entrevista com tiago silva nunes

Conheci o Tiago Silva Nunes durante os Encontros da Imagem, em Braga, no ano que passou, onde expôs a série “Broken Strangers (Places)”, primeira parte de um conjunto de imagens sobre 5 cidades. Lisboa conhece agora a segunda parte desse trabalho, com a exposição “Os Dias que Passam” a ser actualmente exibida no Arquivo Fotográfico Municipal, da qual algumas imagens podem ser vistas, nesta entrevista amavelmente concedida.

Mais Um Dia, Algés, Portugal, 2010

Q. “Os Dias que Passam”, é o 2º capítulo de uma série de 5 que apresentam dípticos efectuados em vários locais do mundo, tendo o primeiro sido “Broken Strangers”, efectuado em Londres, que apresentaste nos Encontros da Imagem, em Braga, no ano passado. O que é que te motivou a fazer esta série, além disso, porque é que escolheste estes locais especificamente (Londres, Lisboa, Pequim, Los Angeles e Rio de Janeiro)

R. Começou tudo com a série Broken Strangers (Places) em Londres.

Nessa altura eu estava muito interessado em investigar a relação entre o aparecimento da Cidade Industrial e os Jardins Ingleses do século XVIII. Assim procurei em Londres os vestígios dessa cidade, assim como as suas materializações contemporâneas, e a sul de Londres —Kent, Surrey e Sussex— procurei os Jardins, que ainda existem em larga medida como há duzentos e cinquenta anos atrás. Pareciam-me duas expressões opostas do mesmo processo, o início da Revolução Industrial.

Eu queria explorar esse tema e esses espaços através de narrativas e de personagens, mais do que fazer um ensaio. Por isso fotografava as pessoas e os espaços que me intrigavam, que tinham um certo mistério, que me faziam imaginar histórias para além da sua evidência documental.

O que me surpreendeu à medida que ia reunindo mais imagens foi a solidão e a melancolia que atravessava todas as pessoas/personagens. Foi daí que surgiu o título, Broken Strangers (Places). Strangers, pessoas que não pertencem, que estão separadas, mesmo no meio da multidão, Broken, porque parece faltar-lhes qualquer coisa.

Quando voltei para Lisboa quis fazer o mesmo projecto, explorar o tema da relação entre as pessoas e o Urbano, entre as pessoas e a Natureza na metrópole contemporânea, a sua posição na História da Cidade, da Cultura, do Espaço. Queria descobrir as diferenças e as semelhanças, talvez começar um estudo comparativo.

No entanto foi só quando ficou concluído o projecto de Lisboa, Os Dias Que Passam, que me ocorreu fazer também outras cidades. Escolhi Pequim, Rio de Janeiro e Los Angeles. Procurei uma certa diversidade geográfica e cultural, mas também era decisivo que fossem grandes metrópoles contemporâneas onde a relação Homem/Urbano/Natureza fosse única. Pequim porque funde o Milenar e o Novo, o Oriental e o Ocidental, de modos surpreendentes e assustadores. Rio de Janeiro porque a Natureza é tão presente e monumental, mesmo no centro da cidade. Los Angeles porque a Natureza é tão ausente, existindo só nas margens, no mar, no deserto e nas montanhas.

O Encontro, Chiado, Portugal, 2010

Q. Fiquei um pouco curioso não só pela opção formal pelos dípticos, mas também pela aposição de legendas nos mesmos. Fala-nos um pouco dessa escolha.

R. Os dípticos são uma estratégia formal vinda da montagem cinematográfica, da operação de juntar duas imagens para formar uma ideia, uma história, uma emoção. Para mim o que é fascinante nos dípticos é o modo como as duas imagens se contaminam e se influenciam mutuamente a vários níveis. Eu de certo modo nem as vejo como duas imagens separadas, mas como uma relação, aberta, ambígua, que cada um de nós constrói, dá um sentido e imagina de um modo único. Como realizador e como fotógrafo este é o modo como eu penso nas imagens, através de associações, de sequências, no tempo.

Fazer os dípticos, criar as associações entre as imagens, é literalmente como um processo de montagem. Aqueles que acabo por escolher têm uma certa intenção, revelam uma certa interpretação narrativa, que fica expressa de um modo relativamente aberto no título de cada díptico. Mas o interessante é cada pessoa imaginar a sua própria relação, que muitas vezes nem é narrativa, é formal.

Picnic, Sintra, Portugal, 2010

Prisão, Lisboa, Portugal, 2010

Q. Em ambos os casos, este de Lisboa e o de Londres, parece existir a vontade de mostrar relações entre pessoas e paisagem, numa interessante ligação entre geografia, urbanismo e sociologia. Que relações é que te interessam evidenciar particularmente?

R. Os dípticos juntam sempre uma imagem de uma pessoa em acção com uma imagem de um espaço vazio, urbano ou natural. Eu acho que os espaços têm tanto como as pessoas, um lado emocional muito forte, podem ser assustadores ou serenos, melancólicos ou luminosos. Ao juntar as duas imagens estou a sobrepor duas emoções, uma registada no corpo e no rosto, a outra registada no espaço vazio. Desse modo acho que se pode dizer que procuro sempre explorar relações entre pessoas e espaços, entre gestos e ambientes, entre expressões e construções. Vem de eu ter estudado Cinema e Arquitectura, de os fundir deste modo na fotografia.

Sozinhos, Graça, Portugal, 2010

Q. Esta abordagem a diferentes cidades faz lembrar uma espécie de “cadernos de viagem”, quer na vertente literária, quer na vertente mais cronística? Concordas?

R. O projecto Broken Strangers tem como objecto de investigação cidades diferentes e distantes, tem um vínculo com o real claro, tem um lado documental inegável, mas tem um ponto de vista subjectivo muito forte, que se revela na criação das narrativas. Acho que partilha sem dúvida alguns elementos do “caderno de viagem” mas em última análise, não partilha o principal, porque não é um diário de viagem, não representa a viagem, cria antes ficções a partir de retratos, situações e espaços recolhidos num processo peripatético com um tema de investigação concreto: a relação Homem/Urbano/Natureza nas metrópoles contemporâneas.

Jogging, Lisboa, Portugal, 2010

Q. Algo que me chamou a atenção no “Broken Strangers”, tem a ver com o sub-título Diptych Portraits From The English Picturesque. Confesso que o termo “Picturesque” me provoca bastante curiosidade. Porquê esse termo?

R. Utilizo picturesque no sub-título da série Broken Strangers (Places) como referência às investigações estéticas de William Gilpin e Uvedale Price do final do século XVIII. Este último escreveu em 1796, An Essay on the Picturesque, as compared to the Sublime and the Beautiful; and, On the use of studying pictures, for the purpose of improving real landscape. Foi uma investigação desenvolvida depois da construção dos Jardins Ingleses de Capability Brown que aparecem na série Broken Strangers (Places), mas que cristaliza muitas das ideias sobre a relação entre a pintura, a paisagem, a natureza, o belo e o sublime, que foram importantes para a definição do movimento Romântico, da arte e do espaço do Romantismo em Inglaterra. As imagens e os espaços desta série têm um forte relação com a pintura de Claude Lorrain, que influenciou Capability Brown, que influenciou J. M. W. Turner, todos eles importantes referências no meu trabalho nesta investigação.

Site de Tiago Silva Nunes.

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