moira lovell, the after school club

Série algo particular de Moira Lovell, jovens que se vestem de “uniforme escolar” para ir à discoteca, fotografadas no pós-festa, defronte de portões de escolas secundárias. É dissecada a temática do uniforme escolar, forma de vestir que oferece um look sexualizado e infantilizado, de não ameaçadora sexualidade da parte da mulher, perante o olhar masculino (male gaze), enquanto que no sistema educacional, o objectivo dessa indumentária é o de providenciar uma identidade homogénea, não estimuladora da competição.  É sugerido que as escolas, enquanto instituições disciplinadoras, parecem em parte, criar um núcleo de seguidores obedientes do olhar masculino (male gaze).

Esta série oferece um ponto de contacto com um aspecto que ganhou algum protagonismo nas discussões sobre metodologia de pesquisa, justamente o género (gender) de quem “vê/fotografa”, que devido à natureza da interacção sensual e sexualizada com o sujeito,  seria passível de influenciar a narrativa. Esta preocupação parece advir do facto de que a fotografia, a partir de determinada altura, passou a ser encarada não só como um bom “braço armado” da investigação antropológica, mas sobretudo, ela própria poderia aspirar à categoria de antropologia visual. Todavia, para que se consolidasse como credível nos meios de investigação, seria necessário acautelar alguns aspectos que colocavam em causa a natureza objectiva da pesquisa académica. Daí surgiu esta questão do “gender gaze”, em que se defende que a identidade do género do indíviduo que observa/fotografa, altera/distorce aquilo que está a ser observado. Seria também interessante verificar como esta tese serviu ou serve de argumento à desqualificação de determinado tipo de trabalhos, baseado naquilo que mais parece ser uma discriminação de género, embora branqueada por um suposta neutralidade objectiva face ao sujeito. Por outro lado, embora dando muito jeito o facto de existir uma versão académica que fundamenta uma determinada visão sexista da fotografia (já agora porque não das restantes artes…), é de questionar o propósito da afirmação daquilo que parece ser o “male gaze”, sobretudo se caucionar uma visão vitimizadora do sexo feminino, em que a mulher é vista como mero joguete nas mãos do homem e não como actor participante. A redução da fotografia ao documento cartográfico exposto exclusivamente segundo critérios científicos, de que esta temática abordada hoje pode ser um exemplo, tem dado origem a um corpo de trabalho na sua maioria imensamente aborrecido, de conteúdo meramente positivista, de forte extensão objectiva e fraca profundidade subjectiva, cuja visibilidade e valor comercial parece estar francamente sobreavaliado. A versão mecanicista da fotografia, que se vê pobremente decalcada das restantes ciências sociais, num esforço de credibilização, mas sobretudo de estatuto. É conhecido na Psicologia, o facto dos sentimentos de inferioridade serem amiúde compensados por uma hiper-valorização, o indíviduo que “não sabe pintar”, vai procurar colmatar essa falha de modo exagerado justamente porque sobrevaloriza essa falha, mas isso não faz dele um pintor, equívoco que parece transponível para alguma da fotografia contemporânea, que além de ter começado a querer pintar, quer agora também ser culta e saber escrever. Como parecem infirmar estas fotos de Moira Lovell, o importante na ida à escola, é poder usar esta bela (male gaze male gaze…) indumentária…

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