Entrevista com Hernâni Faustino

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Existe em Portugal um conjunto de autores, que além da expressão artistica pela qual são vulgarmente conhecidos utilizam outras vias de expressão, nomeadamente a fotografia, que de algum modo exploram em paralelo aos seus trabalhos principais. Hernâni Faustino é o primeiro nesta série de entrevistas a ser indagado acerca das possiveís conexões e motivações destes cruzamentos de linguagens, no caso entre a música e a fotografia. Trata-se de um profundo conhecedor do Jazz, sócio fundador da loja de jazz Trem Azul, com ligações naquela que é também a editora portuguesa com maior protagonismo na cena jazz internacional, a Clean Feed. A nível musical surge-nos na faceta de contrabaixista ligado ao jazz de improvisação, mas ultimamente tem-nos revelado uma outra faceta, a de fotógrafo. É comum na linguagem jazzística sobretudo mais ligada às correntes Bop (bebop, neobop, hardbop, freebop, etc) a noção de “respeito” pela tradição, situação que não parece tão visível nos músicos mais ligados ao movimento free improv que por vezes nem sequer se identificam como músicos de jazz. Sublinho essa noção, não pela necessidade de catalogação da fotografia aqui apresentada, mas porque pese embora  as influências fotográficas citadas, em nenhuma delas parece a fotografia de Hernâni Faustino assentar de modo claro ou definitivo, provavelmente devido a essa aitude do “quebrar de regras”, de expressão criativa mais livre ou até abstracta, quiçá herdada ou conotada também com o movimento de improvisação no jazz, no qual Hernâni Faustino tem vindo a cultivar alguma da sua música.

ABP- Hernâni, tenho vindo a acompanhar alguma coisa do teu trabalho fotográfico embora ainda não tenha tido o prazer de ouvir o teu projecto musical, brecha essa que espero colmatar em breve. Fala-nos um pouco da origem da tua veia fotográfica.

HF – É uma origem muito intuitiva! O meu interesse pela fotografia surgiu por volta dos 14 anos quando recebi a minha primeira máquina, uma Kodak Instamatic, era uma máquina muito simples, mas fez nascer em mim um grande interesse pela fotografia. Anos mais tarde comecei a usar a minha primeira reflex, uma Zenit-e , uma máquina fabricada na ex-União Soviética totalmente manual, que me permitiu explorar e aprender (à custa de muitos rolos estragados é certo) trabalhar tempos de exposição, profundidade de campo, focagem, etc. Com esta máquina que ainda possuo, comecei a estar a par das imensas possibilidades das objectivas.

ABP- Que autores ou correntes da fotografia te influenciam ou influenciaram?

HF – Acho fascinante as primeiras imagens e toda aquela envolvência misteriosa que as rodeia. Gosto imenso de Edward J. Steichen, Alfred Stieglitz, William N. Jennings, Paul Strand, André Kertész, Lee Friedlander e muitos outros. Penso que de uma certa forma sou influenciado pelas mais variadas correntes e autores, embora não goste de os catalogar. Confesso que tenho um certo fascínio por longos tempos de exposição e imagens difusas….gosto muito do trabalho da Francesca Woodman, Miroslav Tichý, Paulo Nozolino, Jorge Molder e da Helena Almeida, ou das concepções do Saudek, e acho espantoso o trabalho conceptual dos fotógrafos Robert and Shana ParkeHarrison e do Joel-Peter Witkin.

ABP- Mistura o teu jazz e a tua fotografia, o que sai?

HF – Para mim o jazz é improvisação. A relação entre a minha música e a fotografia é completamente intuitiva, ou seja não determino ou estabeleço regras para conseguir uma determinada imagem, embora seja um pouco difícil fazer esta analogia. Mas provavelmente ficará mais visível uma parte de mim através destas duas formas de arte…desenhos com luz e som.

ABP- Que paralelos encontras entre estas duas formas de expressão?

HF – Encontro vários paralelos!Como forma de arte as abordagens são diferentes, embora eu veja nelas algumas semelhanças. Eu sou um improvisador! A música que eu toco é na grande maioria das vezes improvisada, sem rede, quanto muito poderão existir pequenas estruturas ou por vezes pequenos motivos que são desenvolvidos na improvisação. As minhas fotos seguem o mesmo princípio, são intuitivas, nunca sei muito bem o que vai acontecer, gosto de improvisar com a máquina fotográfica, correr riscos, explorar a velocidade, congelamentos, excessos de luz…enfim acho que de uma forma muito pessoal encontro muitos paralelos entre a minha fotografia e a minha música.

ABP- Fala-nos agora um pouco do teu trio RED, sei que gravaram há pouco.

HF – Estou muito contente com o trabalho desenvolvido com o RED trio. O grupo tem um ano de existência e durante este período demos alguns concertos e o projecto ganhou uma linguagem própria e uma consistência e coerência como grupo. Conseguimos encontrar uma unidade no nosso som e isso é fantástico. O pianista Rodrigo Pinheiro e o baterista Gabriel Ferrandini são músicos com imensas qualidades e antes do mais são excelentes pessoas. Estivemos durante 3 dias em Julho no Fundão, no auditório da Moagem a gravar o nosso primeiro disco. Foi um processo descontraído e gravamos sem qualquer tipo de pressão, o que é excelente.

ABP- Tens também participado noutros projectos musicais…

HF – Habitualmente toco na Viariable Geometry Orchestra dirigida pelo violista Ernesto Rodrigues. Durante este ano gravei dois discos para a editora Creative Sources, um deles acabou de ser editado, é uma composição para string trio + doublebass do compositor alemão Nikolaus Gersewski, intitulado Ordinary Music vol. 3, o outro foi com o guitarrista escocês Neil Davidson, Ernesto Rodrigues e o Guilherme Rodrigues, este deverá ser editado na primavera de 2009. Estes projectos musicais são particularmente interessantes para mim, uma vez que a música percorre sonoridades bem distantes do que habitualmente se ouve na improvisação convencional. Toquei a convite do Rafel Toral no seu Space Trio.

Colaboro também com o octeto A Parte Maldita, com os músicos António Chaparreiro, Nuno Rebelo, Rui Alves, Fernando Fadigas, Miguel Sá, Abdul Moimeme e Jorge Serigado. No final do ano tive o previlégio de tocar na festa de aniversário dos 60 anos do Carlos Zíngaro e de tocar em trio com o Vítor Rua.

ABP- Projectos futuros para as tuas artes?

Como sabes sou um fotógrafo amador. Não tenho grandes preocupações nem pretensões com a minha fotografia, espero continuar a fotografar e talvez um dia poder expor algumas delas. Em relação ao futuro, espero evoluir cada vez mais de forma natural e sem grandes preocupações técnicas, pois acho que se aprende muito com os erros. Espero melhorar um factor que para mim é determinante na fotografia: a sensibilidade e o nível artístico. Continuar a trabalhar com o RED Trio e poder colaborar em alguns dos projectos que estou envolvido. Espero poder tocar com músicos interessantes e evoluir mais como músico. Como fotógrafo, espero consolidar o meu trabalho e poder acrescentar algo de pessoal nesta forma de arte cada vez mais global. Gostaria de fazer uma exposição de fotografia em 2009.

Música ::::::::: www.myspace.com/hernanifaustino

Fotografia ::::: www.olhares.com/Costeira

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