Entrevista com Miguel Godinho

Já há algum tempo que estava combinada esta entrevista com o Miguel Godinho, vencedor da última edição do concurso de fotografia “Fnac Novos Talentos”, mas questões de disponibilidade de ambos impediram que a mesma se concretizasse antes. A interacção Homem-Natureza tem sido a sua principal matéria prima, numa temática que embora amplamente dissecada em diversos quadrantes da fotografia, surge aqui plena de interesse e oportunidade. Fica desde já a gratidão ao Miguel, por ter aceite partilhar as suas idéias nesta pequena entrevista.

©Miguel Godinho, da série “Mimesis”

abp) Miguel, começamos pela série Mimesis, que te granjeou o 1º prémio do Fnac Novos Talentos. A imagem de abertura da série no teu site parece estabelecer uma espécia de “cortina” de entrada para este trabalho, como num palco que ao abrir-se revela o que está por trás, mas que é ao mesmo tempo ela própria uma revelação daquilo que se vai ver. A fechar a série, mais uma cortina, qual “fim do espectáculo”. Paradoxalmente, nada parece existir de espectacular, mas esta maneira como abre e fecha a série parece sugerir uma relação com a espectacularidade, ou então com o adorno decorativo, em que o kitsch é ele mesmo um espéctaculo, uma forma de representação.

Miguel Godinho) Realmente não existe nada de espectacular, tudo o que represento nas imagens são meras representações do real, nada foi alterado, nada foi construído. Com a série “mimesis”, represento de uma forma documental a imitação da natureza, toda ela criada e explorada pelo Homem, e nesta série verifica-se mais uma vez a necessidade que o Homem sente em envolver-se com a natureza, seja no jardim, no espaço natural, ou até mesmo com os objectos que as pessoas têm dentro ou fora de casa, que contêm algo que represente a natureza.

abp) Nas antipodas do Romantismo, a Natureza não aparece aqui como uma coisa artisticamente inspiradora, isto no sentido de que na sua maioria são imagens que apresentam a natureza através de objectos banais, do dia-a-dia. Como em tudo, são conceitos que decorrem de experiências representacionais, mas como é que eles podem concorrer para o sentido e a coerência deste trabalho?

Miguel Godinho) Boa pergunta. Limitei-me apenas a documentar o modo como construímos actualmente a nossa sociedade.

©Miguel Godinho, da série “Mimesis”

abp) Nas imagens em que aparecem pessoas, pelo menos em duas delas, a profundidade de campo afecta a percepção de que em fundo/2º plano, lá existem “escondidos” objectos que representam a natureza. Porquê essa estratégia, algo diferente das outras imagens?

Miguel Godinho) É engraçado porque nada foi encenado, as pessoas estavam a fazer as suas coisas e lá fui eu e bati uma “chapa”. Os retratos, apesar de espontâneos, só se enquadram nesta série pelos elementos envolventes, ou seja, o Homem está sempre rodeado de tudo que represente a própria natureza.

abp) A metáfora interior/exterior insinua-se neste trabalho?

Miguel Godinho) Sim, apesar das imagens captadas no exterior representarem a relação que o Homem tem com os espaços naturais, uma das minhas intenções foi também perceber de que forma o Homem leva a natureza para dentro dos seus espaços interiores.

©Miguel Godinho, da série “Mimesis”

abp) O que é que te levou a esta série, como é que ela se constrói, de onde é que se parte e por onde se passa?

Miguel Godinho) Partiu das séries “Nature”, do meu interesse pela relação Homem/Natureza, e por ter começado a reparar que a temática da natureza está presente em tudo o que é doméstico, têxtil, decorativo. Depois de algumas leituras sobre a mimesis, e alguns textos de Walter Benjamin, a série começou a surgir, prolongando-se durante seis meses até à sua edição.

abp) Na defesa da atribuição do prémio o júri aludiu como influência possível o trabalho de Paulo Catrica. Concordas? Que outros fotógrafos tens em mente como influentes no teu trabalho?

Miguel Godinho) Antes do júri o ter aludido, não tinha Paulo Catrica como referência, no entanto, sempre achei o seu trabalho interessante. Fotógrafos influentes tenho vários , Jeff Wall, Wolfgang Tillmans, William Eggleston, embora os mais relevantes neste projecto tenham sido Martin Parr e Stephen Shore, devido à forma como documentam a sociedade e às suas composições formais.

©Miguel Godinho, da série “Nature II”

abp) Nas tuas séries mas sobretudo na Nature II aparecem frequentemente pessoas de costas para a câmara. Li noutro texto teu que além do aspecto ligado à identidade, procuras atribuir-lhes um carácter de “veículo de mensagens universais”.

Miguel Godinho) Na série Nature II, abordo a relação do homem com a natureza, como o Homem se sente quando se depara com o espaço natural. Situações de conforto, tranquilidade, harmonia. Isso verifica-se devido à situação em que vivemos hoje em dia, e que nos leva por vezes a descolarmo-nos para esses espaços (Natureza). No meu ponto de vista, toda essa vontade e prazer reflecte-se em todos nós.

©Miguel Godinho, da série “Entre Nós”

abp) A representação de uma relação com a natureza vai aparecendo com alguma constância no teu trabalho, até porque nem pareces estar a fazer fotografia de paisagem mas outra coisa diferente. É uma linha a seguir?

Miguel Godinho) Sim, porque tudo começou quando fiz a série Nature I e II e de seguida Mimesis. A paisagem natural é algo que está relacionado comigo desde a minha infância. E deve-se também ao facto de cada vez mais existir a necessidade de estarmos envolvidos com a natureza. No entanto, existe um ponto importante a referir, se não tivesse realizado o Nature, talvez não teria feito a série Mimesis. Como dizes e muito bem, “é uma linha a seguir”.

Links
http://www.miguelgodinho.tk/
http://artephotographica.blogspot.com/2010/01/mimesis.html

“Mimesis” em exibição na Fnac Vasco da Gama
Entre Nós” irá estar em exibição no Edifício Teatro da Trindade (Round The Corner) entre 22 de Abril e 2 de Maio

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