Entrevista com Isaac Pereira

Isaac Pereira é o último dos entrevistados, de um grupo de pessoas que nos “Emergentes” de Braga partilhou imagens, experiências, imagens e como não podia deixar de ser, algum divertimento. Oriundo da área de Ciências da Comunicação e do Jornalismo, tem feito um percurso de aprendizagem em Fotografia no Ar.Co. Procura-se aqui dar uma pequena perspectiva sobre uma série de trabalhos que vai mostrando, os quais são fruto da sua “inexperiência” como faz questão de afirmar, mas que certamente se ficam também a dever a muito labor, empenho e reflexão.

abp) Donde é que vem a tua fotografia, quais são os autores que te influenciam?

Isaac Pereira) O que faço vem do começo dos meus tempos. Sempre compus imagens e registei experiências através do olhar. Tenho, como todos temos, mas receio que em mim seja obsessivo, uma película constante de imagens que desfilam no meu pensamento e que registei desde criança. Talvez por isto me sinta melhor no monocromático. Gosto do lado plural de uma imagem, na absoluta liberdade de a interpretar. Desse jogo onde se movem todos os afectos e sensações. É daí que vem a fotografia. Ela apresenta-se como uma voz. Depois há a decisiva influência de um homem que fotografou a minha família: o meu padrinho, José da Silva. A ele devo o olhar que tenho sobre mim e os meus pais, por exemplo. A ele devo ver o que de outra forma jamais poderia ser visto. A fixação da imagem num tempo tangível mas depois, com o passar do próprio tempo, tão intangível, sempre me fascinou!!! Agradam-me imagens cruas, pouco sujeitas a composições muito elaboradas, mas que se produzem no interior de um instante mais ou menos duradouro e não necessitam de muitos tripés, de muitos efeitos e fontes de luz. Mas não pretendo negar a fotografia dita “construída”, pelo contrário. Seria negar a própria natureza do meio, na medida em que toda a fotografia é construída.

Oa meus autores vêm da fotografia social dos primórdios, onde Jacob Riis, se apresenta como referência, até Lewis Hine; depois todo o trabalho da Farm Security Administration, onde pontificou Dorothea Lange; e um certo fotojornalismo que vai de Werner Bishop; Ed Van der Elsken a Walker Evans; passsando por muitos fotógrafos da Ásia como por exemplo o japonês Ihei Kimura. Aprecio imenso a obra de Sudek e Koudelka. E claro, não podiam faltar Robert Frank e Ralph Gibson. – o trabalho sobre o sonâmbulo é central – Recentemente “descobri” um olhar que me foi dado conhecer por um fotógrafo amigo, o de Michael Smartone, autor dos anos 70; há também Ralph Eugene Meatyard, e tantos outros: Brian Brake, Robert Capa. Não posso deixar de referir um grande fotógrafo português: Paulo Nozolino. Um dos fotógrafos de quem mais me aproximo, autor de imagens que em tudo têm a ver com o universo que procuro representar. Nozolino é um poeta forte.


abp) Quando dei a primeira passagem pelo teu site, a ideia que me ficou foi essa que confirmas, a de uma certa “filiação” nas imagens do Paulo Nozolino. Por um lado, em que medida é que pensas que o teu trabalho se aproxima do dele, por outro, não crês que essa forte identificação possa ser um obstáculo ou não vês o reconhecimento autoral como uma questão?

Isaac) Penso que o reconhecimento autoral é um aspecto importante. Mas só o é dentro de um conjunto de outros aspectos. Não diria tratar-se de uma “filiação”, diria antes que o meu olhar, também é cúmplice daquele olhar. É próprio das influências, é o que acontece quando observas, pela primeira vez, uma imagem de alguém. Ou se sente ou não se sente cumplicidade. É natural. Curiosamente, essa ligação ao literário, ao ficcional existiu sempre em mim, pois desde jovem que encontrei na escrita, a economia que a fotografia não me possibilitava. Desde jovem que escrevo. E os meus textos são textos carregadíssimos de imagens. E é lá, nesse lugar chamado real que elas nascem, para depois, se transfigurarem. Somos sempre tocados pelo que nos toca: pelo desejo, pela solidão, pela morte, pelo sofrimento, pela memória, pela nostalgia…por sensações fortes. Nessa medida o que fotografo está próximo não apenas do trabalho de Paulo Nozolino mas de outros tantos fotógrafos.

Penso que é assim que acontece a toda a gente, não? Há tempos, um professor disse-me, quando viu um conjunto de imagens, que encontrava muitas semelhanças com Robert Frank, por exemplo. Senti-me embaraçado porque não tenho o fôlego de um artista como ele. Mas é bom, sentir essa proximidade. Depois há o modo como se fotografa. Sou dos fotógrafos que literalmente fotografa por aí, vadiando. A minha vida só não é igual à da maior parte das vidas porque eu ando sempre com uma câmara fotográfica colada ao corpo. Sempre, todos os dias, a todas as horas. Não faço projectos “à priori” para séries fotográficas.

Não penso que estas proximidades possam ser um obstáculo ao trabalho criativo, sobretudo quando se procura estabelecer um equilíbrio entre os aspectos formais e o que as imagens propõem contar e dizer. Volto ao reconhecimento autoral: Penso que é algo que, a existir, existirá naturalmente. É algo que transportas e que a experiência te permitirá ou não, aprofundar. Não há lugar a uma obsessão pela procura da marca, se a marca já estiver dentro de ti.

abp) As séries que apresentas parecem assentar numa estrutura narrativa algo poética, aparentemente pouca ligadas a correntes estéticas “realistas” ou documentais, embora frises autores que te influenciaram e que pertencem a essas correntes.

Isaac) Concordo. O que me tenho proposto fazer é superar essa associação aparente e concretizá-la, ligando-a a um narrativa para a afastar do real. A questão sempre se colocou: o que é o real? Sucede que “o real”, para mim, é documento, e mesmo assim é documento construído. Daí que “o real”, enquanto entidade objectiva não exista. Quando muito podem existir factos, que logo são conhecidos e se transformam. Mesmo o realismo é a transposição de uma realidade aparentemente objectiva para uma esfera subjectiva e logo, mais ficcional. Acontece ser isto que me agrada em fotografia: partir de uma realidade aparente, de factos concretos, e obter uma pluralidade de sentidos, de visões do mundo, uma pluralidade reflectida na recepção dos outros e na própria recepção que eu faço. Considero essencial esta experiência de sentido. O mundo está inundado de documentos. Não digo que o documento deva ser abandonado, mas que a seu lado devem estar outros sentidos.

abp) Lendo os títulos das tuas séries, existe praticamente em todos eles uma ligação com a palavra, escrita ou falada “um incerto diário”, “sombrias palavras”, “a fala”, “estórias perdidas”, “mas não estou só, tu disseste”. Em que medida é que isso pode ajudar à definição e coerência do trabalho?

Isaac) O meu trabalho procura ser um diálogo permanente comigo e com o exterior. Julgo que, de algum modo, os títulos, que remetem sempre para um universo literário, tentam exprimir essa coerência.


abp) A fotografia não é um espelho da realidade, pode ser um processo de construção do real?

Isaac) A realidade é um conjunto de acontecimentos, de sensações e de olhares sobre esses factos, sobre essas sensações e sobre esses próprios olhares. Às vezes, brinco dizendo por exemplo que, se a realidade fosse o que as televisões nos dão a ver, então não haveria lugar ao conhecimento de outra realidade. O mesmo, em relação à fotografia e a todos os media. Neste sentido considero que tudo é um processo de construção do real, esse conceito que parece ser tão concreto mas que, se pensarmos bem, é tão abstracto. Os media são máquinas. Vivemos no meio de meios-máquinas. Meios de construção? Sim. Mas de que construção? Infinitas construções. Mas não todas iguais. Não. Felizmente. O medo é esse: que tudo tenha uma construção igual e repetida. Como evitá-lo? Pondo o teu sentimento e o teu pensamento entre a máquina e a construção que ela faz, automaticamente. Fazer com que a tua imagem seja a imagem de ti e não a imagem da máquina. É a velha questão sempre presente.


abp) John Szarkowski certa vez falou em janelas e espelhos. As imagens-janela seriam aquelas viradas para o mundo, as espelho, seriam as mais viradas para o universo interior, para o Eu, tendo também afirmado preferir as primeiras às segundas. O teu universo parece ser mais de espelho do que de janela, concordas?

Isaac) Quando fotografo não penso em termos  de janela e de espelhos. Muito menos quando estou com as imagens à frente do olhar. Contudo gosto da imagem-metafórica de Szarkowski embora não encontre nessa distinção retórica nada de especialmente delicado.  Poderia até dizer que toda a imagem é, ao mesmo tempo, um espelho e uma janela. O objecto que a imagem escolhe é sempre um espelho do sujeito que a faz. Há uma escolha. Essa escolha é um reflexo do espelho interior. Mas essa escolha também é feita a olhar para fora, pela janela do “eu”. Contudo, é curioso notar que, quer se trate de uma janela ou de um espelho, ambos emitem um reflexo. Sucede que é esse reflexo que me interessa na fotografia. O que me toca? É o espelho que me reflecte ou a janela por onde vejo? Só retoricamente creio possível esta distinção. Mas é uma distinção interessante. O que procuro é fazer com que as imagens se mostrem ao mundo, que elas próprias, em certa medida, reflectem. Mas esse julgamento, se é que existe um julgamento final e categórico, só pode ser efectuado no domínio da recepção, domínio no qual não me posso situar.

abp) Como é que vês a fotografia em Portugal actualmente?

Isaac) Observo que é necessário reforçar a defesa da Fotografia.

abp) Podes elaborar um pouco mais essa idéia? Em que é que a fotografia necessita de ser defendida?

Isaac) Da estonteante velocidade a que o lixo circula. É necessário fazer com que a fotografia esteja acima do seu tempo. E este tempo é o tempo em que tudo é reciclável. Reciclar pressupõe a existência de um ciclo de ciclos. Ora, há imagens que têm de estar acima dos ciclos temporais. Eis um perigo a que já fiz referência: o da repetição absoluta. Por outro lado é necessário continuar a reflectir sobre o estatuto da Fotografia enquanto meio de expressão artística, pensar de que modo a Fotografia é útil à sociedade. Por outras palavras, se eu quero, se tu queres, que a Fotografia seja mais do que um meio de entretenimento. Por outro lado, é importante que a Fotografia circule mais em livro e não seja votada ao espaço confinado e elitista da galeria. Dizem que as Utopias acabaram mas eu tenho uma: a de que a Fotografia deve estar na rua como objecto e sujeito de reflexão de que, já que falaste em Szarkovski, ela própria, a Fotografia, e não o seu autor, seja uma imagem-janela.


Q: Essa metáfora que empregas da “fotografia acima do seu tempo”, em que é se apoia essa visão? Deriva daquilo que vês como uma inundação de imagens sem qualidade?

Isaac) É a Fotografia que, ao invés de se preocupar com as tendências estéticas dominantes, busca, enquanto processo, libertar-se das suas amarras temporais. Uma Fotografia que fale por si e não pelo ambiente em que vive. Uma Fotografia, que, na vaga incessante de imagens que já não nos afectam, nos possa afectar, e possa, sobretudo afectar, aqueles que a vão ver, daqui a 50, 100, 500 ou 1000 anos…

Há uma Via Láctea e Galáxias para percorrer, não sei se esse percurso é eterno, não sei o que é a eternidade ou o infinito, mas posso imaginá-los e entender que só com a capacidade humana que é a capacidade de espanto, é que esse percurso pode ser agradável. Não sei se alguma vez o percorrerei, mas gostava de o fazer. Por agora tento apenas não ter medo, o que, bem vistas as coisas, não parece ser má ideia.

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