“Jam Session”, entrevista com Nica Paixão


©Nica Paixão

Adepta do jazz e amante da fotografia, Nica Paixão apresentou no sábado passado o seu mais recente trabalho “Jam Session”, no auditório municipal Augusto Cabrita, no Barreiro. A esse respeito, convidámo-la para uma pequena entrevista sobre este e outros projectos.

1) Donde vem esse gosto pela fotografia e pelo jazz?
O gosto pela fotografia estará certamente ligado ao facto do meu avô ser o fotógrafo António Paixão. Desde sempre adorei o cheiro dos químicos de revelação e quando o visitava na Filmarte tudo aquilo me era confortável. Sempre consumi imensa fotografia. Acho que existe algo de divino no acto de fotografar, mas na verdade o que me faz gostar de fotografia é o prazer enorme que me dá fotografar, pensar a fotografia, tratar fotografias, e tudo o que com ela se relaciona. Sou sempre feliz quando estou a fotografar. O jazz também começou cedo. Ouvia-se algum jazz em casa e a minha mãe cantava imenso pela casa. Há uns anos comecei a prestar atenção ao jazz feito cá em Portugal e fiquei surpreendida com a qualidade e diversidade de músicos.

2) Que autores te influenciam ou influenciaram?
O meu avô, obviamente. Era um pioneiro em técnicas de impressão ou como alguém da área o chamou “um percursor do photoshop”. A mim, quando o via imprimir, parecia-me sempre um druida a criar magias. Continuarei a aprender mais e mais na tentativa de me aproximar a ele, no domínio do filme e da impressão. Gosto muito do trabalho da Donata Wenders. A simplicidade eficaz das imagens dela. Gosto de fotografia de pessoas principalmente e talvez por isso me atraia o trabalho dela. Em termos de personagem na fotografia, fascina-me a Tina Modotti por inúmeras razões. Por cá sinto uma grande admiração pelo trabalho do Luís Rocha que tenho a sorte de ter sido e continuar a ser um dos meus professores. Acho que sou inflenciada por toda a fotografia que vejo, mesmo a que não gosto. A minha fotografia é também influenciada por autores de outras áreas nomeadamente a música.

©Nica Paixão

3) Como é que surgiram estes “duetos”?
Os duetos surgiram antes demais da minha obsessão pelo jazz. A estética visual e musical do jazz sempre me fascinaram. Se me perguntares sobre o meu instrumento preferido, a minha resposta instantânea nunca será o piano, mas a verdade é que sinto uma atracção inconsciente para a sua sonoridade e beleza estética e a maioria dos meus músicos de eleição são de facto pianistas. Temos a sorte, em Portugal, de ter excelentes pianistas e eu tenho a sorte de eles terem tido alguma paciência para me aturar. Em Março fiz um workshop de Projecto Fotográfico e Exposição, e nesse âmbito surgiu-me a ideia de aproveitar essa ocasião para investir na direcção que pretendo tomar na fotografia. Tenho uma preocupação com o estatuto do músico ídolo vs o músico ser humano, a fragilidade de quem vive da sua arte. É uma temática que me interessa e tentei explorá-la nesta série. Gostaria de a explorar ainda mais a fundo noutras séries que tenho já apontadas na minha moleskine. Daí para o contrabaixo foi um pequeno salto, uma vez que esse é claramente um dos meus instrumentos preferidos para além de extremamente fotogénico.

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©Nica Paixão

4) Sei que tens vários projectos em mãos actualmente, fala-nos um pouco deles.

Tenho alguns sim. Tenho um projecto chamado “Mutações da Memória” em conjunto com a minha amiga e escritora Dulce Surgy. Este projecto alia texto a imagens, tentando reflectir sobre as memórias de infância e como ao longo da vida as vamos modficando quanto a significados e sensações. Este projecto vai ser exposto na Fábrica do Braço de Prata a partir de 5 de Novembro. Estou contente com este projecto e penso que esta parceria será para continuar. Fui também selecionada para o projecto “Periferias” do Movimento de Expressão Fotográfica – MEF e Oficina da Fotografia / C.M.L. com um projecto que me é muito querido e pessoal intitulado “Lisnave” e que, obviamente, é sobre o estaleiro da Lisnave na Margueira e o seu estado de abandono. Este projecto irá ser exposto, em Janeiro de 2010, no Palácio de Verride em Lisboa.
Como já te disse, tenho também um projecto documental de longo curso sobre o Hot Club Portugal, que apesar de já bastante avançado, penso que ainda levará algum tempo até que se conclua, apesar de já terem surgido propostas da direcção do Hot para exposição do resultado já existente, todavia como o ambiciono para edição impressa, creio que terá que ter um corpo maior de trabalho.
Ultimamente recebi também uma proposta para organizar em formato de série um pequeno projecto pessoal que tenho com o Alexandre, o meu filho de 9 anos, que são basicamente retratos quotidianos em filme preto e branco no formato half frame, que é um formato que me fascina desde criança e daí a opção de o trabalhar em conjunto com o meu filho.
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Comments:

João Paixão
September 25, 2010

Olá Nica Primeiramente, o nosso obrigado, em meu nome e no da Avó que como sabes não está em condições de ver esta pequena homenagem ao nosso "Velhote", meu Pai e teu Avô. Em seguida quero informar-te que todos os teus blogs foram passados por um amigo meu - José Modesto Viegas - outro fotógrafo mas desta feita virado para assuntos da Natureza, ao Dr. Alexandre Flores, Vereador do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Almada. Já falei com este senhor pelo telefone e fiquei de lhe levar um daqueles folhetos da homenagem que o Augusto Cabrita fez ao Avô na Casa José Relvas em Alpiarça. Isto tudo para te dizer que o teu nome já se vai expandindo e tal como te tenho dito,"Tu vais longe!". E só por tí se poderá relembrar o nome de António Paixão, pelo menos aos que com ele privaram. Para os que com ele foram desleais, pelo menos, que lhes toque a consciência. Beijos e um xi-coração com o carinho do tio João

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