o pessoal que vive com o propósito de se exibir (pecado do orgulho, de ser mais importante ou atractivo que outros), acaba por não se divertir (expiação). Uma chatice, quod erat demonstratum.

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