Entrevista com Sofia Silva

A ida aos Encontros da Imagem a Braga deu-me a oportunidade de conhecer pessoalmente artistas e trabalhos muito interessantes, pelo que acabei por convidar alguns deles para mostrar e falar aqui sobre a fotografia que perseguem actualmente. A Sofia Silva é uma das autoras a quem tenho de agradecer a gentileza de ter acedido ao convite formulado.

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Abp – Nestas 3 séries que apresentas actualmente como teu portfolio, um dos denominadores comuns é a mulher, embora na Haven’s Eyes não consiga identificar concretamente se todas são figuras femininas ou não. Outro dos elementos comuns que me parece existir é também algo de uma energia que é especificamente feminina – embora se encontre presente em ambos os sexos – que se pressente no acto de cuidar, de tratar, de aconchegar. O que é que procuras transmitir com este corpo de trabalho, que ideias estão por detrás dele e de que forma se inscreve nele o universo feminino?

Sofia Silva – Deixa-me começar por dizer que a série “Haven’s Eyes” está ainda muito no princípio e, não querendo desvendar o rumo que vai tomar, adianto que mais tarde o elemento feminino se evidenciará.

Quanto a essa especificidade de que falas, acho curioso que a tomes como energia. Não estou certa de que seja isso, nem que seja particular do universo feminino. De qualquer forma, tanto uma como outra série – a Take Away Roots e a Memory’s Architecture – surgem da necessidade de exercitar alguns dilemas com que me debato, que não são particulares de um ou de outro género. Acontece que uma das características do meu trabalho é o uso quase obsessivo de elementos simbólicos que podem não chegar ao receptor, caso eu opte por apresentar o trabalho sem qualquer suporte escrito. Mas voltando à tua interpretação, o que posso acrescentar é que, de facto, na composição, não só pela presença do elemento feminino mas pelos ambientes preparados, é possível subentender uma fragilidade mais característica das mulheres, ou um carrossel de emoções que é comum associarmos à mente feminina. Claro que há depois uma gestualidade que se compreende como indício, resultado da história visual que temos adquirida e que depois eu tento transformar, de forma a acrescentar algo a esse discurso. Acho que o que une o trabalho de algumas autoras não é tanto as temáticas a que se entregam, mas sobretudo a forma como escolhem abordar a sua intimidade, ou melhor, o facto de não haver receio de o fazerem e nisso consigo rever-me.

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Abp – Em Take Away Roots e Memory’s Architecture és tu quem surge representada nas fotos. Afirmas tratarem-se de questões interiores tuas, portanto são séries que trabalham a identidade e a auto-percepção. De que forma é que a auto-representação contribui para um melhor entendimento acerca dessas dinâmicas e em que medida é que essa representação enriquece o teu trabalho? Faria sentido ser fotografada com outras pessoas?

Sofia Silva – Não faria sentido nenhum serem outras pessoas. Ao mesmo tempo que encarno o personagem fotografada, lido com esses mesmos dilemas, por isso passo por uma experiência interior que me é necessária para continuar, Tenho de sentir que foi o meu corpo que passou por aquilo senão sinto que fica a faltar qualquer coisa. De qualquer forma, para o espectador, creio que isso não seja decisivo ou particularmente importante para a compreensão do trabalho, muito embora daqui a uns anos possa pensar de forma diferente. Na leitura de portfólios, em Braga, o Marc Vausort disse-me exactamente isso, que se o meu trabalho continuar a seguir esta linha, daqui a uns anos deixarei de ter temáticas separadas porque o cerne do trabalho será essa reflexão sobre mim própria. Não tenho certezas sobre o que está para vir, mas sei que ainda tenho muito a explorar no campo da auto-representação.

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Abp – Na série Memory’s Architecture, parecem estar em causa um conjunto de impactos derivados da abstinência alcoólica bem como possíveis estratégias para lidar com essa questão. Quando me falas que ao pensar, construir e te fotografares nestas séries, estás a lidar com a essa dinâmica interior, isso faz-me lembrar algo de uma técnica
terapêutica que se chama psicodrama. Podes falar um pouco sobre como foi a pesquisa para este trabalho e de que forma efectivamente sentes que todo esse percurso à volta da construção da série foi terapêutico para ti?

Sofia Silva – Como dizes, essa série surge da necessidade de reflectir sobre o álcool, tanto sobre sensações geradas pela sua presença, como sobre a angústia que fica com a ausência e com o desaparecimento de algumas memórias, de noções espacio-temporais. Compreendo que haja uma carga simbólica nesta série que precisa de subtexto, daí os títulos, que podem ajudam a compreender o significado de cada uma das imagens. Mas voltando atrás, o trabalho surge de uma pesquisa que tenho vindo a fazer não na área do psicodrama mas sim da Photo Therapy, sobretudo baseada em textos da Judy Weiser. Comecei a interessar-me pela disciplina depois de conhecer o trabalho da Jo Spence e agora estou no processo de seguir para mestrado e a partir daí aprofundar as teorias relacionadas com a Arte Terapêutica.

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Abp – Na série Take Away Roots, algumas imagens, mais do que somente cuidar, gesto que aliás já não é pequeno, parecem deixar também transparecer uma fusão com a Terra. O que é que está na base deste trabalho?

Sofia Silva – Na base deste trabalho está a premissa que lhe dá título – Aquele que não sabe amar planta raízes para levar –, ou seja nasce de um desafio que me coloquei a mim mesma de plantar sementes e de, durante nove meses, cuidar delas da mesma forma que cuidaria de uma relação humana, despendendo o mesmo cuidado, tempo e  atenção. Se elas sobrevivessem, a série seguiria com o cuidado de animais e, mais tarde, com os Homens. Como falhei nesse cuidado, a série termina ao fim desses nove meses, com a destruição das plantas. Essa relação extremada com a terra prende-se com o cuidado que queria experimentar – as plantas foram regadas com diversas substâncias e os elementos simbólicos, como os animais, estão lá pela simbologia das culturas pagãs que lhes está associada, numa última tentativa de salvar as plantações. Ao longo do projecto fui escrevendo uma série de textos sobre o processo mas ainda não decidi se os disponho para acompanhar as imagens. Não quero que isto se torne mais pessoal do que já é, por isso prefiro deixar esse espaço em aberto.

Abp – Percebendo a atenção e o detalhe que colocas nestes trabalhos é  impossível deixar de notar o quase omnipresente disparador. Como instrumento que marca o início e o fim do registo do momento fotográfico que leitura se pode fazer dessa presença?

Sofia Silva – Ele é omnipresente, fica é por vezes fora de campo. A presença do cabo disparador surgiu por necessidade e acho que há medida que fui vendo o fio a aparecer nas imagens fui-lhe encontrando outros significados, de tal forma que hoje ele surge mesmo quando não faço auto-retrato, como é o caso destas imagens que dão o mote da série Haven’s Eyes, onde o cabo é o prenúncio do que está para vir, ocupando o meu lugar, enquanto não sou o objecto fotografado. Por outro lado é também uma espécie de “elo imaginário” entre o autor e o espectador e um fio condutor do meu trabalho.

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Abp – A perspectiva feminista, ou seja as dinâmicas da igualdade, discriminação, violência, mulher-objecto, etc., não aparecem aqui como algo de vincado, embora se possam pressentir…

Sofia Silva – Vejo-me “obrigada” a simplificar a resposta e dizer que não há, na elaboração do conceito dos meus projectos, nada que se relacione com essa dita perspectiva feminina. Não falo das desigualdades de género, nem dos preconceitos estabelecidos. Acho que essas temáticas surgem quando o espectador se tenta relacionar com as imagens e entender a mensagem, porque são os preconceitos mais imediatos e como eu também não tento conduzir a leitura para nenhum lugar especifico, por vezes corro o risco de deixar que as ideias que dão origem às fotografias caiam num lugar comum. Acho que o tempo de vida de um trabalho e o percurso de trabalho de um autor permitem que essas pequenas discrepâncias de linguagem se dissipem.

Abp – Existe uma questão interessante e que focas aqui, que é a de não conduzir a análise que é feita pelo espectador. Achas que é importante que de algum modo quem vê se sinta responsabilizado por aquilo que vê, construindo o seu próprio significado, numa perspectiva que creio terá sido frisada por Jean Marc Bustamante e que é fala sobre a não-directividade do fotógrafo para o espectador? Por outro lado a recusa em produzir um “statement” ou fornecer alguma forma de explicação não pode conduzir ao naufrágio do trabalho pela especulação de sentidos indesejados feita por terceiros?

Sofia Silva – Não diria responsabilizado, diria consciente, ou seja, penso que seria importante que o espectador tomasse consciência de que a leitura é fruto da sua educação, cultura e livre associação e de que a interpretação superficial de um conjunto de imagens não é suficiente para tecer uma opinião generalizada sobre a obra de um autor. Enquanto espectadora esforço-me para ser consciente e informada, para evitar fazer esses tais julgamentos superficiais, porque acredito que grande parte dos autores cria porque tem algo a dizer. Mas isto sou eu… e tenho noção de que faço esse esforço de compreensão porque era o que gostava que fizessem com o meu trabalho. Agora, de facto, enquanto fotógrafos, temos o queijo e a faca na mão, que é como quem diz, temos o código semiótico e linguístico à nossa disposição e podemos orientar o espectador na direcção que quisermos. Eu gosto de deixar as imagens falar per si. Não me parece que se afundem sem uma explicação e se isso acontece é porque o trabalho falhou. Não podemos chegar a todos, nem exigir que as pessoas se demorem no contacto com as imagens, contudo tenho de admitir que sou particularmente susceptível a determinadas ilações, como por exemplo a de que o propósito do meu trabalho seja chocar. Que fique claro que não é, mas não sinto que tenha de me justificar.

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Abp – A fotografia tem que explicar algo ou ainda conter uma mensagem específica?

Sofia Silva – Sinceramente não acho que tenha ou que deva explicar nada. No meu caso, a fotografia tem imperativamente que ter significado, que passar uma mensagem, que ter um paralelo no campo emocional. Mas em geral, toda a imagem pode ter isto, mesmo a mais abstracta, exactamente porque o espectador é livre de acrescentar significados e outras camadas às que já lá estão. Acho que há espaço para tudo e não gosto de dogmas teóricos.

Abp – John Szarkowski produziu uma afirmação que provavelmente ainda hoje ressoa no mundo da fotografia em que falava sobre a fotografia-janela, sobre o mundo, e a fotografia-espelho sobre o universo mais pessoal e que claramente preferia a primeira à segunda. Não sei se se estaria a referir a uma certa sobre-abundância de imagens em que dominava uma certa poética interior bastante em voga nos anos 50 e 60. A avaliar pelo que pode ser visto nos Encontros da Imagem em Braga, é uma tendência que parece estar de novo em protagonismo, o que te parece?

Sofia Silva – Não foi só uma afirmação, foi uma teoria reproduzida em catálogo a propósito de uma exposição que comissariou, mas não consigo fazer uma interpretação sucinta porque seria limitativa. De qualquer forma, a fotografia contemporânea está de facto a ser pautada por esse carácter introspectivo, intimista, umas vezes melancólico e/ou nostálgico, outras crítico e/ou humorístico. Como os Encontros da Imagem deste ano se centraram no trabalho de autoras, essas paisagens domésticas podem-se ter evidenciado, mas a mulher, fotógrafa ou criativa em geral, tem sempre procurado reflectir sobre a dinâmica do corpo, sobre as fronteiras entre o que é superficial e o segredo presente na nossa intimidade. Por um lado cativa-me a forma como a Nan Goldin se nos oferece sem filtros, ou o poder que a fotografia ganha nas mãos da Jo Spence; por outro lado gosto de encenação, de revisitar as histórias em jeito de alegoria. O que não gosto é de imagens ocas, de histórias de camas com lençóis por lavar ou do imediatismo de alguma fotografia documental. De qualquer forma, a contemporaneidade fotográfica tem cada vez menos gavetas e disso gosto bastante.

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Abp –
E falando em Braga, perante o universo com que trabalhas actualmente, que pode ser identificado com muita da fotografia por lá exposta este ano, o que achaste das exposições?

Sofia Silva – Não vi nenhuma, fui e vim no mesmo dia e o tempo livre que tive passei-o com os colegas a falar de fotografia. Gostava de ter visto a da Anna Kannisto, mas foi mais importante o convívio.

Abp – Para terminarmos, que pensas da produção fotográfica contemporânea em Portugal?

Sofia Silva – Essa era a pergunta que tinha medo que fizesses… Estou claramento no gozo, mas não querendo ferir susceptibilidades, acho que por muito bem encaminhada que esteja, continua muito direccionada, e prefiro não aprofundar o assunto. De qualquer forma, sou completamente fã de alguns autores portugueses, como o Jorge Molder, a Brígida Mendes ou o Paiva e o Gusmão. Da nova geração de fotógrafos, os ditos emergentes, acho muito interessante o trabalho da Dalila Gonçalves e estou sempre curiosa para ver o que ela faz.

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