fotografia e realidade, parte 2/3

“Verdade, realidade, criei-as ou fui por elas inventado?” Gastão Cruz

Dois artigos interessantes, O instante indecisoO instante indeciso (2), ambos laudatórios da exposição de Augusto Alves da Silva que esteve recentemente patente em Serralves. No primeiro desses artigos, o autor desenvolve o punctum que as imagens lhe suscitaram, no segundo vai mais longe e dispensa o punctum, lançando-se numa asserção sobre a fotografia e o real.

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Philip Lorca diCorcia, série Hollywood

Nesses artigos sugere-se que a pintura e a escultura são menorizadas em relação à fotografia, pelas características de artificialidade sobre o real que convocam, enquanto que na fotografia é possível obter um “puro retrato da realidade“. Segundo o autor, essa ligação privilegiada entre fotografia e realidade baseia-se no facto que “a fotografia é um animal diferente. Sobretudo quando se despe (aparentemente, pelo menos) de encenações e de efeitos intrusivos. E quando dispensa ligações a histórias, a acontecimentos“. Na sequência desta frase é sugerida uma imagem de Philip Lorca-diCorcia, da série Hollywood, que contudo não pertence à série de fotografias apanhadas à má-fila (suponho que se refira á série Heads) pelo que parece tratar-se de um equívoco, em que se colocou uma imagem de uma série, quando eventualmente se pretenderia colocar de outra. Parece complicado justificar uma posição acerca da fotografia “que se despe de encenações e que dispensa ligações a histórias e a acontecimentos” através de uma imagem encenada e que sugere uma estrutura narrativa que tende a assentar em história e acontecimentos.

Philip Lorca diCorcia, série Heads

Todavia o autor continua firme nesse pressuposto, o que pode ser confirmado através da argumentação que tem com um comentador – que por sinal é fotógrafo conhecido – alvitrando a hipótese de que qualquer imagem de ambas as séries teria a mesma função(?!), e então sim, é-nos mostrada uma imagem da série Heads. Mas não interessa mapear o equívoco, se aliás o houve, interessante seria perceber de que forma ambas as imagens justificam o que se pretendia atestar.

Em dado momento é colocada a seguinte questão “Todos sabemos que uma fotografia não mente, não é?“, que faz menção a um dos suportes da teoria barthesiana, onde se defende que a imagem não mente quanto à existência do objecto, mas que tal é inevitável quanto ao sentido ou significado do mesmo. Se a questão preconiza mera provocação ou ânsia da mais pura verdade, fica a dúvida. No entanto, o sentido de ambos os artigos parece apontar para a existência de um momento que não é ambíguo, uma verdade total, que na fotografia é possível demonstrar (se estiver de acordo com as condicionantes exaradas pelo autor). Mas existirá tal momento? Por outro lado, será plausível que na verdade resida a mentira (ambos os termos são complicados, o que é uma e o que é outra?) e vice-versa, sendo essa ambiguidade ou possibilidade simultânea (tal como nos átomos da Física Quântica) um dos aspectos que melhor parece definir as imagens, talvez até mais que o silêncio opaco com que devolve o eco das representações que lhe são atríbuidas? Noutro âmbito e se bem entendi, a noção de supremacia da fotografia em relação às artes plásticas parece advir do valor de indexação ao real que a fotografia possui, todavia esse valor aparenta degradar-se se estiver ligado a histórias e acontecimentos ou “contenha artifícios”. Seria interessante perceber de que forma é que isso acontece, mas tal não é explicado, apenas se diz que umas são melhores “em mostrar o real” que outras, embora confesso, não tenha percebido porquê.

Continuando pelo O instante indeciso (2)”, na caixa de comentários o autor escreve que “a percepção de realismo, de verismo intocável de uma fotografia despojada e aparentemente anti-teatral existe e opera na mesma, quer se trate de imagem encenada, espontânea ou até manipulada“, dando a entender que qualquer fotografia, desde que despojada e um novo termo é aqui introduzido – a anti-teatralidade – tendem a operar um efeito de realismo e de verdade. Sendo a questão da anti-teatralidade sem dúvida interessante, o seu principal arauto, Michael Fried, não parece ir tão longe na asserção de que a anti-teatralidade conduza a maior percepção de realismo/veracidade, mas que apenas se estabelece uma relação menos bem determinada com o espectador. Já o despojamento, imagina-se que seja alusivo às alterações conducentes a uma percepção desnaturalizada da realidade, e nesse ponto, seria interessante perceber se considera o preto e branco um reordenamento do real ou um artifício, pois nesse caso algumas imagens de Jeff Wall teriam que ser postas de parte para esta tese. E sobre a pintura e fotografia que não respeita os critérios de “não olhar o espectador”, por exemplo os retratos frontais de Thomas Ruff ou Rineke Dijkstra? De qualquer modo é de realçar que o autor menciona o termo “aparentemente anti-teatral” provavelmente destituindo-o de alguma importância nesta validação do realismo e de verdade.

Estas deambulações parecem apontar à desvalorização da imagem como documento, quiçá, da fotografia documental? Ou trata-se de firmar a supremacia de determinado tipo de estratégia fotográfica (apropriação, encenação, etc) em detrimento da fotografia straight/documental? No catálogo da exposição “Arquivo Universal” que se pôde ver no Museu Berardo em 2009, o curador, Jorge Ribalta, afirma a dado momento que

A continuar.

Parte 1, fotografia e realidade, parte 1/3

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