da moralidade na fotografia

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©geert van kesteren, da série “why mister, why?


Sobre a necessidade de conhecer a posição moral do fotógrafo em relação ao tema socialmente significativo que fotografa e mostra, este “Uprooted from the Real: Photographers without a stance“, levanta algumas questões relevantes. Um delas, tem a ver com o próprio carácter ambíguo da imagem fotográfica, naturalmente ajudará a aclarar essa posição se existir texto escrito/entrevistas, etc., sobre esse material mostrado, mas sem acompanhamento, determinado tipo de fotografia parece não ter capacidade per si para revelar a “moral” do fotógrafo sobre o assunto.

O artigo parece questionar os testemunhos que se dizem a-morais, ou que não julgam, que são isentos de preconceito, o que, a corresponder a uma real atitude interior, seria provavelmente a atitude mais equililbrada perante o mundo, também digna de nota como aspiração espiritual. Esse tipo de testemunhos aparentam estar a ser levados a cabo sobretudo por fotógrafos mais novos, que desse modo parecem pretender vincar um afastamento em relação ao julgamento e à crítica fácil – generalizados nas gerações mais velhas – mas cuja atitude pode também ser tomada como um escudar-se na ambiguidade da fotografia, para não ter que tomar ou exibir partido. É também junto das gerações mais novas que se tende a manifestar uma crescente descredibilização da política, com o consequente afastamento da mesma. Resta saber se ao mexer/fazer/exibir imagens se não está a fazer política, e a este respeito ver “Não se pode mexer nas imagens sem fazer política“, onde se alude ao trabalho do filósofo francês Georges Didi-Huberman. A posição de suposta neutralidade, se tomada como mero argumento de marketing, pode ser considerada como uma posição falsa, preguiçosa e desmotivadora, contudo, talvez seja importante o facto de já existir uma intenção no sentido de uma postura moralmente mais equílibrada. Convém no entanto perceber que o facto de alguém opinar ou avaliar determinado assunto, não significa necessáriamente que se tenha de esperar concordância geral, sendo de considerar que o espectador possui inteligência própria para se poder distanciar do que lhe é mostrado ou transmitido, formando a sua própria opinião.

Importaria perceber quel é a moral que está por detrás da aspiração a saber da moral do outro. Em que é que esse conhecimento é relevante para a apreciação da fotografia? Qual é a necessidade que o editor/leitor tem de saber a legitimação moral do fotógrafo sobre a mesma para ver a obra? Será suficiente o facto do fotógrafo se mostrar “preocupado” e aspirar a mudar o mundo, para que se considerem esses factores como legitimadores? Aspirar a mudar o mundo, através da fotografia ou de outra coisa qualquer é algo de moralmente relevante? Para a moral de quem?

A esse propósito vêm-me à memória a curiosa história de um médico haitiano que, sendo conhecido pelas curas milagrosas  que efectuava, foi convidado para trabalhar num hospital psiquiátrico. Ao fim de algum tempo, os doentes iam milagrosamente saindo até que o hospital encerrou por falta de clientes. O aspecto curioso é que esse médico não passava quase tempo nenhum com os pacientes, não fazia qualquer movimento para os tentar curar ou modificar, pelo contrário, apenas se limitava a pedir perdão a si mesmo e a afirmar perante si que aceitava, amava e curava a parte nele mesmo que via aquela pessoa como doente, ou seja, via a doença como algo que estava dentro de si, no seu acto de percepção. Por muito mística, esotérica ou desconsiderada que possa ser essa posição, não deixa contudo de ser relevante que a postura que ressalta na grande maioria dos casos seja totalmente oposta, é o mundo que está errado, o exterior, nunca o interior, e portanto é esse exterior que deve ser mudado, aspiração na qual, a avaliar pelos resultados, a fotografia, mesmo aquela que se diz “preocupada”, não tem conseguido lograr grandes resultados. O mundo parece mudar mais a partir de dentro do que de fora, pelo que a moral de mudar o mundo, pode andar a partir das premissas erradas.

Esta tem sido uma problemática debatida de tempos a tempos, sobretudo desde o aparecimento do termo “fotógrafos preocupados” e da “câmara como testemunha”, e embora o género tenha vindo a produzir trabalhos de excelência, dando origem a documentos importantes e contribuindo notoriamente para outras visões da história, o facto de se conhecer o pendor moral do fotógrafo em relação ao trabalho que apresenta, parece ainda estar longe de poder aspirar a um pódio moral, quer como critério de validação da imagem, quer fornecendo respostas que sejam amplas e satisfatórias para outras questões. Isso não impede que este seja um assunto relevante, sobre o qual importará reflectir e debater.

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