Mikel Uribetxeberria, Animalia & Amy Stein, Domesticated

É assumido, tenho um fraco por séries com animais, ver aqui, aqui e aqui, para além das estórias com o cão e os gatos cá da casa… Hoje apresento duas séries, qualquer uma delas fantástica, uma do basco Mikel Uribtxeberria, intitulada Animalia, uma outra da fotógrafa americana Amy Stein (já mencionada anteriormente aqui) que se chama Domesticated.

Mikel Uribetxeberria

30_09

Amy Stein

Watering Hole

Return

Backyard

O fotógrafo basco nada enuncia no site sobre esta série, todavia depreende-se que ao fotografar animais em locais, acções e poses eminentemente humanas, possa nesta série querer reflectir acerca do comportamento humano perante os animais selvagens, atribuindo-lhes qualidades “domésticas”, talvez iluminando uma certa necessidade não só de humanizar os animais, mas eventualmente de os compreender. Como afirma Amy Stein no statement da sua série é de facto paradoxal esta intenção relaçional, “within these scenes I explore our paradoxical relationship with the “wild” and how our conflicting impulses continue to evolve and alter the behavior of both humans and animals. We at once seek connection with the mystery and freedom of the natural world, yet we continually strive to tame the wild around us and compulsively control the wild within our own nature.”

As fotos em ambos os casos foram montadas, compostas e iluminadas de forma superior,  no do espanhol, com recurso a montagem de imagens no Photoshop, no da americana, recorrendo por vezes a animais não vivos para criar as composições. Na análise destas séries, duas questões seriam interessantes, por um lado a análise do contéudo, de que modo está ilustrada a dinâmica que se estabelece entre o humano e o selvagem, não vou enveredar por esta, embora tenha a minha posição. Por outro lado, a veracidade ou verdade na fotografia, que se levanta por estas evidentes “manipulações”, questão que fez/faz correr rios de tinta. Quanto a este aspecto não vejo em que é que a construção fotográfica possa ser desencaixada da principal discussão pós-moderna, a saber, é a realidade, exterior ao sujeito que a observa? Existe uma verdade fora do observador, ou existe ela sem o observador? Apesar das sucessivas conquistas que desaguam na diferenciação entre o eu-nós-natureza, ou belo-bom-verdadeiro, apoiadas por autores como Popper com o objectivo (natureza), subjectivo (eu) e cultural, ou Habermas com verdade objectiva (natureza), sinceridade subjectiva (eu) e justeza intersubjectiva (nós ou cultura), ainda há uma oposição forte ao reconhecimento da interdependência entre estes factores, quiçá da dificuldade em relatar algo, que pertence ao domínio dos três.

Sobretudo na fotografia “documental” e/ou “antropológica”, cada vez mais se parece observar o testamento do fotógrafo, que visa a neutralidade, a objectividade, a isenção, etc. Se isso pudesse ser tomado como uma clara tomada de posição contra o prejuízo do preconceito e do julgamento, quer da parte do fotógrafo, quer de quem vai observar as fotografias, talvez estivéssemos perante uma subjectividade isenta, mas creio que na maioria são testamentos arpoados de materialidade, razões meramente aductivas de uma neutralidade com intuito comercial, feitas para agradar a gregos e troianos, pior, destituindo o fotógrafo de consciência, de moral, de valores, de subjectividade. A fotografia aparece hoje, sobretudo com a influência da suposta escola de dusseldorf, irrazoávelmente coberta de uma aura de prestígio, que lhe advém precisamente dessa suposta neutralidade, patamar de base das ciências empiricas e avanços técnicos do séc XX, em que tudo pode ser tratado e descrito de forma objectiva. Sem dúvida que este materialismo cíentifico terá invadido as universidades ou não sejam elas as principais instituições interessadas na propagação destas idéias, com reflexo evidente nalguma fotografia académica, culta, universitária, contemporânea que por aí se vê, mas que, como já disse num artigo atrás, salvo erro na primeira ida ao BESart, é na sua grande maioria, natureza morta, aliás, não é necessário ser nenhum génio para o perceber, basta ler esta crónica recente de um coleccionador americano, a respeito de uma exposição de Candida Hoffer ” despite all of the over the top ornamental flourishes found in these rooms, the interiors are chillingly vast and empty, like tombs that have recently been unearthed and opened to anthropologists. While there are frequently subtle effects resulting from the placement of the light, for the most part, the images are dry and emotionless, in contrast to the clear hopes for grandeur and awe of the builders. (…) For us, there seems to be something absent, a missing connection that would normally draw us back to the images again and again. While Höfer has pointed her camera at a vast array of amazing places, there doesn’t seem to be anything new, fresh or memorable going on, and over time, the images become surprisingly interchangeable. And in a mind bending twist, perhaps that is just the point.”

Do ponto de vista do individual, a verdade é de natureza relativa, subjectiva, o fotógrafo escolha ou não escolha, está limitado pela incapacidade do meio em comunicar ou reflectir determinadas realidades e além disso, é a sua verdade, pode ser validada ou invalidada. Do ponto de vista colectivo, do nós, existem verdades que se conjugam para apontar não numa direcção, mas em várias, verdades intersubjectivas. Apenas se não existissem pessoas, se poderia talvez falar de verdade objectiva, não porque fosse “a verdade” mas porque era a realidade, ou simplesmente, limitava-se a ser, nems eria verdade, nem realidade, era o que era. Desse modo, na maioria dos casos a fotografia é uma imagem de imagem, algo que se apreende como sendo o real ou parte dele. Edward Steichen afirma acerca da verdade truncada numa imagem “No one has ever made either in painting or in photography, a complete portrait of a person. I don’t think that’s possible in any one picture. For example everyone has the capacity for laughter and tears, and there’s no place in between that captures the whole thing“, mas não é hoje em dia o relatório do evento mais importante que o evento em si? Caímos no mesmo local, não há real (verdade), sem interpretação (sinceridade subjectiva), e essa, advém da inserção cultural (nós).

Existe verdade na fotografia?

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Comments:

Julio
February 19, 2009

Mikel Uribtxeberria's work IS Photoshopped. Amy Stein's work IS NOT PHotoshopped.

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