Entrevista com Kate Pollard


“Hibiscus Tattoos”, da série Passing


Kate Pollard
é uma fotógrafa americana cujas imagens privilegiam sobretudo a paisagem intíma, a familia, as relações pessoais. Conheci-a através do projecto Seven Selves, desafiando-a para algumas questões sobre o seu trabalho, a que gentilmente acedeu.

Pergunta – Fiquei comovido com a série Passing, onde mostras as reações da tua família perante a morte inesperada do teu pai. A maioria das fotografias sobre vida íntima parece deixar de fora as imagens que são vistas como um tabu, como a morte, por exemplo. Por que é que escolheste mostrá-las e, ao fazê-lo, através da perspectiva do teu pai?

Kate Pollard – O projeto “Passing” começou inicialmente como “foto-terapia” para mim. Comecei a fotografar a minha família porque estava de luto e assim virei-me para a minha câmara transformando-a numa válvula de escape para a tristeza enorme que estava a experimentar. Após a primeira imagem ter sido feita, “Hibiscus Tattoos“, comecei a sentir que não estava sózinha a fazer estas imagens. Comecei a sentir que o meu pai estava lá comigo, trabalhando através de mim para fazer essas imagens, tão poderosas que elas eram. Eu comecei a fotografar-me e à minha família como se a câmara nos estivesse a ver através dos olhos de meu pai, como se ele nos estivesse revisitando e à vida que ele deixou cedo demais. Foi também um tributo a ele, para que ele pudesse ver o impacto que a sua vida fez nas nossas. O projeto ainda está em curso.

“Waiting”, da série Passing


Pergunta – Ao ver descritas as narrativas da vida doméstica ou íntima estamos acostumados a ver alguns “erros técnicos” como flashes sobrexpostos, arrastamentos, enquadramentos estranhos, etc, e lembro
Richard Billingham “Ray’s a Laugh”, só para dar um exemplo. Esses erros parecem ser empregues como um facilitador, ou algo que poderá ligar a experiência particular ao espectador. Em “Passing“, não pareces usar esse tipo de estratégia, mesmo que as imagens mostram momentos de desespero, de caos interior e de tristeza, emoções que poderiam dar azo a empregar essas estratégias.

Kate Pollard – Eu aprecio o trabalho de Billingham e de outros como ele, mas para mim, pessoalmente, as imagens devem contar uma história e também serem bonitas. Eu quero os espectadores a sentir a emoção que eu estou a sentir, sem a distração dos erros “técnicos” a que te referes. Eu não quero que as minhas imagens se pareçam com “snapshots”, como elas são tão comoventes e tão preciosas para mim, acho que também devem ser bonitas. Cruas, mas bonitas.


“Sem título”, da série This Woman’s Movements

Pergunta – Vou citar uma frase muito bonita de Carl Jung que está no teu site, no início da série “This Woman’s Movement“, “Quem olha para fora, sonha, quem olha para dentro desperta”. Quando vejo essas imagens sinto a câmara como um intruso, como algo que não é bem recebido ou como se o movimento de “olhar para dentro do lado de fora” não fosse totalmente confortável. Também nesta série parece haver algum tipo de encenação ao contrário de “Passing“, em que pareces descrever os eventos “como foram”. Porquê isso?

Kate Pollard – Neste projeto, eu vejo a câmara como o agarrar de um momento, momento esse que é encenado. Este projecto representa-me a mim, mas também representa todas as mulheres jovens na faixa dos 20 anos e por vezes 30. É desconfortável para o espectador, talvez porque o personagem principal está desconfortável na sua própria situação. Ela está se sentindo impotente dentro de sua própria vida, à medida que as coisas, pessoas e atividades giram em torno de si. Ela está no meio do movimento, mas sente-se distanciada e impotente perante a sua própria situação. As cenas encenadas eram necessárias, porque estava representando as mulheres como eu, sentindo-se perdidas nos seus 20 anos. Eu não quero que seja um trabalho completamente pessoal, por isso encenei algumas cenas relacionadas com a minha vida, mas também relacionados com a vida de muitas outras mulheres que conheço. Passing foi muito pessoal, e eu queria ser totalmente honesta com as minhas imagens por causa disso.

Pergunta – Onde é que está a Nan Goldin na tua vida fotográfica?

Kate Pollard – Gosto muito do trabalho da Nan Goldin. Não diria que ela me inspirou ao longo dos anos com o meu próprio trabalho, mas eu gosto da qualidade crua e honesta que ela retrata nas suas imagens.

“Sem título”, da série This Woman’s Movements

Pergunta – Quais foram as tuas influências?

Kate Pollard – São muitas as pessoas que me têm influenciado. A minha mãe montou um laboratório na cave quando eu tinha doze anos e ensinou-me a usá-lo, depois dela ter feito um curso de fotografia. Foi essa influência que acendeu a minha vida fotográfica. Elinor Carucci é uma fotógrafa favorita, que continua a inspirar-me com as suas incríveis imagens centradas na família. Além disso, Jo Spence, fotógrafa britânica que me inspirou com as suas idéias sobre foto-terapia, utilizando a fotografia como uma ligação direta para a cura. Também trabalhei para um casal, ambos artistas: Larry Fink e Martha Posner, que me inspiraram a perseguir os meus sonhos e viver a vida que quero viver, como artista e professora. Por último, mas não menos importante, como professora da faculdade, acho que osmeus alunos me inspiram a cada dia.

Pergunta – Qual é que achas ser a maior questão sobre a fotografia actual?

Kate Pollard – Acho que a maior questão relativa à fotografia actual (se é boa ou má, é algo para debatee), é a acessibilidade da mesma. Todo a gente tem uma câmara, todos podem fazer imagens, seja em seu telefone móvel, ou nas suas compactas “point and shoot”, ou nas suas câmaras profissionais. A facilidade e acessibilidade é algo ao mesmo tempo emocionante e assustador para mim.

Links:
Kate Pollard
[sp] seven selves
YouTube – “Passing” by Kate Pollard @ Edinburgh Art Festival 2009

Dado que a entrevista foi conduzida em Inglês, transcreve-se o original.

Question: I was really moved by your “Passing” series, where you depict your family reactions to the unexpected death of your father. Most of the intimate life photography seem to leave out images that are perceived as taboo, as death for example. Why did you choose to show them and in doing it, why through your father’s perspective?

Kate Pollard – The Passing project initially started out as “photo-therapy” for me. I started photographing my family because I was grieving and I was able to turn to my camera as an outlet for all of the tremendous sadness I was experiencing. After the first image was made, “Hibiscus Tattoos”, I began to feel as though I was not alone in making these images. I began to feel that my father was there with me, working through me to make these images as powerful as they were. I began to photograph myself and my family as if the camera was seeing us through my father’s eyes, as he was revisiting us, and also as he was revisiting the life that he left too soon. It was also a tribute to him, so he could see the impact that his life made upon our lives. The project is ongoing.

Q: In depicting narratives of domestic or intimate life we’re used to see some “technical mistakes” like heavy flash, blur, weird framing, etc., and i remember Richard Billingham “Ray’s a Laugh” just to give an example. Those mistakes seem to be employed as a facilitator or something that might connect the private experience with the viewer. In “Passing” you don’t seem to use this type of strategy, even if the images show moments of despair, inner chaos, and sadness, emotions that could give field to employ those strategies.

Kate Pollard – I do appreciate Billingham’s work, and other work like it, but for me personally, imagery must tell a story and also be beautiful. I want viewers to feel the emotion that I am feeling, without the distraction of the “technical mistakes” you are referring to. I don’t want my images to feel like quick snapshots, as they are so poignant to me, and so precious, they must also be beautiful. Raw, but beautiful.

Q: You quote a very beautiful phrase from Carl Jung, “Who looks outside, dreams; who looks inside awakes”, at the beginning of “This Woman’s Movement”. When I see those images I feel the camera as an intruder, as if it was not welcomed or if the movement of “looking inside from the outside” was not entirely comfortable. Also in “This Woman’s Movement” there seems to be some sort of staged scenes, unlike “Passing” which seem to depict events “as they were”. Why this?

Kate Pollard –
In this project, I see the camera as grabbing a moment, a very staged moment. This project represents me, but more so it represents all young women in their 20’s and sometimes 30’s. It is uncomfortable for the viewer, perhaps because the main character is uncomfortable in her own situation. She is feeling powerless within her own life, as things, people, and activity moves around her. She is in the middle of the movement, but feels detached and powerless in her own situation. The staged scenes in This Woman’s Movement were necessary because I was depicting women, like myself, feeling lost in their 20’s. I did not want it to be completely personal, so I staged scenes that related to my life but also related to the lives of many other women I know. Passing was very personal, and I wanted to be completely honest with my imagery because of that.

Q: Where is Nan Goldin in your photographic life?

Kate Pollard – I love Nan Goldin’s work. I wouldn’t say that she has inspired me over the years with my own work, but I enjoy the raw quality and complete honesty that she portrays in her imagery.

Q: Can you talk a little about who might have influenced you?

Kate Pollard – Many people have influenced me. My mother set up a darkroom in my basement when I was twelve years old and taught me how to use it, after she had taken a photography class. It was this influence that ignited my entire photographic life!
Elinor Carucci is a favorite photographer of mine, and she continues to inspire me with her amazing family-centered images. Also, Jo Spence, the British photographer inspired me with her ideas about photo-therapy, and using photography as a direct link to healing. I worked for a married couple, who are both artists: Larry Fink and Martha Posner. They both have inspired me to pursue my dreams and to live the life that I want to live, as an artist and teacher. Last, but not least, as a college professor, I find that my students inspire me every single day.

Q: What do you think is the big issue concerning photography today?

Kate Pollard – I think the biggest issue concerning photography right now (whether good or bad is up for debate), is the accessibility of it. Everyone has a camera, and everyone can make images, whether it be on their mobile phone, or on their point-and-shoot cameras, or on their expensive professional cameras. The ease and accessibility is both exciting and scary for me.

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