no país da fotografia: imagens africanas


Portugal está cheio de África, cheio de fotografia africana entenda-se. Uma medida neocolonial decente dos mandantes da cultura indígena seria impedir a exposição de Malick Sidibe de sair do país… certamente não se combateria a bancarrota, mas talvez as imagens servissem de inspiração a alguns lusitanos mais necessitados de exemplos de simplicidade e humildade. O melhor mesmo, é pensar em comprar um livro.

Africa: See You See Me. Outro exemplo vindo do continente negro, este acerca do ecletismo da representação fotográfica – a de dentro e a vinda de fora – das africas, patente no Museu da Cidade, Lisboa. Dividida em 3 partes, a exposição apresenta paradigmas de várias práticas e abordagens, mas em que regra geral parece dominar o cariz documental, de influências da fotografia “humanista” europeia, não obstante uma ou outra excepção de raiz mais conceptual. Por um lado, a forma como os africanos se vêem a eles mesmos, quer do ponto de vista do fotógrafo quer do fotografado. Depois, os pontos de vista de fotógrafos não-africanos, mas que de certo modo exibem algum grau de integração ou colaboração com o meio que fotografam. Finalmente uma fotografia de cariz mais etnográfico, apontando à herança do retrato efectuado por colonizadores. O âmbito é também o de fornecer um contraste entre a visão da fotografia do antigamente, apontada como sendo colonialista e aquela que se pratica hoje, ou pós-colonialista. Por vezes, a barreira torna-se pouco clara entre o que pode ser ou não um “discurso colonial” do ponto de vista fotográfico. Embora não esteja suficientemente informado sobre essa questão, quase toda a fotografia enferma de estereótipos, de preconceitos, de escolhas, de julgamentos, pelo que talvez o “colonialismo” se possa assumir como a noção desequlibrada destes preceitos, quando aplicados em imagens de países colonizados, por fotógrafos de países colonizadores e que afectam noções de historia, cultura, identidade e representação. Apagados fossem os nomes dos fotógrafos desta exposição e em muitas das imagens nos seria difícil aquilatar da origem ou posição do fotógrafo, quanto mais alinhavar um discurso pelo diapasão “colonialista”, e não estou com isso a confirmar ou desmentir a existência de imagens com esse pendor, mas apenas a verificar da dificuldade de verificar uma posição. A passagem de uma posição em que “o fotógrafo vê o outro como quer”, para “o outro é fotografado como deseja ser visto” é uma dialética que não se resolve o assunto da soberania visual por mera carta de intenções. O momento em que a fotografia “casou” com a antropologia, foi também o começo de algumas questões académicas cuja validade pode e deve ser questionada, pelo que esta seria uma excelente oportunidade para a produção de um documento intelectual (e de um catálogo) acerca do tema, embora na dita exposição nada se veja. Desconhece-se se o mesmo ainda virá ou não.

Permanecendo em África, ainda que por vias indirectas, a exposição Res Publica, na Fundação Calouste Gulbenkian, na qual em vários trabalhos fotográficos se podem vislumbrar questão ligadas às colonizações, antigas e modernas. Fotográficamente destaco Manuel Botelho (abaixo), que explora o still-life escultórico para criar pequenos tableaux que conferem sentido exploratório à construção proposta pelos curadores.


Saindo das africas, esta exibição na Gulbenkian aspira a uma abordagem mais global da noção de res publica, legítima sem dúvida, mas na qual contudo se parece por vezes esbarrar nalguns corpos estranhos. Dou como exemplo os retratos de Pierre Gonnord (abaixo), que contrastam nitidamente com o

sentido geral da exibição, em que o “cliente” vai desde o início sendo encaminhado para o universo artístico português e para as questões correlatas à portugalidade – que agora comemora o centenário da Republica – mas que de repente se vê colocado perante deambulações menos óbvias. Pierre Gonnord trabalha sobretudo questões ligadas ao rosto e ao retrato, lateralmente denotando influências da pintura. Gabriel Orozco trabalha o sentido escultórico de inserção no espaço e no tempo, aproveitando o ready made para sublinhar esses aspectos (ver imagem abaixo). Em ambos os casos, só algum esforço permite enquadrar estes trabalhos no sentido que se pretende dar a esta Res Publica, mesmo considerando um critério curatorial mais amplo. Certamente todas as escolhas tem uma justificação, seria interessante conhecê-la, pois que nalguns casos a obra em si já é suficientemente críptica ou opaca, e nos casos mencionados, nem a génese da mesma permite aquilatar da valia da mesma para a coesão desta exposição.


Pode no entanto estar a escapar algum detalhe, pois que algo desta dimensão é certamente estudado e analisado ao mais infímo pormenor, sendo nesse aspecto de notar positivamente a pertinência para o contexto proposto da inserção de 3 imagens de Taryn Simon, da série An American Index of the Hidden and Unfamiliar, as quais e ainda assim pesando a vontade de “globalizar” o assunto, não aparecem como óbvias para o ênfase geral, que parece pender claramente para a res publica lusa.

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