no país da fotografia…

Fim de semana (em) cheio!

A começar pelo evento 1+1+3=6 promovido pelo colectivo Le Journal de la Maison a pretexto do aniversário do colectivo e do lançamento do calendário de apresentações e exposições relativo ao projecto “Fronteiras“, em que haverá um convidado mensal na Livraria Trama que apresentará imagens alusivas ao tema. No sábado à tarde foi a vez do primeiro convidado, Isaac Pereira (a quem já entrevistei aqui), apresentar a sua proposta. A fórmula escolhida assentou num misto de performance, intervenção e apresentação, promovendo uma troca com as pessoas presentes, que continuará ainda pelo futuro dentro (o autor compromete-se a escrever uma carta a quem tenha colocado uma pergunta, naquilo que me parece ser um interessante ponto de ligação entre autor e espectador). As imagens ganharam uma dimensão inédita através da simbiose com a literatura via texto falado/lido, com a particularidade de evidenciar um conteúdo fortemente político, pelo que se pode saudavelmente questionar sobre como esta ligação palavra-imagem pode ganhar interessantes contornos de pensar-sentir o mundo. A saída do tradicional registo expositivo é (muito) bem vinda, bem como o talento de autor-actor-escritor do Isaac, pois foi também ele que escreveu os textos. Venha o próximo convidado!

Na plataforma CARPE DIEM | ARTE E PESQUISA, alojada no belíssimo (mas algo decrépito) Palácio Pombal podem ser vistas várias propostas: fotografia de Daniel Malhão, com imagens sobre a memória numa espécie de still-life minimalista, temática e fórmula que o parece estar a acompanhar nos trabalhos mais recentes; o processo de pesquisa visual de Ângela Ferreira, visível em Double Lecture; uma longa exposição do espanhol Álvaro Negro, cujo título me parece de inteira adequação “Abro a janela e respiro o ar fresco do fim do mundo“, pois refrescante é a forma como aborda a ideia da viagem e sobretudo do viajante, citando Deleuze “o esplendor do acontecimento é o sentido, não aquilo que sucede”, proporcionando uma abordagem que embora à primeira vista pareça fugaz, acaba por revelar uma estrutura rica em sentido e uso do fotográfico. Embora fora da área da fotografia, um fascinante “percurso” mostrado por Catarina Leitão. Como já não faltassem motivos de sobra para a visita, no final está uma livraria de perder a cabeça (e a carteira), muitos títulos que geralmente não se vêem no mercado nacional, uma pequena mas bem recheada prateleira de fotografia. Tudo muito fora do âmbito “grande superfície”, e onde se podem encontrar à venda exemplares dos meus últimos dois lançamentos (o catálogo da exposição “180º” e “Id”).

Ainda no sábado, na K Galeria as recriações hollywoodescas que São Trindade fez para o aniversário do colectivo Kameraphoto. Os membros do colectivo foram retratados “glamourosamente”, numa irónica representação do fotógrafo como vedeta, na posição oposta aquela onde usualmente está, a de quem é fotografado. O presente também é nosso. Quase como antítese, estas imagens de estúdio, formais e à antiga, trazem-me à memória os (anti)retratos de Thomas Ruff, onde justamente não se cultiva qualquer atitude ou pose. Ruff afirma que os retratos são só imagens, objectivamente isso é correcto, é essa a natureza do meio, mas subjectivamente pode existir algo mais. Parecem formar-se conexões subtis com as imagens, quer se conheçam ou não as pessoas nelas retratadas, e fora de misticismos, essa ligação mesmo “invisível” pode estender-se até à pessoa retratada. Ruff na sua obsessão objectivizante não se terá esquecido de algo?

©Jane e Louise Wilson

No domingo, “A perspectiva das Coisas” no Museu da Glubenkian. Útil sob vários pontos de vista, destacando-se para fotógrafos o estudo do uso da luz e a metodologia do still-life, sobretudo para os que estão interessados na transcrição realista. No CAM, fiquei hipnotizado pelas imagens dos bunkers de Jane e Louise Wilson, artistas que parecem talhadas para analisar a estrutura dos lugares de modo particularmente interessante.

©Samuel Rama

De tarde, passagem pelo Centro de Artes Manuel de Brito, um espaço muito aprazível ali mesmo no meio de Algés, com duas exposições ligadas entre si, uma concernente à obra do gravador Bartolomeu Cid dos Santos, e a outra relativa a 5 projectos que vários artistas perseguiram, inspirados pelo trabalho do mestre. Uma excelente oportunidade para ficar a conhecer mais deste trabalho, que na sua fase mais “psicadélica” teve momentos de génio (emo), embora pareça ter perdido um pouco o folêgo aquando da ligação a Fernando Pessoa, mas que pareceu ganhar novo alento já neste século, com gravuras de conotação mais política. Interessantíssima também a exposição em vitrines de cartas trocadas entre o autor e Manuel de Brito, algumas delas de períodos críticos da história portuguesa, quando o autor vivia em Londres. Nelas encontrei este genial diálogo entre ele e um vizinho, na manhã de 25.4.74, em que procurava indagar a faixa partidária que teria feito o golpe questionando “Right wing?” ao que o vizinho respondeu “No, the right one”. Na outra metade da exposição, denominada “Going South“, estão presentes três fotógrafos, Ana João Romana, num registo documental sobre a casa do autor, ao qual se juntaram várias citações, trabalhando sobre o campo etéreo das memórias. Valter Vinagre documentou nos Açores as pichagens em bunkers construídos na Segunda Guerra Mundial, que Bartolomeu visitou nos anos 70, aparentemente reconstruindo alguns desses itinerários que teria traçado fazer com Bartolomeu, imagens que parecem evocar essa sensação de ausência, como se estivessem inexplicávelmente inacabadas. O gosto pessoal fixou-se nas imagens de Samuel Rama, já vistas na recente exposição no Arquivo Fotográfico de Lisboa. Com Bartolomeu partilham as texturas porosas, constelações cujos contornos mal definidos se assemelham a nada, mas que a mim me deixam siderado, ponto final e palmas para Samuel.

© André Cepeda

Ainda teria sido oportuna a visita à exposição Private Lives, no Centro Cultural de Cascais, mas uma autêntica peregrinação ocorreu na tarde de domingo na marginal, impedindo a chegada a horas. A exposição tem a bondosa particularidade da receita de venda das obras reverter a favor da Ser + (Associação Portuguesa para a Prevenção e Desafio à Sida), numa exibição organizada por Filipa Valladares, com trabalhos de André Cepeda, Catarina Botelho, Duarte Amaral Netto, José Pedro Cortes, Mariana Viegas, Pedro Magalhães, Rita Castro Neves e Vasco Barata.

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