Joel Peter Witkin, The raft of George Bush

The Raft of George Bush (2006) Joel-Peter Witkin

Já não me recordo bem há quantos anos foi, mas a primeira vez que vi imagens de Witkin foi nos Encontros em Coimbra. É daqueles fotógrafos cujo trabalho jamais se esquece, embora se encontre pouco citado nos media que se debuçam sobre fotografia, quiçá devido ao registo pouco encaixável nos arquétipos da fotografia contemporânea e das suas angústias existenciais (limites do medium sobretudo…), mas o certo é que onde outros se arrastam para mostrar absurdo, pulsão, morte, burlesco e drama, Witkin fá-lo com uma enganadora facilidade, pois que a seu trabalho é de um enorme dominío técnico e artístico.

Quanto à imagem acima, fui descobri-la (via Conscentious) na Edelman Gallery e embora não queira fazer jus ao dito americano de que é contraproducente “to beat a dead horse”, impôe-se abrir um parêntesis e genuflectir perante esta absolutamente genial justaposição entre o “reinado” de George W Bush e o quadro A Balsa de Medusa do pintor francês do séc. XIX, Théodore Gericault,e que pode ser visto ao vivo no Louvre (descobri-o hoje ao ver o g-e-n-i-a-l filme de Jean Becker, Dialogue avec mon jardinier)

Deixo, traduzida, a explicação fornecida pelo artista acerca deste trabalho:
«Existem muitos paralelos com a jangada da Medusa e a Presidência de George W. Bush. O capitão da Medusa era um incompetente, um nobre que ficou a dever a sua nomeação a um favor ministerial e não ao engenho de marinheiro. George W. Bush também é um incompetente, filho de um homem rico, que ganhou a presidência através de favores e enganos, ao invés de capacidades de estadista. Como político e presidente, ele é um demagogo, um líder que faz uso do populismo, de preconceitos, falsas alegações e promessas a fim de ganhar e manter o poder. Ambos os homens, o capitão do Medusa, Hugnes de Chaumareges e George W. Bush são assassinos.

A elaboração do quadro de Medusa foi o resultado de “um Capitão e muitos dos seus altos funcionários que, cuidando apenas da sua própria segurança, brutalmente tomaram os botes salva-vidas e deixaram as patentes inferiores e soldados à sua sorte numa balsa.” As pessoas que ficaram abandonadas no navio naufragante construíram uma jangada de sessenta e cinco pés de comprimento e vinte e oito metros de largura com os postes e vigas, cruamente amarradas antes do Medusa afundar. Cento e cinquenta pessoas, incluindo uma mulher, foram passados para aquele escorregadio amontoado de vigas. As pessoas estavam tão estreitamente apertadas que era impossível mexer um pé. Seguiu-se o motim, o homicídio, canibalismo e a loucura. Após quinze dias, apenas quinze sobreviveram.

As pessoas do Medusa foram vítimas da luta de classes. O povo, sob a égide de George Bush, seu partido e regime, foi vítima da sua própria lógica, o seu elitismo conservador, a sua fome de poder político e social e das suas ambições militares unilaterais. Foi um grupo de pessoas muito doentes que engendrou uma guerra falsa a partir da tragédia de 11/9, contra um país que não tinha nada a ver com 11/9.

Na minha foto, eu quero mostrar os dirigentes deste regime como realeza que vai nua. Como os tolos que eles realmente são. O presidente é visto usando uma coroa do McDonalds em papel dourado. O desespero dele é o resultado de uma mente distorcida pelo extremismo. E pela mentira, tortura, dor e morte que ele possa ter causado. Ele é o Rei Lear (peça de Shakespeare) de todos os políticos ineptos. Ele segura o corpo nu de “Condi Rice” (Condoleeza Rice). Ela é o seu ideal de mulher negra, a sua musa mentecapta. O Secretário de Defense “Rummy” (Donald Rumsfeld) está perto, de bruços, mantendo os seus óculos, envolto numa bandeira da nação. O ex-secretário de Estado Colin Powell é retratado vestindo apenas em polainas militares segurando a “prova”
que apresentou na Organização das Nações Unidas para a justificação para a guerra contra o Iraque. O vice-presidente e sua esposa são mostrados como a estrela e a diva de uma ópera, esforçando-se por cantar proseliticamente as suas doutrinas. Barbara Bush está amarrada a um mastro. Ela detém um refletor solar sob o seu queixo, representando a sua alegria em manter-se à luz do “poder solar” ainda que parecendo-se sempre como “A Quaker Oats Man “. Perto dela, um padre conservador tenta enforcar-se, enquanto um marinheiro lhe faz um fellatio. Finalmente, um afro-americano agita a bandeira do seu país natal enquanto olha os sobreviventes do Medusa, um junco chinês e uma nave espacial.»

No resto da galeria dedicada a Witkin, pode-se ver e ouvir o artista debruçando-se sobre cada um dos trabalhos expoostos.Excelente!

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Comments:

Diana
May 30, 2009

olá, João: que bom ter-te na roda! venho agora de visita à tua casa virtual e é com prazer que percorro tantas imagens, guiada pelas tuas palavras, entrando nas portas de outros sítios e gentes. bem hajas e continuação de bom trabalho. xi-coração

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