pastiche ou paródia?


andy warhol, por ele mesmo


da série Matrafonas

Que ideia a de que no Carnaval as pessoas se mascaram. No Carnaval desmascaram-se.
Vergilio Ferreira

Carni vale – the flesh’s farewell to the year, unwinding its mummy wrappings of sex, identity, and name, and stepping forward naked into the futurity of the dream.
Lawrence Durrel

Algures anteriormente, já tinha denunciado a inspiração para as Matrafonas nas polaroides de Andy Warhol. Em Warhol parece dar-se uma paradoxal paródia à utilização das máscaras (interior/exterior) em que o paradoxo parece residir sobretudo na seriedade com que é feita, intenção essa que, segundo alguns autores, reduziria a paródia à condição de pastiche, em que ambos os termos, paródia e pastiche, representam a imitação, a cópia, embora no caso do pastiche, sem o impulso satírico, sem o riso. A fotografia de Warhol por si mesmo acima reproduzida contém a marca da ambíguidade. Será ela uma “paródia séria” sobre si mesmo, a reprodução de uma faceta interior ou mera capa teatral? A existir, essa seriedade assentará na reflexão de que em qualquer coisa, reside sempre essa coisa e o seu contrário? Ou que a própria condição humana oferece uma sintese de forças elementais opostas e que nisso, nada de satírico ou irónico reside? Essa fotografia, parece representar um jogo de mostra-oculta, paródico ou a capacidade de sátira sobre si mesmo, ainda que sob a capa de um rosto sério? Em Warhol, dizem os críticos, não existiu qualquer interesse pela pessoa interior, só pela capa exterior. Já Thomas Ruff preconiza a crítica do retrato como busca da essência. É o retrato capaz de mostrar “interiores”, pode ele sintetizar e evocar algo dessa polifacetado e quimérico jogo de espelhos a que se chama personalidade ou é mera imagem de algo que se desconhece?

Segundo este conceito de paródia e pastiche, é possível descortinar algo de ambos nestes retratos de homens mascarados de mulher. Por um lado, a paródia parece residir não no registo da brincadeira ou na sátira daqueles que a fazem, mas no facto, irónico sem dúvida, de que a realidade parece usar a imagem para se travestir. Do lado do pastiche, a reprodução imitativa de um estilo, apresentado sob a capa de um conceito que nada parece ter de paródico: o de que existem condições femininas no masculino e que essas condições tendem a ser exacerbadas pelo uso de próteses. Mas esse parece ser o desaguar de qualquer questionamento da realidade, o de que tudo está ligado e que existe para se completar, o negativo e o positivo, o masculino e o feminino, ligações que apesar de aparentemente opostas, de facto só existem porque existe o seu contrário, pelo que n’as matrafonas, parecem coexistir iguais doses de pastiche e paródia.

Share: Facebook, Twitter, Pinterest

Leave a Comment: