De que é que falamos, quando falamos de fotografia?

Algumas das exposições actualmente em cartaz em Lisboa, aludem directamente à questão em título. Jochen Lempert com Trabalho de Campo na Culturgest, é uma delas, recorrendo a processos aparentemente simples e exibindo de forma modesta, coloca o espectador perante a sua própria expectativa, abalando convenções e convicções, é isto a realidade, é possível evidenciá-la em fotografia, numa espécie de questionamento em circuito fechado que parece sempre remeter mais na direcção daquele que vê do que propriamente sobre aquilo que está a ser visto. Embora pudesse ser visto sob a capa do conceptualismo na vertente da recusa do estético e da estilização em detrimento do ontológico, este trabalho parece apresentar uma poética própria que o distancia da frieza analítica, além do mais, pouco se socorrendo do apoio da linguagem para se “explicar ou da vontade ou necessidade de comunicar idéias ou conceitos.

Com Rodrigo Tavarela Peixoto e Aparelhos Breves na Galeria Sopro, em Lisboa, parece ser colocada em causa a função do objecto e também a noção de finalidade da arte (a cenoura à frente do burro…), para que serve, o que é, apenas existe aquilo que tem uma função? A noção de foto-escultura é patente, sublinhando a contradição entre a forma e a função, utilidade e ornamento, e tal como na exposição anterior, alguma aproximação à pintura, neste caso no modo como a luz cai no still life.

Na galeria Pente 10, em Lisboa, o fotógrafo ucraniano Alexandr Glyadyelov com The Prison Within, um pouco diferente das propostas anteriores, esta talvez mais reconhecível como “fotografia”, face ao âmbito profusamente ilustrado e divulgado do fotojornalismo artístico, em jornais, revistas, prémios, etc. O documentário social tem características próprias que o distinguem e valorizam, a actualidade do tema, a ética, o humanismo, etc, contudo na utilização do preto e branco, é hoje práticamente impossível distinguir entre fotógrafos, Garry Winogrand, William Klein, Henry Cartier-Bresson, Robert Capa, James Nachtwey, firmaram o idioma desta categoria fotográfica, pelo que é sobretudo através da identificação do tema, que se faz a separação entre autores. Porém, a profundidade com que é trabalhado, a proximidade e a sensibilidade do fotógrafo e quiçá, a ubiquidade da presença mediatizada, são os factores que o tornam talvez no mais apetecido registo fotográfico, pelo grande público. Nesta exposição, são apresentadas visões da vida nas prisões na Rússia e Ucrânia, de meninos de rua e da toxicodependência.

No Museu do Oriente, Topologias, de Edgar Martins, que está também exposto, como nomeado, na exibição do prémio Bes Photo 2008, no Museu Berardo. Alguns excertos: «Ele (o trabalho) focaliza-se nos espaços onde se vislumbra a polaridade entre o espaço construído e o espaço natural. É um trabalho baseado em metáforas muito simples. À primeira vista, penso que poderia dizer-se que lida essencialmente com dois temas: o impacte do modernismo no meio ambiente e a fotografia enquanto processo de representação. O meu trabalho é auto-referente, ou seja, comunica ideias sobre o quão difícil é comunicar (…) Quando as coisas são simples, as pessoas são levadas a comprometer-se com o trabalho. Também me agrada partir do princípio de que a minha obra as leva a reflectir na fotografia como um processo. Os meios de comunicação tornam-nos muito passivos em relação à imagem visual. O que eu pretendo verdadeiramente é que as pessoas se comprometam cada vez mais com a imagem e com o ambiente exterior.»;

Sobre a série representada na imagem exposta (O Teórico Acidental): «Todo o meu trabalho que envolve a noite lida com a questão da representação através da ausência.(…)Estou interessado no aspecto teatral das imagens, na performance, mas não no sentido tradicional da palavra. Estou interessado em representar a performance do mundo consigo próprio enquanto conjunto de processos e factos.(…)Muitas vezes perguntam-me se estas fotografias são feitas com recurso a pequenos cenários de estúdio. A ambiguidade é importante porque confere ao trabalho um lado teatral que é o que dá vida às imagens. A luz misteriosa é uma característica que une todos os trabalhos nocturnos e um dos aspectos que transmite uma carácter surreal a estas obras.(…)Haverá pessoas que vão considerar que são controladas digitalmente – mas a verdade é que não são. Não há qualquer intervenção da minha parte, para além do enquadramento.»

Este trabalho de Edgar Martins aponta para uma simplificação dos códigos estruturantes da linguagem conceptual (e convencional) na fotografia, ainda que não deixa de ladoa noção de explicação da arte, contudo o objectivo é aproximar, não distanciar, num atitude que talvez apressadamente se possa designar de pós-conceptualista. Karl Popper tem uma posição muito semelhante sobre a linguagem, tornando-a difícil, leva-se à incompreensão e ao abandono, Einstein, por sua vez falou na diferença entre simplificar e tornar simplório. O artista parte de algumas das convenções idiomáticas da fotografia, sem perder de vista o aspecto ambivalente da representação/simbologia da imagem, na série Paisagens do Além, reverte para o aspecto belo e sublime, ancorando a perspectiva da morte e da mutação, partilhando com Roni Horn o fascínio pela Islândia,; na série O Teórico Acidental, o aspecto representacional faz-se também pela ausência, o que pode ser revelado pela escuridão; em O Ensaio do Espaço, a narrativa sobre o impacto do fogo na floresta portuguesa, que embora reflectindo sobre a impotência, apresenta também a capacidade de regeneração, o mito da Fénix; em Aproximações, o contacto com os Terrains Vagues, em que à semelhança com John Gossage se fazem experimentações formais, neste caso de luz.
Na escolha do título Topologias, pode ser entendível a associação com a corrente americana designada como “novos topógrafos”, com quem parece ser partilhável uma visão artística objectiva, apoiada em rigor formal, analítico, quase parecendo tabelar em Robert Adams no acto de apreciação da beleza ao mesmo tempo ambicionando à mudança social, estetizando, sem no entanto deixar de remeter para uma realidade que é mais complexa que aquela que qualquer imagem pode abarcar.

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