killed

Como é que se mata uma fotografia? Mete-se-lhe um buraco no meio. Questão interessante, sem dúvida, mas cuja retórica permite também perguntar: será que as fotografias morrem?

A fotografia foi tendo na sua história uma forte ligação com a morte, simbólica, literal, ou até na sua própria génese (o memento mori barthesiano, por ex.). Um dos momentos pioneiros do fotojornalismo e de toda a fotografia documental preocupada foi o projecto americano de documentação da Farm Security Administration (1935-42) do qual fizeram parte, entre outros, os fotógrafos Walker Evans, Theodor Jung, Carl Mydans, Marion Post Wolcott, Arthur Rothstein, Ben Shahn and John Vachon, projecto esse que esteve na origem deste trabalho de arquivo, compilado por William E. Jones, minando imagens disponibilizadas publicamente na Library of Congress.

Deste projecto constam imagens que o director do projecto, Roy Stryker, condenou a não verem a luz do ampliador, algumas delas apresentadas no vídeo Punctured com que se inicia este artigo, posteriomente também editadas no livro
Killed. William E. Jones, possuído de uma febre de arquivo, e proseguindo na temática gramatical, autopsiando o legado da FSA, conduz-nos vertiginosamente através da cicatriz-censura fisicamente presente nas imagens, exercendo uma dupla censura através do impedimento de uma leitura mais demorada, corporizada no ponto negro central a partir do qual a imagem nos é brevemente dada a ver.

As imagens morrem, ganhando uma segunda vida através deste projecto, remetendo essa ressureição para a ponderação acerca das razões e mecânicas da sua destruição/censura, mas também para a persistência da imagem, e naturalmente, num momento em que o arquivo constitui mais um campo exploratório da prática fotográfica e artística contemporânea, para através dele se vislumbrarem novas visões da história. Uma brilhante lição sobre a utilização do arquivo para destapar políticas das imagens, mas também imagens políticas.

Share: Facebook, Twitter, Pinterest

Leave a Comment: