entrevista com inês d’orey

piscina de campanhã, da série “porto interior”


Fiquei cativo da beleza das imagens de
Inês d’Orey na primeira vez que as vi, logo após a premiação no concurso “Fnac Novos Talentos” de 2007, alcançada com o trabalho “Porto Interior“. Esta subjectiva declaração de amor à primeira vista, não visa atribuir ou impôr nenhumm critério qualitativo, antes permite confortar a necessidade de partilhar aquilo de que gostamos. Surgiu a oportunidade de interpelar a autora para uma breve troca de idéias, acto ao qual gentilmente acedeu.

casa da música, da série “porto interior”


abp – Talvez a faceta mais conhecida da tua fotografia seja a de arquitectura, embora o faças de um modo absolutamente sui generis. De onde vem essa tendência e a esse pretexto, que fotógrafos te inspiraram ou inspiram.

inês d’orey – A fotografia de arquitectura é uma área relativamente recente no meu trabalho. No início do meu percurso como fotógrafa, interessava-me essencialmente por pessoas. Aconteceu trabalhar com um fotógrafo especializado em fotografia de arquitecura, quando voltei de Londres e precisava de um emprego. Gradualmente, comecei a interessar-me por espaços, de tanto os ver e fotografar. Sempre tive tendência para um tipo de fotografia mais encenada, lírica e menos documental. Admiro fotógrafos documentais, mas a minha inspiração vem pricipalmente da pintura, da ilustração e do cinema. Tento transportar esse espírito para os espaços que fotografo. Agrada-me mais a ideia de criar momentos, do que a de apanhar momentos.

a gente não come terra, mas a terra come a gente, da série “ditados velhos são evangelhos”


abp – Comecei pelas tuas imagens do “Porto Interior“, e ainda antes de conhecer mais alguns dos teus trabalhos, já a palavra poesia se associava espontâneamente dentro de mim sempre que nelas pensava, o que vim a confirmar no uso que fazes na série “nunca o verão se demorara assim nos lábios” e “soundtrack“, e também através do uso de ditados na série “ditados velhos são evangelhos“. Porquê a escolha destas formas literárias – considerando que o ditado pode estar próximo do poético – e da associação entre palavra e imagem?

inês d’orey – Interessa-me explorar o carácter ambíguo da fotografia. Se num extremo é ciência, no outro extremo é poesia. A fotografia é a selecção de um pequeno fragmento do mundo que, apesar da sua ligação à realidade, pode ser muito pouco objectiva, pessoal e íntima. A utilização de som ou texto associados às imagens, vem potenciar essa ambiguidade, altera o seu significado, diminuindo ou intensificando o seu impacto.

da série “nunca o verão se demorara assim nos lábios”


abp – Nas tuas imagens é frequente o uso de texturas. Nalguns casos poderia ser uma espécie de pele, no sentido de algo que contém algo, e noutros, talvez fazendo lembrar tela, o que as aproxima da noção de pintura, desenho ou ilustração. Em ambos os casos, as texturas parecem conferir algum suporte à imagem, é assim?

inês d’orey – Quis dar às minhas fotografias uma identidade própria. As imagens são sobrepostas por páginas de livros antigos, sendo este processo uma forma de acentuar sensações específicas que possam ser despoletadas no espectador associadas à memória de um momento parado no tempo.

casa em kaunas, da série “the last places”


abp – As tuas composições parecem dirigir-se ao espectador de uma forma muito subtil, procuras comunicar algo ou é apenas o reencontro contigo mesmo e com o mundo, aquilo que se torna visível?

inês d’orey – Penso que o meu trabalho tem um carácter muito pessoal e reflecte a maneira como eu gosto de ver o mundo. Mas este também é feito para ser visto e absorvido pelos outros. Gosto da ideia do espectador se identificar com a minha visão das coisas e que isso leve ao tipo de sensações que se pode ter ao observar uma obra de arte.

sanctuary #02, da série “soundtrack”


abp – Nalguns projectos, embora se mantenham certas marcas características, surgem dados que poderiam ser mais do domínio do autobiográfico, nomeadamente em aspectos ligados à religião, à fé, à morte, que talvez acabem por complementar uma certa faceta lírica, a qual se associa frequentemente à poesia que representa sentimentos e estados de espírito. Aparentemente, a visão que se entrevê é de sentimentos um pouco sombrios ou assustadores. De que modo é que o fotografar te facilita o lidar com esses sentimentos?

inês d’orey – Soundtrack” é a série que mais trabalha a religião, a fé e a morte, conceitos esses indissociáveis uns dos outros. Foi realizada logo após a morte do meu pai e de ter que enfrentar todo o processo de um funeral. Fotografei cemitérios e igrejas e os seus símbolos. Sempre questionei a religião e a morte sempre me assustou e, de forma a explorar a subjectividade inerente a estes temas, convidei músicos e escritores a comporem uma peça inspirada em cada fotografia. O resultado foi uma exposição em que, ao lado de cada fotografia, se podia ouvir uma música ou um texto de cada autor, dramatizando ou tornando mais leve o ambiente criado por cada fotografia. Não acho que a fotografia seja uma forma de lidar com os meus sentimentos, mas são, sim, o resultado dos meus sentimentos.

fenianos #1, da série “porto interior”


abp –  O “Porto Interior” trouxe-te o prémio Fnac Novos Talentos em 2007. Qual foi o impacto no teu percurso?

inês d’orey – Foi muito útil para algum público conhecer o meu trabalho e daí decorrerem novas encomendas.


abp –  Tens conseguido viver da fotografia que gostas?

inês d’orey – Vivo da fotografia que gosto. Divido o meu tempo entre o meu trabalho de autor e trabalho comercial, principalmente nas áreas de arquitectura e de cena.

abp –  Que te parece o panorama actual da fotografia “fine art” em Portugal?

inês d’orey – O mercado português é muito pequeno, mas a fotografia tem cada vez mais presença nas colecções de arte. Acho que para um artista ter sucesso, além de talento, tem que ter muita sorte.

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Comments:

lion
December 17, 2009

Foi bom conhecer aqui esta artista :)

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