Entrevista com João Paulo Barrinha

Desafiei o João Paulo Barrinha para um conjunto de perguntas sobre o seu trabalho, e embora inicialmente se tenha furtado, convenci-o com o argumento (in)falível de que eram perguntas simples, para um artigo que ninguém leria. Embora se possa pensar que está em causa a seriedade do acto, tal tese é já em seguida contrariada…

1) Não sei se nasce fotógrafo, mas partindo daí quando nasceu o fotógrafo que há em ti e em que fase se
encontra actualmente.

De uma forma indirecta, desde criança que tenho contacto com processos
fotográficos. O meu pai era fotógrafo amador,  e tínhamos em casa duas câmaras fotográficas, o que,
naquele tempo, não era vulgar.  Embora o meu pai, pouco mais fizesse com a fotografia que, os agora vulgaríssimos registos familiares, o facto de ter um conhecimento técnico na área, acima da média (também devido ao facto de ser, na época, técnico de Raios X) proporcionava, por vezes, algumas conversas relativas ao assunto. Mas, que me lembre, o primeiro verdadeiro click  deu-se aos 18 anos, quando vi uma câmara fotográfica usada à venda numa montra. Eu e o meu irmão, tínhamos umas poupanças guardadas de um trabalho de verão, pedimos conselho ao nosso pai, e lá comprámos a Pentax Spotmatic II, que o meu irmão ainda possui. Logo de seguida, comprámos um livro didáctico destinado a principiantes, e lá começámos a experimentar todos os exercícios propostos.

De há três-quatro anos para cá, e após diversas fases, entre o passar por ser repórter fotográfico, por formação técnica e artística, e por longos períodos em que as câmaras ficaram na gaveta, ressurgiu em mim, um novo olhar. Sinto esta fase, quase como que um renascimento fotográfico. Onde vou buscar influências das primeiras e pouco amadurecidas experiências de cariz artístico, explorando-as agora com maior maturidade psicológica e conceptual, ao mesmo tempo que faço uma espécie de síntese de todas as anteriores fases por que passei no meu percurso fotográfico.

2) Sendo sempre complicado e quiçá redutor atribuir um significado específico a um trabalho, existe contudo a questão da escolha, porque é que o artista acha que é significativo aquilo que mostra. Nestas duas séries que apresentas, o que tem elas de significativo para ti?

Estas duas séries são, numa primeira leitura, um retrato irónico de uma sociedade de consumo. De uma sociedade que, não só consome os recursos naturais, mas acima de tudo, se consome a si própria. Traço de forma caricatural, uma certa ideia de decadência, (ou de permanência num determinado status quo, como se quiser interpretar) mas uma decadência que parte de cada um em particular, para o todo, para a sociedade. São imagens de carácter existêncialista. Retratos de um certo estado de caos, um caos interior, mas em permanente ordenação.No fundo, pretendo falar da forma como a nossa mente funciona. Numa permanente e sempre incompleta organização do nosso caos, o caos dos nossos sentimentos, das nossas angustias e “excentricidades”… Sempre em permanente procura por algo a que chamamos “racionalidade”. Nesse processo, falo de mim, mas acima de tudo, tento falar dessa condição que é ser-se humano.

3) Decadência, autofagia, desorientação generalizada, termos que frequentemente se podem encontrar numa avaliação mediatizada da realidade. É a tua opinião pessoal ou uma critica à forma como os media colocam as questões e inclusivamente criam os factos? Esse existencialismo não te parece também um dos fundadores desta atitude contemporânea que descreves, ao dedicar toda a primazia ao homem e nada a Deus (ao espírito)?

Ora ai está uma pergunta difícil… Se eu soubesse responder a ela, não precisava de fotografar. Porque não me interrogava tanto, e não me interrogando, não procurava as respostas que procuro através da fotografia. Quando uso o termo “existencialista”, não me refiro ao existencialismo enquanto corrente filosófica, mas sim, à condição de existir, enquanto Homem.Nessa condição, evidentemente que teremos que dar atenção ao nosso lado espiritual… Perguntar-me-ás se damos? Bom, quanto a isso, eu penso que, muitos de nós o arruma numa gavetinha que se chama “religião”, aquela coisa que aprende quando é criança, e não se preocupa mais com o assunto. Claro está, que isso depois dá asneira… Algo que não é bem “arrumado”, será sempre um problema para o verdadeiro “caminhar”, porque estaremos sempre a “tropeçar”… Mas essa seria uma conversa mais apropriada para um qualquer Guru Espiritual… Eu não sei, nem pretendo, apresentar soluções para a Humanidade. Se conseguir compreender-me e compreender o mundo que me rodeia, já me dou por muito feliz.Quanto aos media… De facto, os media “constroem” o nosso mundo.  Eles são responsáveis (ou deviam sê-lo) pelos nossos conceitos. Por vezes, (talvez vezes demais) recriam, teatralizam, inventam até, uma realidade. Mas dizer que a culpa dos nossos conceitos, do facto da nossa racionalidade andar baralhada (ou irracional) é dos media,  seria o mesmo que dizer que a culpa pelo facto de batermos com a cabeça num poste de iluminação, é do Governo, que o mandou colocar lá… Temos que ser atentos, ser críticos! Aquilo a que chamamos realidade, sempre foi, e sempre será, uma criação produzida pelos mais diversos meios. Nesta era moderna, são os media os principais responsáveis pela difusão dessa criação. Mas na antiguidade, quando estes media não existiam, a criação e difusão de falsas realidades também existia…
4) Ambas as séries que enviaste fazem-me lembrar algo de Duane Michals, não só no seu desejo de exprimir o que é internamente humano, mas também nas estratégias de representação que utiliza relatando as limitações da fotografia através da criação de sequências de imagens, narrativas, utilizando texto, etc. Estás de acordo?

Há, evidentemente, afinidades entre algum do meu trabalho e o do Duane Michals. Mas também as há, relativamente à obra do Robert Frank, e do Wiliam Klein. Na verdade, julgo saber que foram estes dois autores, que iniciaram esta linha de abordagem à imagem fotográfica, tendo, a partir daí, surgido imensos outros autores a explorá-la. Normalmente não me preocupo muito com essa questão de saber com quem ou com o quê, o meu trabalho tem afinidades. Ele tem que ter, primeiramente, afinidades comigo. Tem de ser verdadeiro para mim, e não ser algo que eu faça porque vi em algum lado e achei piada. A partir daí, se encontrar outros trabalhos que coincidam com a exploração que ando a fazer, fico contente. Para mim, isso quer dizer que sou humano. E como tal, penso como um humano pode pensar.

Na verdade, da primeira vez que me ocorreu juntar várias imagens  num único painel semelhante a um puzzle, não conhecia devidamente a obra do Robert Frank, e nessa linha, o que melhor conhecia eram as polaroids do David Hockney
http://www.autrynationalcenter.org/yosemite/hockney.php?height=480&width=530 Mas não me identificava, naquela época, com aquele género de exploração da imagem… Para mim, uma imagem fotográfica, era, (e ainda é um pouco) algo que teria que ser produzido e completado dentro de um determinado espaço, o espaço do negativo ou do papel fotográfico que a delimita. Ora, o David Hockney, fazia continuar as imagens, apenas porque o assunto que elas registam continua, sendo que, nenhuma das imagens em separado, poderá “viver” por si. Mas as minhas podem. E o que continua nas minhas imagens, não é a realidade, mas a imaginação…

5) A estrutura em ‘grelha’ quase omnipresente nos teus últimos trabalhos, é frequentemente vista como uma das imagens de marca do Conceptualismo? Corroboras?

Estrutura de grelha? Referes-te ao facto de agrupar diversas imagens num mesmo painel? Se assim é, de facto, essa técnica de apresentação tem sido muito usada em diversas áreas das artes visuais, quando as respectivas obras têm um carácter conceptual. Esta multiplicação (ou partição) da obra por vários quadros (chamemos-lhe assim) serve um dos princípios do conceptualismo, que postula que a arte não tem que ter necessariamente uma base material, ou seja, não é o objecto que é arte, mas a ideia que dele advém. No caso das obras assim fraccionadas, essa ideia está então bem presente, já que não se pode afirmar que um ou outro objecto (quadro ou o que for) é uma peça de arte, mas é antes, o conjunto exposto que faz a obra. Conjunto esse, que pode ser uma simples colecção de objectos industriais, dispostos segundo uma determinada ordem, sendo que estará nessa disposição, encerrada a ideia da obra. Uma vez desfeita essa “ordem”, desfaz-se também a ideia, e consequentemente, a obra, voltando os objectos a ser simples objectos. No caso dos meus trabalhos, embora possam ser de inspiração conceptual uma vez que recorro igualmente a agrupamentos de imagens com o mesmo fim de as relativizar (mas não só por isso), não posso afirmar que se tratem de obras conceptuais, no sentido puro do conceptualismo. Na verdade, eu costumo trabalhar nos meios termos, naquelas linhas de fronteira entre diversas formas de expressão e diversos conceitos.

Neste caso, se pretendo, de facto, retirar alguma materialidade à imagem fotográfica, recorrendo
a essas “grelhas”, por outro, quando em exposição, tenho até agora apresentado a grelha como sendo uma única impressão fotográfica. Portanto, uma única imagem composta ou montada. Mas uma montagem, onde as imagens não são, nem recortadas de alguns elementos, nem sobrepostas
em cima umas das outras. Antes, são apenas montadas lado a lado e as suas áreas são respeitadas o mais possível. Ou seja, se faço, aqui e ali, um ou outro reenquadramento, eles são sempre mínimos, sendo que, a maioria das imagens que uso nessas composições, não sofre qualquer corte.

Portanto, a imaterialidade não é apresentada pela fragmentação física da obra. No entanto, quando componho assim as imagens, tenho algumas regras a cumprir… No caso das séries a que te referes, procurei encontrar linhas de continuidade entre imagens, de modo a levar o espectador a ter a
sensação de que uma determinada imagem que faça parte da composição, se prolongue pela outra que lhe está próxima. Então, devido à tendência da percepção humana em unir linhas e pontos,
de forma a construir uma imagem, pretendo que o espectador vislumbre uma só imagem, que será composta pelo conjunto das imagens que compõem o painel ou puzzle. No entanto, uma vez que a continuidade das linhas nunca é perfeita, essa imagem nunca se concretiza, permanecendo sempre
a meio caminho entre o material e o imaterial. Ou seja, mantém-se como imagem imaginária, porque apenas se vislumbra na imaginação de quem vê a grelha completa de um só relance.

É então, este conceito de imagem imaginária, que, ao nível conceptual, pretendo explorar nessas duas séries, sendo que numa delas, ele é mais evidente que na outra.Mas, qualquer das imagens separadas desta grelha, são imagens por si mesmas. E embora umas mais fortes que outras, todas elas foram realizadas como imagens únicas. Isto conduz-nos a outra ideia, a ideia de estrutura composta por elementos independentes. Como exemplos de estruturas assim compostas, temos muitas coisas que nos rodeiam no nosso dia-a-dia… Desde um simples automóvel, que será composto de peças que o são só por si, e que poderiam “migrar” para um outro automóvel semelhante (mas não necessariamente da mesma marca) e aí funcionar… Podemos ver cada imagem em separado como uma nota ou frase musical, e o painel como a composição completa… Ou, como eu prefiro, podemos ver cada imagem como uma célula (microorganismo unicelular) de um multicelular organismo/imagem, sempre em mutação.

6) Vi também noutros projectos teus, aquilo que parece ser uma certa uma subversão da noção de linearidade temporal. Embora talvez não tão presente nestes dois, porque é que isso é importante para ti?

A subversão da linha temporal, é um outro recurso que tenho usado diversas vezes, para criar as tais “imagens imaginárias”… Nesse caso, não será através de linhas condutoras que o observador imaginará uma imagem materialmente inexistente, mas através do “engano” quanto à sequência temporal que dou às sequências…Chamo-lhe “engano” (entre aspas) porque, por um lado, o espectador desprevenido não se apercebe que estará a ser induzido a “ver” algo que, realmente, não aconteceu. Ou, pelo menos, não aconteceu exactamente daquela forma… Por outro, o espectador mais atento pode aperceber-se disso, uma vez que é comum eu explicar o facto dessa manipulação estar presente. Mas como os espectadores distraídos estão em esmagadora maioria, o engano acaba por resultar de forma efectiva, e nesses casos, a imagem imaginária torna-se na ilusão (quase) perfeita.

A importância que isso tem para mim… Por um lado, e tal como no caso anterior, esta é uma forma de questionar o realismo da fotografia. Por outro, é uma forma de ter poder sobre o tempo, enquanto que a outra, será uma forma de ter poder sobre o espaço. No fundo, todos nós gostaríamos de ser um pouco Deuses… Talvez seja por isso, que a arte existe…

7) A um fotógrafo pode-se perguntar o que anda a ver?

Perguntar, penso que pode… Só que, não sei se poderei responder de forma muito concreta, uma vez que ando a ver o que calha…Digamos que, ultimamente, vi essencialmente fotografia  contemporânea. E por vezes, alguma fotografia antiga. Dentro da fotografia contemporânea, vi recentemente algumas  Exposições dos Encontros da Imagem, em Braga, porque passei por lá devido a outros motivos e não quis deixar de espreitar em algumas galerias. Tive pena de não ter podido ver mais…  O tema deste ano, “fronteiras do género”, explorou em exclusivo o “olhar” no feminino. Assim, foram convidadas apenas autoras (mulheres) para expor…Não sei se o “olhar feminino”, será muito diferente do “olhar masculino”… Alguns olhares serão certamente, outros nem tanto… De qualquer forma, (é pena) não consegui ver exposições suficientes para fazer essa estatística. Mas, num rápido desfolhar do catálogo (que não é, nunca, a mesma coisa) encontra-se uma grande
incidência de temas intimistas e/ou existencialistas, como por exemplo família, relações de amizade, ou a relação com o corpo.

Das exposições que vi, ficou-me mais na memória a da São Trindade, com o seu enigmático calendário em que os dias da semana, inscritos em francês, aparecem (não na ordem correcta) por baixo de imagens de umas pernas femininas vestidas com meias de licra. As meias vão-se rasgando, mas também, não necessariamente em sintonia com o passar do tempo… Um pequeno texto, que acompanhava as imagens, rezava assim: “Naquele dia, o Senhor fará desaparecer todos os adornos: os adornos dos pés, os colares em forma de sol e de lua (…) E então, em vez de perfume haverá mau cheiro; e em vez de cinta uma corda (…) em vez de beleza, uma horrível cicatriz. (Is 13,18 – 24) “São imagens muito fortes. Tanto as que se poderiam ver na parede, como as que imaginamos ao ler a passagem ali colocada (que presumo ser Bíblica) .

Relativamente à fotografia antiga, fui ver a exposição “arquivo Fotográfico”, no CCB. Trata-se
de um poderoso (e imenso) arquivo de imagens dos mais variados géneros, que, no seu conjunto, nos fala da forma como a fotografia tem vindo a ser usada pelas mais diversas correntes, desde
filosóficas, económicas ou políticas (a parte da fotografia russa está extremamente bem  documentada) tanto para serviço, como para manipulação das sociedades e da história.

8.) Existe algo de especificamente português na tua fotografia? Que te parece a produção contemporânea portuguesa?

Não, de exclusivamente Português, penso que não. A não ser que consideremos um certa atracção (quase romântica) pelo antigo, pelo abandonado, como uma manifestação da nosso tão  característico saudosismo… Mas não acredito que o sentimento de saudade seja exclusivo Português, embora apenas nós tenhamos inventado uma palavra para definir exclusivamente esse sentimento. Essencialmente, penso que há algo de humano na minha fotografia. De humano, porque sou humano. Sinto e penso como humano. E nas minhas imagens, falo muito do ser humano e de alguns dos seus conflitos interiores.

Quanto à produção contemporânea Portuguesa… Penso que estamos finalmente a começar a acordar para a fotografia. Tardiamente, como em (quase) tudo, mas mesmo assim, estamos melhor agora que há 10 anos, quando pura e simplesmente, não se vendia fotografia nas galerias. Isto claro, com as devidas excepções para, por exemplo, a Helena Almeida, o Jorge Molder, e talvez apenas, mais meia dúzia de autores. No entanto, esta evolução não tem só o lado positivo… Tal como noutras situações, estamos também a “importar” olhares… O “olhar frio”, de influência Alemã, é talvez o maior exemplo disso.  Sinónimo de modernidade? Talvez, mas a palavra modernidade (agora na nova versão “pós-moderna”) não pode ser confundida com normalização…

9) E para terminar, uma daquelas perguntas típicas dos questionários de Verão, que só não se aplica na totalidade porque estamos na Primavera… Quem seria o casal perfeito da fotografia?

Bom, a avaliar pelo calor que fez hoje, dir-se-ia melhor, primavera/verão. Assim, a pergunta ficaria também mais condizente com a “moda”… E por falar em modas, penso que o casal perfeito já existe: é o casal Becher. (Não confundir com o casal Beckham, esses mais ligados ao cinema). Os Becher, professores de fotografia na Alemanha nos anos 80, foram os iniciadores de uma das maiores, se não mesmo a maior, moda da fotografia contemporânea. Devido a eles, institucionalizou-se chamar a essa moda, de Escola Alemã, ou Escola de Dusseldorf, quando, na opinião de Sérgio Mah, um dos mais conceituados (se não mesmo, o mais conceituado) curadores/teóricos da fotografia Portugueses, não existe Escola Alemã. Ainda segundo Sérgio Mah, o que aconteceu foi somente que,
um grupo de ex-alunos deste casal ganhou prestígio e fama seguindo as suas ideias relativamente à fotografia. Essas ideias e alguns dos seus temas “fetiche”, (indústria e urbanismo), aliadas a impressões fotográficas de formatos gigantesco, transformaram-se numa moda por todo o mundo, e que, como refiro na minha anterior resposta, em Portugal está para durar. Pelo menos, a julgar por algumas das propostas apresentadas este ano no BesPhoto…

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