o retrato como condição da essência do ser

Day 6, Portrait 24 by MoMA The Museum of Modern Art.

O fotógrafo Marco Anelli retratou pessoas durante o momento em que “assistiam” à performance patente no MOMA de Nova Iorque “O artista está presente“. Marina Abramovic está sentada numa cadeira, durante 7 horas por dia, 5 dias por semana, em que à sua frente sucessivamente se vão sentando os espectadores, consistindo a performance justamente nesse momento de encontro, silencioso, durante o tempo que cada visitante entender.

Mas este texto não é sobre esse acto, sem dúvida riquíssimo, do ponto de vista artístico e humano. Na escolha desta galeria de Marco Anelli desta fotografia do Lou Reed para ilustrar o post, não é propósito chamar a atenção para as vedetas que frequentam estas actividades, ou lateralmente para o carácter mediático da performance e respectivo conteúdo. Ainda assim foi escolhida por se tratar de alguém cujo rosto é amplamente conhecido (pelo menos na minha geração), e porque a fotografia deste tipo de personagens tende a facilitar uma mecanismo de transferência, que parece desaguar em idolatria, seguidismo, adoração, etc. Poder-se-á falar da fotografia como um dos veículos que propagam este sentido de que a imagem do Eu é igual ao Eu?

A sociedade ocidental contemporânea parece marcada por uma desequilibrante desapropriação da noção de Eu real, em favor de uma qualquer imagem fornecida pelo ego, compulsivamente alimentada pelos mass media e pelo consumo, transcrevendo John Bergera publicidade tira-nos a auto-estima, mas a compra devolve-no-la“. A fotografia tem um quota parte de responsabilidade, pois parte desta energia parece ter sido criada por uma política de representação enganosa, virada para a mostra do ser humano como produto. Se a representação já é em si uma imagem, um facsimile, uma simulação, o mecanismo que induz a possibilidade de se “ser” manifesta uma hiperbolização dessa falsidade. Mas o mais longe que se pode chegar na cópia dos modelos é ao “parecer ser”, nunca ao “ser”, conduzindo a um distanciamento do Eu real por virtude do protagonismo de um Eu imaginado. Poderá contudo essa essência do ser estar representada numa imagem?

Nesta foto podemos ver cabelo desgrenhado, barba por fazer, casaco puído (caspa?) na gola, olhar e rosto inexpressivo. Nela parece aparente a representação de uma pose de anti-vedeta? Podemos dizer desse modo que o anti-vedetismo faz parte da essência de Lou Reed ? Que outras inferências podem ser feitas? O que é que pode ser visto do exterior dos outros que não passe apenas por um mecanismo de projecção do nosso próprio interior? É possível definir um carácter, apenas parte dele ou imagens são a única coisa que temos do outro? O que é que acontece quando passamos da superfície da imagem para o ser (o que leva tempo), pergunta que parece também estar subjacente à performance de Marina Abramovic?

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Comments:

April 28, 2010

Reflexão interessante, sem dúvida! Vivemos na era da (e para a) imagem. Já não importa quem somos, o que é importante, é a imagem que damos de nós mesmos. Já não nos contentamos em dar essa imagem a quem nos está próximo, com as redes sociais a aumentarem o volume de participantes todos os dias, a nossa imagem passa a ser do domínio público mundial. A vontade de nos destacarmos nas multidões, é anseio tão antigo como a humanidade, mas com tudo isso, uma vez que todos passamos a ser vedetas, onde está a diferença entre nós? A solução passa pelos mais diversos estratagemas, tendo todos eles, apenas uma finalidade: chamar a atenção dos outros sobre nós mesmos. Partindo daí, até podemos desembocar no anti-vedetismo... Não sei se é este o caso do Lou Reed, ou simplesmente um cansaço (revolta?) perante a evidente falta de intimidade (e até de liberdade) que implica ser-se vedeta, mas o facto é que, quando se chega ao estatuto de vedeta entre inúmeras outras, e ainda por cima quando esse mesmo estatuto já apresenta alguma "patine", porque não inverter a imagem, chamando a atenção precisamente através da negação desse mesmo estatuto? Lou Reed (ainda) é uma vedeta! Então qual a necessidade de reafirmá-lo? Mais fácil (e cómodo) é simplesmente deixar que o mundo se aperceba do Lou Reed normal, homem que come, bebe, faz as suas compras no hipermercado do bairro, e que, por acaso, tem como profissão, fazer e tocar música... Esse Lou Reed, (ou qualquer outro que opte pela mesma estratégia) será certamente mais autêntico, não necessita de trajar eternamente fatos de lantejoulas, (vestuário que não se aplica muito bem a Lou Reed, sendo somente uma metáfora) mas não será também esta imagem uma representação? Por outro lado, ao comum dos mortais que anseie projectar de si, algo bem diferente que aquilo que ele próprio é, (não eu felizmente), que imagem transmitem os Lou Reed(s) e as Marinas Abramiovic(s)? Que as vedetas a final também são de carne e osso? Sim, certamente, mas penso que a mensagem subliminar que também passa, (e que talvez até, seja a mais incisiva), é a de que, todos nós também podemos ser vedetas. Pois se não precisamos de fazer nada... Se não é preciso sequer tratar da imagem... É sempre assim: quando um modelo se esgota, o que passa a ser IN, é o seu inverso, a sua negação. É assim com as ordens sociais, quando a seguir a uma guerra vem a paz, e a seguir a um período "demasiado longo" de paz vem a guerra... Quando a seguir a uma ditadura vem uma democracia, que após uns anos, se transforma no que mais não será que uma ditadura imposta por uma percentagem daqueles que ainda se dão ao trabalho de se deslocar a uma urna de voto de quatro em quatro anos... E, mesmo assim, nem mesmo esses persistentes interventores sociais, sabem muito bem o que vão fazer a essa mesma urna...(1) E é assim também , com a forma como, simplesmente, nos damos a conhecer uns aos outros. Enfim, é o ciclo da vida.... (1) reflexões talvez influenciadas pela proximidade da data festiva: 25 de Abril. :-)

joaoh
April 28, 2010

A necessidade de individualidade "per si" parece desembocar num beco sem saída, se não for escoada para a dimensão colectiva de individuação. O que é maior, a gota ou o mar? Nem uma nem outra, pois são ambas a mesma coisa, se é que me fiz entender.

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