e pur si muove

Não desejando entrar em polémicas ou contradizer o António Lopes, gostaria no entanto de adir ao que escreveu em Por cá…nada se move. Se bem percebi, fala de alguma falta de capacidade de renovação e actualização da fotografia portuguesa, bem como da exigua quantidade de valores que há para mostrar, citando a excepção que é Jorge Molder, com a qual aliás concordo, não no sentido de que é uma excepção, mas antes pela valia da sua obra.

Quanto a facto de não termos uma mão cheia de “mostráveis” que possam ser relevantes para a fotografia contemporânea portuguesa, talvez possa aqui acrescentar uma breve nota pessoal, a qual aliás não apresentará nada de novo, pois tratam-se de nomes que todos os que estão ligados à fotografia em Portugal têm obrigação de conhecer. Em primeiro lugar, creio que Paulo Nozolino, embora fiél a uma linguagem que muitos poderão considerar datada, é, para mim, e ao contrário desse pensamento, um clássico, cuja fotografia responde sempre a um elevadíssimo grau de exigência estética e ética, que não passa de moda porque provavelmente nunca nela esteve. José Manuel Rodrigues, pelo que se conhece e que foi superiormente revisto na retrospectiva em Évora do ano passado, poderia ser outro nome a incluir, pese embora a menor visibilidade dos últimos anos. Na vanguarda dos usos fotográficos temos José Luís Neto, embora não se possa falar dele como fotógrafo no sentido mais literal do termo, o mesmo se podendo dizer de Vasco Araújo, contudo são dois criadores cuja originalidade e capacidade de assumir riscos são inteiramente de apoiar.  Poder-se-ia falar de Edgar Martins, nome talvez agora menos consensual devido aos “maus usos” do marketing, mas cuja fotografia exibe uma qualidade que ultrapassa os déficits de legitimação com que defende a sua obra. Também alguns dos membros do colectivo Kameraphoto, pois dentre eles existem autores que actualmente exibem excelência técnica, estética e capacidade de integração de novas linguagens e abordagens.

Depois, existe um conjunto de autores cuja existência anda em volta do formato “fotografia-como-arte-contemporânea”, que tem os seus próprios meandros e fórmulas, que parecem encontrar nesse nicho de mercado um sentido artístico e existencial. É neste grupo, que porque estudou e tem know-how artistico, que em minha opinião poderia residir o maior nicho potencial de toda a fotografia portuguesa, mas de modo estranho, nele raramente se vislumbra algo de entusiasmante estética e/ou conceptualmente. Contudo considere-se que será deste núcleo que se pode esperar o maior protagonismo no presente e num futuro próximo, pelo que alguns representantes desta categoria seriam sempre de evidenciar. Alguns nomes que pertencem a este “nicho” artificial e superficialmente criado por mim, poderão ser Augusto Alves da Silva, António Júlio Duarte, Paulo Catrica, Eurico Lino do Vale, João Tabarra, Daniel Blaufuks, Daniel Malhão, José Maçãs de Carvalho, Nuno Cera, etc.

Finalmente, existe um conjunto de talentos emergentes (muitos deles visíveis através das iniciativas Anteciparte, Prémio Fnac, Prémio Bes Revelação, Encontros de Braga, etc.) evidenciando qualidade assinalável, fruto muitas vezes da “emigração” escolar e aí parece residir um dado interessante, que é o facto de quase todos os autores “que contam” no mundo fotográfico português, sejam eles consagrados ou emergentes, terem um curriculo académico ligado à fotografia ou às artes, usualmente prosseguido por estudos pós-graduados efectuados no estrangeiro. Os seleccionados para a iniciativa Emergentes dos Encontros em Braga, onde também estive, várias vezes foram questionados sobre os estudos fotográficos, portanto é de assumir que essa seja uma questão relevante. Talvez não tanto para a avaliação do trabalho fotográfico em si, mas provavelmente para a aferição do potencial de cometimento e de entrega do candidato, da sua capacidade para formulação de um discurso e prática coerente e consistente ao longo do tempo, pois que a validação artistica é feita no longo prazo e não no curto, como muitos autores que viveram na penumbra e penúria (não) tiveram oportunidade de perceber.

Reconhecendo que por cá não se possa falar em “estrelas” da fotografia mundial – o emprego do termo “estrelato” sendo reconhecível metafórica e irónicamente como alguém que vive da imagem – ainda assim creio que existe qualidade suficiente e propícia a uma representação ampla, de consagrados a novos valores, provenientes das várias “fotografias” que por aí se fazem. Mas existirá essa vontade por parte dos diferentes actores do meio? Do lado oficial, o apoio à imagem parece estar a falhar de forma continuada: a LisboaPhoto não vingou, os Encontros da Braga ainda no ano passado ficaram por realizar, Coimbra finou-se à muito; mesmo agora que pululam as bienais de fotografia (Sintra, Vilfa Franca, Montijo, Coruche), tal parece na maioria dos casos nada trazer de novo ou positivo, excepto para os premiados “a metro”; o IPF, o CPF e outras entidades parecem ou não ter meios (o mais provável) ou não ter estamina para dinamizar, ou mesmo falta de conhecimento e profissionalismo curatorial para avaliar e promover. Embora o post vá um  pouco em contra-corrente àquilo que o António escreveu, volto a notar que essa é a opinião dele e esta é a minha, ambas são só opiniões, ainda que haja quem goste de defender as suas como se estivesse a defender uma caixa-forte. Quanto ao momento em que fala da “incapacidade de actualização da fotografia portuguesa”, é um frase forte mas sintética, pelo que seria interessante lê-lo de forma mais aprofundada sobre este assunto.

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