contra mundum


“s/título”, da série capital reflex

“Criar não é imaginação, é correr o grande risco de se ter a realidade“. Clarice Lispector

Contra Mundum é um blog que anda à volta da crítica de poesia e de literatura. Excluindo falsas modéstias, são matérias nas quais me considero um leigo, todavia nele vou encontrando preocupações que podem ser comuns à fotografia, quanto mais não seja pela natureza eminentemente estética que é comum a todas as artes. Sem que se pretenda operar uma substituição simples das palavras pelas imagens, veja-se por exemplo neste O Viajante Sem Sono: “dizer a graça, dizer a beleza ou dizer a dor, não é, ao nível da literatura, apontá-las com o dedo, é produzi-las enquanto palavras” ou ainda “indicar a luz ou a escuridão enquanto experiência literária não é enunciá-las como se o seu referente pudesse caber nas palavras, é produzi-las enquanto experiência nas e apesar das palavras. Interrogações da mesma ordem podem ser produzidas sobre fotografia. A imagem pode ser uma experiência de representação, mas de que modo poderá ela ir além do seu carácter eminentemente reprodutivo e produzir a beleza, a dor ou análogamente qualquer outra experiência, ou consistirá já essa reprodução um acto de “produzir o mundo”?

Num outro artigo Manuel de Freitas, INTERMEZZI, OP. 25 lê-se que “é pobre a poesia que se produz para se enunciar como escrita e que não assume que é, como todas as artes, ao mesmo tempo termo de mediação para o mundo e lugar de produção do próprio mundo. É grande, como em alguns dos textos deste livro, quando se assume como parte do movimento de dizer o mundo, de produzir o mundo.
Este aspecto qualitativo parece querer evidenciar que a representação (mediação) e a produção (do mundo) são indissociáveis e diferentes, embora o produto final pareça conter os dois ingredientes de uma forma que os torna potencialmente indistinguíveis.

Alguma fotografia parece ter-se já liberto da necessidade de representação mimética da realidade e ao fazê-lo, ter-se-á libertado também da possibilidade de ter que lhe atribuir um sentido, mesmo reiterando a hipótese do não-sentido, poder ela própria ser uma forma de interpretação. No entanto, a imagem de cariz mais documental ainda tende a assumir uma caracteristica de representação ou de mediação do mundo, sendo desse modo passível de atribuição de um sentido ou de ser interpretada. Mas em que medida é que a imagem produz também ela o mundo? Não sei se a resposta pode ser lida nas entrelinhas desta citação do filme Videodrome (1983) de David Cronenberg “The battle for the mind of North America will be fought in the video arena: the Videodrome. The television screen is the retina of the mind’s eye. Therefore, the television screen is part of the physical structure of the brain. Therefore, whatever appears on the television screen emerges as raw experience for those who watch it. Therefore, television is reality, and reality is less than television. Se uma imagem parece poder produzir uma experiência, é desse modo que “produz o mundo” como preconizam os excertos do contra mundum? É a intenção com que é produzida, a estética ou um misto de ambas que faz com que tal aconteça?

Outras questões se levantam e que se prendem sobretudo com o termo “mediação”. O acto de mediar envolve subjectividade, interpretação, alguns autores refutam influenciar, comentar, ou a inclusão da sua própria verdade subjectiva (veracidade), contudo a riqueza da fotografia documental parece residir também na sua capacidade (qualidade) para interpretar. Poderá ser desequilibrada a interpretação que assume foros demasiado subjectivos, perdendo em objectividade, mas o contrário também pode ser verdade, os mecanismos de interpretação parecem falhar quando perseguem uma lógica de extensão em detrimento da profundidade, de verdade em detrimento da veracidade, de objectividade contra a subjectividade, quando uma interpretação ampla tenderá a conter um equílibrio entre estes dois pólos.

Quando se fala no constante bombardeamento visual a que estamos sujeitos, residirá essa trágica metáfora na quantidade ou na qualidade da interpretação/mediação/representação dessas imagens? Do lado do receptor está sempre a possibilidade de recusa, uma recusa inteligente que visa não apenas proteger, mas sobretudo criar/produzir outra realidade diferente da que por vezes é proposta e que (amiúde) de forma passiva se assume como adquirida, determinista e imutável.

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Comments:

lion
December 4, 2009

gosto desta geometria do desperdicio emoldurada a partir do teu e nossos olhares

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