Imagem e Neutralidade

«Nenhuma imagem é neutra, todas as imagens elaboram (nem que seja por recalcamento) um sistema de co-responsabilização em relação ao que nelas se representa e também na direcção dos espectadores visados. É por isso que a oposição “verdade/mentira”, ainda que essencial, se torna inapelavelmente insuficiente para lidar com a proliferação de imagens no mundo contemporâneo. Qualquer imagem nasce da acumulação mais ou menos consciente de elementos concretos e abstractos, de opções selectivas, de critérios de encenaçãoJoão Lopes, a propósito da imagem em televisão, num racíocinio que poderia ser fácilmente aplicável a qualquer tipo de imagem de pendor documental ou que tente representar algo de real.

Um dado interessante nesta formulação é o da co-responsabilização do espectador na produção de significado, algo que provavelmente estará nos antipodas da responsabilização intelectual, afinal de contas de que modo posso eu responsabilizar-me por algo que foi produzido por outrém. O que João Lopes parece afirmar, é que no caso da imagem, a produção faz já parte de uma cadeia de consumo, não se esgotando no estágio (re)produtivo, pelo contrário, retirando toda a sua lógica da importância do acto de consumo e não apenas do de produção. Se já parece complicado à maioria consensual ver-se responsabilizada pelo impacto do consumo de bens materiais, que se dirá então de algo muito menos tangível que é o significado de uma imagem, afinal de contas o verdadeiro bem “transaccionável” e não tanto a imagem em si. Conscientes deste facto, os media exploram o poder manipulador da imagem, embora essa manipulação pareça ocorrer tão insidiosamente quer do lado da extracção do significado (o espectador) quer do lado da produção em si. Embora defenda que inerentemente nada existe de bom ou de mau numa imagem, pois que é o acto da significação, as mais das vezes valorativo, que vai atribuir uma determinada carga polarisada, do outro lado existe também uma intencionalidade especifica ao produzir e mostrar uma imagem, sendo no entanto provavelmente através da compreensão deste processo que ao espectador são fornecidas pistas para a anulação de uma atitude de vítima passiva daquilo que lhe é mostrado.

Se a uma intencionalidade se soma um determinado significado, temos então o fecho de um ciclo, aparentemente ferido de delusão, mas já lá chegarei, pois que antes ressalvo uma idéia que me parece interessante que é a de “não directividade” preconizada por Jean Marc Bustamante, pioneiro na fotografia da  procura de um ponto de não manipulação, em que o espectador era justamente considerado co-responsável pela visualização/atribuição de significado à imagem. Esta noção de não-directividade tornou-se conhecida através da filosofia da Abordagem Centrada na Pessoa do psicólogo americano Carl Rogers, podendo ser estudada através do best-seller “Tornar-se Pessoa“, que defende como um dos elementos facilitadores do crescimento e desenvolvimento pessoal, uma atitude não directiva perante o outro, a qual seria conseguida justamente através do desenvolvimento interior que permitiria enfatizar as qualidades de compreensão empática e de aceitação do outro tal como ele é, para além de outros pergaminhos que por agora aqui não irei desenvolver para não alongar em demasia o artigo.

Interessa sobretudo reter que esse acto de não-directividade, de não influência ou manipulação parece não estar muito presente sobretudo ao nível dos media que veiculam notícias, quer socorrendo-se da imagem em movimento ou parada. Do lado do espectador, o engano parece advir não só da confusão entre imagem e realidade – algo que a praxis artística não se tem cansado de explorar até á exaustão – mas também da incapacidade em perceber que o acto de atribuir significado parece ter um valor específico na construção do próprio universo pessoal, acabando por validar vivências, sentimentos, emoções, actos, etc. Ou seja, se a uma intenção inicial por vezes já pouca neutra , se juntar um acto – consciente ou inconsciente – de validação, temos um ciclo deceptivo que influencia claramente o modo como se vive e quiçá capaz de criar uma realidade a partir da ilusão. É portanto caso para perguntar de que modo nos projectamos naquilo que vemos e também de que lado está a realidade (?)…

Ainda a propósito desta questão, assisti ontem à peça PeepShow nos Alpes, encenada pelo Luís Varela, em cena no novo e bonito Centro Cultural das Caldas da Rainha. Embora algo desapontado pelo resultado e pelo excessivo calor que se fazia sentir na sala, abandonei ainda antes do intervalo e vim-me refrescar para a bela esplanada que dava para o exterior. Contudo a temática era actual e interessante, abordando o impacto no comportamento pelo facto de se ter consicência de que se está a ser observado, algo que é conhecido em fotografia e pintura (e provavelmente na imagem em movimento) pela noção de teatralidade. Quotidianamente temos o triunfo da atitude big brotheriana em que tudo é inspeccionável, vasculhável, vigiável, etc e toda a sorte de comportamentos que daí derivam. A Física Quântica mencionou algo que poderá ser semelhante, quando descobriu que um electrão ao ser colocado numa caixa dividida em dois, aquele estará dos dois lados ao mesmo tempo em forma de onda, e que, ao se espreitar para dentro da caixa, a onda se desfaz imediatamente e se transforma em particula permanecendo apenas num dos lados, pelo que parece existir de facto um momento específico em que aquilo que é observado se funde e/ou responde ao acto de observação. Ainda a este respeito encontrei este artigo Social Facilitation: How and When Audiences Improve Performance, que chama a atenção para um efeito galvanizador no comportamento das formigas, quando em presença de audiência, entenda-se membros da mesma espécie. Efeito semelhante já fora observado pelo psicólogo Norman Triplett em relação aos ciclistas, embora aqui se reiterasse o efeito “competição” em detrimento da mera presença, o que me leva a pensar se, a fim de me inspirar sobre o tema, não teria sido preferível ler este artigo ou apenas rever o magnífico filme de animação as Triplettes de Belleville, ao invés da presença na pouco graciosa encenação teatral de ontem.

Mas voltando ao que aqui me trouxe, tudo parece apontar para a possibilidade que anteriormente descrevi, como sendo o acto de validação/observação algo que cria a realidade, não a “observação neutra” mas aquela que atribui um significado ou valor específico. A partir daí poder-se-ia inferir que o pensar/sentir, o falar e o agir seriam instrumentos directos de criação da realidade, o que nos colocaria a todos sem excepção numa posição de total co-responsabilidade perante a mesma. Interessante, humm??

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Comments:

lion
June 5, 2009

... a intervenção do espectador, visualizador, receptor, em qualquer obra de arte é sempre real, diria mais: esta, não existe sem aquele. É o espectador q lhe dá visibilidade, à luz da sua leitura, mmo qdo a ensombra, na penumbra de uma crítica menos favorável. Pois, e "tornar-se pessoa", (Carl Rogers), é isso mesmo, ser-se "si próprio" com capacidade critica construída e não inculcada...

June 5, 2009

Muito interessante essa ideia da co-responsabilidade do espectador na (não) neutralidade da imagem. De facto, já por diversas vezes se tem defendido (e eu concordo) que as imagens não existem por elas mesmas. Ao contrário, um pouco com o que se passa com o referido electrão, elas precisam de ser vistas para serem realmente imagens. Isto porque, uma mesma imagem, poderá representar (ou mostrar) uma coisa para uma para uma pessoa enquanto que representa/mostra outra coisa totalmente distinta para outra... A imagem mais não é então, que uma conjugação de algo que vemos, com outro algo que idealizamos. Esse algo que idealizamos, por sua vez, mais não é que um resultado de algo que vimos já anteriormente, por sua vez, em conjugação com algo que, nessa altura, também idealizámos... E assim por diante... Como diria Vilém Fluser, um dos autores que muito bem se tem debruçado sobre estas questões, nas sociedades modernas, onde a imagem domina (há quem classifique já esta época, como neo-barroca, precisamente devido à teatralidade e importância dada à imagem) de um modo geral, aprendemos a ler, mas somos quase totalmente analfabetos quanto a saber ler uma imagem. (Algumas palavras desse autor sobre o assunto, poderão ser lidas aqui: http://abblau.blogspot.com/2008/02/imagem.html ) Daí se explica que surjam, por exemplo, tantas "teorias" que "provam" que afinal nunca foi ninguém à lua... "Teorias" essas, baseadas em leituras e interpretações completamente erróneas de imagens... O visionamento de uma imagem parada informa-nos, apenas e só, que naquele milionésimo de segundo, e visto daquele ângulo (muito importante e muitas vezes esquecido, este segundo factor) pode-se afirmar com alguma (sempre relativa) segurança, que algum fenómeno real aconteceu, fenómeno esse, susceptível de gerar aquela imagem. Mas não é assim que se vê uma imagem... Nela, frequentemente vêm-se símbolos e significados universais... Quando, na realidade, a imagem é o que é, um simples registo de um milésimo de segundo do devir, se observado de um determinado ponto de vista. E se não há qualquer tipo de problema em extrapolarmos essa leitura para outros significados que não estão verdadeiramente intrínsecos na imagem, convém igualmente, que saibamos avaliar minimamente, onde está a fronteira que separa a imagem "real" (aquela que simplesmente registou o referido milionésimo de segundo) e a imagem imaginária, ou seja, aquela que realmente acabamos por ver...

joaoh
June 5, 2009

No teu último parágrafo reside também algo daquilo que penso ser de relevar, que é a diferença entre a fotografia que se ocupa com os limites da imagem e que ao fazê-lo se interroga a si própria e a fotografia do milionésimo como lhe chamas, que por ser um indício (de uma idéia) de real ou com ele apresentar semelhanças, com esse real poder ser confundida, acabando por provocar uma resposta de validação ou invalidação (o ser-se contra ou a favor) bastante menos neutra e com efeitos práticos ao nível mental e emocional (a relaidade interior). A idéia que temos do real corresponde a uma determinada ordem que só é percebida por nós porque previamente a projectamos, ou seja estamos a ver o filme que criamos mas achamos que o filme é algo que se projecta em nós e do qual não temos responsabilidade. Daí me parecer que qualquer razão que observe apenas a objectividade tem pouca utilidade (para o tipo de fotografia do milionésimo, ou documental ou realista, ou etc) enquanto essa tentaiva da objectividade como meta utópica já é melhor entendível sob o ponto de vista dos limites e alcances da imagem (ou seja sob o ponto de vista conceptual). Enfim... pano pra mangas.

lion
June 5, 2009

forgot to say: good shot the photo!!!

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