Nuno Moura – A way a life

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Inaugura na próxima sexta-feira, dia 15 na Cooperativa de Comunicação e Cultura de Torres Vedras, a exposição de fotografia “A Way of Life“, do meu amigo Nuno Moura, um registo de pendor documental acerca da vida no circo, na qual tive uma mãozinha de foto-editor, personagem também conhecido por “aquele que chateia”. Aproveitei para lhe disparar umas quantas perguntas acerca do seu trabalho…

ABP – Nuno, quais são as origens do teu romance com a fotografia?

NM – Não consigo precisar no tempo, o como, o quando e o porquê. Lembro-me contudo de duas coisas, para ganhar uns cobres para as despesas diárias, aquelas que uma família numerosa de classe média não podia financiar, comecei cedo (12 Anos) a trabalhar nas férias de Verão, e foi com o meu primeiro ordenado (1000.00 escudos/5€) que comprei o meu primeiro “caixote”… Acho que se chamava “agfamatic”. Recordo-me também da necessidade que tinha em trazer comigo instantes das muitas “viagens” curtas, ou menos curtas, que fazia… Assim como a necessidade que tinha em partilhá-las.

ABP – Quem te influenciou ou influencia no acto fotográfico?

NM – No início ninguém, nunca fui muito dado a ídolos. Só muito mais tarde passei a olhar com mais atenção as fotos, “a sério”, que ia vendo. Penso que os primeiros fotógrafos que “olhei” com atenção foram Steve McCurry e David Alan Harvey, aliás foram eles as minhas referências quando reiniciei a fotografia em finais do século passado (poético né?!). Um dia fiz um workshop com o Nanã Sousa Dias, no qual me foi pedido que batesse umas fotos com um rolo P/B, em que este serviria de suporte para a segunda parte do curso – ampliação. De partida para a Índia e contrariado, lá comprei o filme, o qual acabaria por ser exposto algures na cidade de Benares… “Lixado” por estar a perder as cores fabulosas do amanhecer.  Quando vi a prancha de contacto, foi a “revelação”. Aquele era o único rolo onde aquilo que eu senti, as emoções que experimentei, estavam lá, depois disso ainda não voltei à cor…

Terei concerteza fotógrafos que, talvez inconscientemente, me poderão influenciar. Não procuro no entanto, copiar ou seguir um estilo ou fotógrafo em particular. Prefiro dizer-te alguns dos fotógrafos que mais admiro:

Ara Guller – O “Cartier-Bresson” Turco. Pela poesia com que retratou, especialmente,  Istambul.

Arnold Newman – Pelos “retratos ambientais”.

Cartier-Bresson – “O instante decisivo”.

Gregory Colbert – Pelo estética sublime do projecto “ashes and snow”.

Helmut Newton – Pela forma como retratava a Mulher. As Mulheres “masculinas” com tendência para o andrógino… Extraindo toda a sensualidade para além da aparencia, fria, controlada… distante.

James Nachtway – Um dos meus fotógrafos preferidos na actualidade.

Kishin Shiroyama – Pela estética dos nus.

Philipe Halsmam – Um surrealista com uma criatividade fabulosa.

Robert Frank – O Mestre da reportagem subjectiva.

Sebastião Salgado – Pelos projectos. Pela atitude. Pelo “engajamento”.

Steve Mccurry – O meu colorista preferido.

Yousuf Karsh – O retrato perfeito… Volumes, tons, expressões.

Werner Bischof – Um mestre na reportagem objectiva. Com imagens fabulosas sob ponto de vista técnico.

Os meus amigos fotógrafos – Porque aprendi muito com eles.

ABP – Define a tua fotografia.

NM – Não gosto muito de definições porque ao definir estou a enquadrar em algo que já existe. Além de que estou a auto analisar-me o que também não me agrada visto que sendo a fotografia, também, uma forma de comunicação, prefiro deixá-lo para outros. Direi apenas que me preocupa o lado Humano da sociedade, que se vai esbatendo para dar lugar a relações estabelecidas com base no dinheiro, no consumo. Para te dar um exemplo, se vais ao mercado vês, para além do acto de comprar e vender, relações que se estabelecem dentro de outras premissas. Acaba por ser um local que transcende o mercantil e se alarga nos horizontes das relações Humanas. Por contraponto no hiper, existe apenas um lado comercial, um apelo manipulativo à compra. No hiper não se estabelecem relações… Porque as regras do espaço não permitem o estar, mas o comprar rápido. Porque tu não te relacionas com pessoas, mas com uma omnipresente marca. Não vais comprar ao Sr. Joaquim que tem uma história,  mas, passe a publicidade, ao “modelo”. No fundo procuro registar o que o consumismo e a globalização, como forma de ditaduras… As novas ditaduras que legitimamos com um voto e acreditando que vivemos em democracia, vão fazendo desaparecer. A multiculturalidade, a biodiversidade… A livre iniciativa, estão em vias de extinção. Hoje é preciso ser testemunha para que existam no futuro e acreditando da reversibilidade do processo,  referenciais que ajudem à tomada de consciência. E faço-o procurando,  naquele momento em que o mundo para dar lugar à reflexão, criar uma imagem cujo sentido estético ajude a despertar emoções.

ABP – O que é que gostas e desgostas na fotografia de hoje
Agrada-me bastante o facto de existirem muitas formas de expressão fotográfica, mesmo naquelas que não consigo encontrar sentido, talvez por ignorância. Agrada-me o facto da fotografia se ter “democratizado”, pois é fácil a qualquer um comprar um objecto que registe o instante, mas essa “democracia” está a revelar-se,  nalguns casos, um presente envenenado, pois duma certa banalização da imagem em que se perde o sentido estético e provavelmente também o seu valor, disso se aproveitam as grandes “centrais” de venda online de imagens, em detrimento dos fotógrafos profissionais que dessa forma veêm reduzido o valor do seu trabalho. Depois há a questão do digital que muitos acreditaram, perdoem-me a expressão, ingenuamente, que tornaria o custo da actividade mais barato, mas que na prática se revelou o contrário, embora reconheça o carácter prático do digital. Mas no geral acho que o balanço é positivo, a “democratização” digital trouxe muita gente com imensa qualidade, é apenas preciso separar o “trigo do joio”. A fotografia hoje está bem e recomenda-se.

ABP – Como é que surgiu esta série que vais agora expôr na Cooperativa?

NM – Periodicamente montavam-me um circo à porta de casa. Se tivermos em conta aquilo que disse anteriormente, temos os ingredientes necessários a uma reportagem. Um circo, a não ser que se trate de um qualquer projecto mediatizado, por isso naturalmente protegido, é uma atitude marginal, leia-se à margem. São elementos estranhos à nossa mentalidade burguesa e provinciana, de certo modo são o oposto dos “pequenos poderes” que tentam controlar a sociedade, dita civilizada, para proveito próprio.  De vez em quando aparecem umas “almas caridosas desejosas de protagonismo” que se aproximam destas realidades humanas, mas não passa disso…

ABP Conta-nos um pouco da sua feitura.

NM – Como sempre, começo por uma abordagem com a explicação do projecto, na maior parte das vezes a recepção é positiva. Dificuldades tive certa vez na Índia ao tentar fotografar uma mesquita onde se juntavam radicais islâmicos, acabei por conseguir após horas de conversa, algo em que nós Portugueses somos peritos… Afinal somos todos humanos… E menos diferentes do que aquilo que, por vezes,  pensamos. No circo fui tão bem aceite, que ao fim do terceiro dia já sabia como se faziam os truques de magia.

ABP – Projectos futuros?

NM – O facto de ser amador permite-me trabalhar sem pressões e fazer apenas o que gosto. Neste momento tenho vontade de continuar a fazer este tipo de levantamentos sobre “marginalidades”, leia-se formas de estar que embora tacitamente aceites, são vistas como ameaças ao status quo. Gostaria contudo de tornar a estética da minha reportagem menos objectiva para entrar num conceito mais subjectivo, enos evidente, mas com mais profundidade para os olhares atentos. É preciso fotografar mais….

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January 18, 2009

Após tão tocante demonstração de tão verdadeiro amadorismo fotográfico, apenas me restam algumas, poucas, palavras. Para o editor do trabalho em causa e deste Blog: que continue assim, porque o que ainda faz alguma falta, é quem trate a fotografia de outros autores desta maneira. Com esta qualidade e desta forma tão desinteressada. E já agora, que repare no título e na paginação da entrevista... :-) Para o Nuno, o autor das imagens, menos palavras ainda: apenas o meu grande agradecimento, como fotógrafo e amigo, pelo facto de pensares e nos mostrares, estes aspectos da vida.

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