fotografia e realidade, parte 1/3

Numa recente conferência, Paul Graham discorreu sobre um conjunto de questões pertinentes (sublinhados meus): “This month I read a review in a leading US Art Magazine of a Jeff Wall survey book, praising how he had distinguished himself from previous art photography by carefully constructing his pictures as provocative often open ended vignettes, instead of just snapping his surroundings. Anyone who cares about photography‘s unique and astonishing qualities as a medium should be insulted by such remarks, especially here, now, in 2010 (…) it does illustrate is how there remains a sizeable part of the art world that simply does not get photography. They get artists who use photography to illustrate their ideas, installations, performances and concepts, who deploy the medium as one of a range of artistic strategies to complete their work. But photography for and of itself -photographs taken from the world as it is– are misunderstood as a collection of random observations and lucky moments, or muddled up with photojournalism, or tarred with a semi-derogatory ‘documentary’ tag.
We are clearly in a Post Documentary photographic world now. Both of these disclaimers not withstanding, I have to say that the position of ‘straight’ photography in the art world reminds me of the parable of an isolated community who grew up eating potatoes all their life, and when presented with an apple, though it unreasonable and useless, because it didn’t taste like a potato.

Imagino que um discurso deste género tivesse vários destinatários entre a assistência. Se um artista deste calibre e reconhecimento(?) se queixa, será pelo menos de bom senso perceber a que se refere. O discurso é relativamente claro, os “caucionadores” da fotografia, ié, aqueles que a catapultam para as exibições, o reconhecimento e consequentemente as vendas, são intermediarios e não os fotógrafos/artistas. Como tal dispõem de uma agenda própria e também de uma compreensão sobre a fotografia que, pelo menos em parte, responde a essa agenda. Se faz ou não parte dessa agenda, assiste-se contudo à propagação de uma fórmula que consiste na desvalorização da fotografia enquanto documento (e dos respectivos praticantees), atitude a que muitos artistas se colam, fugindo da classificação de documentalistas como o diabo da cruz. No entanto olha-se para as imagens e por muito “hibridas” que aparentem, pouco mais parecem ser que “documentos”. A que é que se fica a dever esta aspiração: agendas, promoções, dinheiro, etc., o mundo da arte também é um negócio, goste-se ou não.

O desentendimento que prémios do género BesPhoto geram entre certas comunidades de fotógrafos, parece ter origem numa noção restrita de fotografia. Mas é certo que o espectro daquilo a que se chama fotografia vai sendo cada vez mais largo, a esse respeito observe-se a preponderância que o video vai assumindo nos trabalhos de “fotógrafos”. Um artigo interessante sobre esta questão é este Prizes, Critics, and the Uses of Photography. Como em tantas outras áreas, a tentativa de arregimentar e polarizar ignora a multimensionalidade, a qual não se compadece com atitudes limitativas de ser contra ou a favor. Realidade ou encenação? Ambas, isto se a realidade não for ela própria uma encenação.

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